O Chile definirá seu próximo presidente no segundo turno em 14 de dezembro, em uma disputa polarizada entre a candidata de esquerda Jeannette Jara (Partido Comunista), apoiada pelo presidente Gabriel Boric, e o representante da extrema direita José Antonio Kast (Partido Republicano). O resultado do primeiro turno, realizado neste domingo (16), consolidou a profunda transformação da agenda política chilena, que trocou as reformas sociais e constitucionais pela segurança pública, tema que hoje domina o pleito em meio ao avanço da criminalidade e à preocupação com a imigração. Com 99,79% das urnas apuradas, Jara, ex-ministra do Trabalho de Boric, garantiu a liderança com 26,85% dos votos válidos, seguida por Kast, com 23,93%. A votação inicial demonstrou a força do voto de direita, que somou mais de 70% da preferência do eleitorado, e essa força tende a se consolidar em torno de Kast no segundo turno, especialmente após o ultraconservador Johannes Kaiser declarar-lhe apoio.
A eleição atual reflete uma profunda virada política no Chile. Diferentemente de 2021, quando Boric venceu com a promessa de mudanças sociais, o clima agora é de insegurança, pois a criminalidade disparou e se tornou a principal preocupação nacional, à frente de temas como economia e saúde. O país viu sua taxa de homicídios mais que dobrar em dez anos, atingindo 6,0 por 100 mil habitantes, e os casos de sequestro bateram recorde. Esse cenário de violência intensificada coincidiu com uma forte onda migratória, principalmente de venezuelanos. Atualmente, quase 700 mil venezuelanos vivem no Chile, e parte da população passou a associar o aumento da imigração ao avanço da criminalidade. A socióloga Lucia Dammert, especialista em crime organizado, descreveu o quadro como um “duplo choque” para o Chile, que não estava habituado a nenhum dos problemas, e que hoje se reflete intensamente no debate político.
As propostas de segurança pública dos candidatos expõem as profundas diferenças ideológicas. Jeannette Jara criticou a “exacerbação do medo” e defende que o combate ao crime organizado deve focar na desarticulação de suas finanças, propondo o levantamento do sigilo bancário de suspeitos para rastrear fluxos ilegais. Em sua plataforma, ela também inclui a implementação de um salário mínimo digno, o estabelecimento de um preço máximo para medicamentos e a criação da Empresa Nacional de Lítio, uma estatal estratégica. Já José Antonio Kast adota uma abordagem de linha-dura, prometendo expulsar todos os imigrantes sem documentos e implantar o chamado “Escudo da Fronteira”, que prevê a construção de um muro de 5 metros, trincheiras e cercas elétricas ao longo da divisa norte do país. Economicamente, Kast defende um corte nos gastos públicos e planos de parceria público-privada para setores sociais.
A região norte do Chile, fronteiriça com grandes produtores de drogas (Peru e Bolívia), se tornou alvo de organizações criminosas transnacionais, como o “Tren de Aragua”. O ex-procurador-chefe de Tarapacá, Raul Arancibia, relatou que o grupo trouxe novos tipos de violência, como extorsão e assassinatos, aos quais os próprios criminosos chilenos não estavam acostumados, e que seus alertas iniciais em 2021 foram ignorados. Embora o governo Boric afirme ter tomado medidas e prendido centenas de membros do grupo, a especialista Dammert alerta que focar excessivamente nos grupos transnacionais desvia a atenção da profundidade do problema interno: “a maioria das pessoas presas é chilena, e a maioria das gangues também é comandada por chilenos”.




