Uma dieta inadequada continua sendo um dos principais fatores de risco para a doença cardíaca isquêmica, condição causada pela redução do fluxo sanguíneo nas artérias coronárias.
De acordo com uma análise de 30 anos realizada em 204 países, a doença é uma das principais causas de morte no mundo, sendo a má alimentação um dos fatores evitáveis mais significativos para reverter esse cenário.
Homens e idosos concentram o maior número de mortes cardíacas relacionadas à dieta no mundo, agravadas por um aumento de até 361% no consumo de bebidas adoçadas com açúcar e carnes processadas em regiões da Ásia e África entre 1990 e 2023.
O estudo, publicado em 30 de março na revista Nature Medicine, faz parte do projeto Global Burden of Disease (GBD), uma colaboração internacional liderada pela Universidade de Washington que reúne milhares de pesquisadores ao redor do mundo.
Analisando dados da literatura médica e estatísticas oficiais, o grupo desenvolveu um modelo computacional para compreender tanto fatores de risco quanto mortalidade por doenças cardiovasculares.

Segundo as estimativas, somente em 2023, dietas inadequadas foram responsáveis por mais de 4 milhões de mortes por doença cardíaca isquêmica, com quase 97 milhões de anos de vida ajustados por deficiência (DALYs) perdidos.
Essa métrica, usada na área da saúde, representa o equivalente a um ano “perdido” devido à deficiência e à redução da qualidade de vida.
Dietas ricas em sódio e pobres em nozes, sementes, grãos integrais e frutas estavam associadas a maior carga de mortes por doença cardíaca isquêmica, assim como a baixa ingestão de ácidos graxos poliinsaturados ômega-6 – gorduras essenciais para a saúde celular, envolvidas na produção de energia, função imunológica e resposta inflamatória.
“O que vemos como fatores de risco para doenças cardiovasculares são geralmente dietas pobres em frutas, vegetais, nozes e sementes, além de ricas em sal e açúcar adicionado. Uma característica comum em todas essas dietas é o alto consumo de alimentos ultraprocessados”, disse Itamar de Souza Santos, professor do Departamento de Medicina Interna da Faculdade de Medicina (FM) da USP e um dos autores do artigo, em entrevista ao Jornal da USP.
Ele integra o Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil), que investiga a incidência e os fatores de risco para doenças crônicas em 15.000 funcionários de seis instituições públicas de ensino superior nas regiões Nordeste, Sul e Sudeste do Brasil.
Itamar de Souza Santos é professor na Faculdade de Medicina da USP – Foto: Lattes
Os dados coletados pelo ELSA-Brasil serviram como modelo para estudar a relação entre fatores de risco e desfechos clínicos desfavoráveis.
“Este artigo aborda doenças cardiovasculares, mas sabemos que muitos desses alimentos também estão ligados à incidência de câncer, por exemplo. Em outras publicações do grupo, essa perspectiva também é abordada”, disse o professor da USP sobre o estudo Global Burden of Disease, atualizado aproximadamente a cada dois anos.
Análise localizada
O estudo selecionou 13 fatores alimentares distintos – como padrões dietéticos e ingestão de nutrientes – para estimar a carga das mortes por doença cardíaca isquêmica entre 1990 e 2023 em uma análise global, regional e nacional.
Segundo a publicação, o número absoluto de casos relacionados à dieta aumentou, mas as taxas padronizadas por idade diminuíram 44% por 100.000 habitantes, sugerindo crescimento populacional e melhorias gerais na saúde.
No entanto, os autores relataram diferenças significativas entre regiões e grupos populacionais, com a carga da doença particularmente pronunciada em países com índices sociodemográficos baixos e médios.
Regionalmente, Australásia (Austrália, Nova Zelândia, Nova Guiné e ilhas vizinhas), Europa Ocidental e América do Norte apresentaram as maiores reduções nas mortes por doença cardíaca isquêmica atribuíveis à dieta desde 1990.
Em contraste, a África Subsaariana Central registrou um aumento de 21% no mesmo período.
“A maioria dessas variações segue um padrão econômico, em grande parte relacionado à renda. E isso determina muitos desfechos de saúde: desde a prevalência de fatores de risco, acesso a alimentos saudáveis, até tratamento e consequente mortalidade. A vantagem desse tipo de estudo é que traz ideias de estratégias que funcionaram em uma região e que poderiam ser testadas em outros locais”, explicou Santos.
Uma análise de subgrupos mostrou que indivíduos com mais de 65 anos apresentavam taxas de mortalidade mais altas em comparação com aqueles com menos de 45 anos.
Especificamente, os homens apresentaram maior carga de doenças isquêmicas cardíacas relacionadas à dieta em todas as faixas etárias.
O impacto das bebidas adoçadas com açúcar sobre a mortalidade aumentou no Leste Asiático (361%) e na África Subsaariana Ocidental (332%), assim como o peso das mortes associadas a carnes processadas, com aumentos observados no Leste Asiático (84%) e no Sudeste Asiático (48%).
Alimentos prejudiciais x protetores
Enquanto países em desenvolvimento frequentemente enfrentam o peso de doenças associadas à desnutrição e ao acesso limitado a alimentos protetores (como grãos integrais, frutas, vegetais e ácidos graxos ômega-3 e ômega-6), países desenvolvidos são mais afetados pelo consumo excessivo de componentes nocivos (como alimentos ultraprocessados, carnes processadas e bebidas adoçadas com açúcar).
Os componentes dietéticos analisados também mostraram variações regionais na carga de mortalidade.
Dietas pobres em ácidos graxos ômega-3 provenientes de frutos do mar foram classificadas como fator de alto risco na maioria das regiões; no entanto, países desenvolvidos da região Ásia-Pacífico apresentaram menor carga de mortalidade por doença cardíaca isquêmica.
Um padrão semelhante foi observado para dietas pobres em vegetais: embora responsáveis por apenas uma pequena parte da carga de mortalidade causada por doenças cardíacas isquêmicas na maioria das regiões — ocupando o 10º lugar entre 13 globalmente — o baixo consumo de vegetais respondeu por uma proporção maior de mortes em certas regiões, ocupando o 1º lugar entre 13 causas por 100.000 habitantes na África Subsaariana Central e o 3º entre 13 na Oceania.
A coleta de dados permitiu uma análise regional altamente detalhada, alcançando dados em nível estadual em alguns países.
“Quando você olha para o banco de dados e compara dois locais com níveis de renda semelhantes, mas observa diferenças nos resultados, você pergunta: o que foi diferente aqui? Às vezes, era uma estratégia antitabagismo ou uma intervenção relacionada à dieta que funcionava”, disse Santos.
Segundo o professor, o Brasil possui uma quantidade robusta de dados que apoiam a análise científica.
“Caso contrário, teríamos que assumir que funcionamos como outros países, ‘importando’ dados externos”, afirmou.
No entanto, abordar uma dieta ruim ainda exige alfabetização em saúde:
“Esta é uma questão sensível a medidas de políticas públicas que exigem reduções em certos componentes ou fornecem informações muito claras aos consumidores sobre o que está contido em um determinado alimento. O Brasil avançou nas últimas décadas, mas ainda vale a pena investir em educação pública para que as pessoas possam fazer melhor uso dessas informações, com escolhas mais informadas”.
(Via USP)





