O Presidente da Aliança Cooperativa Internacional para as Américas, José Alves, durante entrevista ao BC TV


Por Adriana Blak (RJ)

O cooperativismo, modelo econômico baseado na união de pessoas com objetivos comuns, já impacta milhões de brasileiros e movimenta cifras bilionárias. Presente em mais de 3,5 mil municípios, o sistema reúne cerca de 26 milhões de cooperados e gera aproximadamente 580 mil empregos diretos. Estima-se que neste ano o faturamento global do setor será de R$ 760 bilhões no país e há projeções de que em curto espaço de tempo deve atingir R$ 1 trilhão.

O presidente da Aliança Cooperativa Internacional para as Américas, José Alves, deu entrevista nesta terça-feira (5) ao BC TV, oportunidade em que destacou que o cooperativismo se diferencia do modelo empresarial tradicional por ser uma “sociedade de pessoas, e não de capital”.

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Segundo Alves, o “princípio da igualdade” entre os cooperados é o que sustenta o sistema. “Em uma cooperativa de produtores de leite, por exemplo, um grande produtor e um pequeno produtor têm o mesmo poder de voto. O objetivo é unir forças para competir melhor no mercado e dividir os resultados de forma mais justa”, afirmou.

Presença nacional e diversidade de setores

O Brasil conta hoje com cerca de 4.500 cooperativas, distribuídas em 3.586 municípios. O setor agropecuário é o mais forte, com faturamento estimado em R$ 438 bilhões. Mas há também cooperativas atuando em crédito, saúde, consumo, transporte e infraestrutura.

Em 2024, o cooperativismo brasileiro movimentou aproximadamente R$ 760 bilhões. Além do impacto econômico, o modelo é considerado estratégico para a geração de empregos e para a inclusão social.

Reconhecimento ainda limitado

Apesar dos números expressivos, José Alves observa que o reconhecimento social do cooperativismo permanece restrito. “Muitas pessoas não sabem que consomem produtos ou serviços de cooperativas. Ainda existe um desconhecimento sobre a força desse sistema”, disse.

No cenário internacional, o setor também impressiona: o faturamento das dez maiores cooperativas do mundo equivale à nona maior economia global, reforçando sua relevância.

Desafios e iniciativas de visibilidade

Para ampliar a presença no mercado e aproximar o consumidor, iniciativas como o selo “SomosCoop” foram lançadas no Brasil. A proposta é identificar produtos e serviços oriundos de cooperativas e fortalecer sua identidade.

Entidades como a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) têm desempenhado papel central na consolidação dos princípios cooperativistas e na inserção do tema no debate econômico nacional.

O desafio, agora, é tornar o modelo mais conhecido da população e mostrar que, por trás de muitos produtos e serviços consumidos diariamente, pode haver uma cooperativa.

A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:

Adriana Blak – Dr. José, o que é o cooperativismo, em palavras simples, para quem não conhece?

José Alves – O cooperativismo é um modelo de negócio diferente do que vemos normalmente no mercado. Ele se caracteriza por ser uma sociedade de pessoas, e não de capital, como estamos acostumados.

Isso significa que, em uma cooperativa — como uma de produtores de leite — um grande produtor que produz milhares de litros por dia tem o mesmo peso que um pequeno produtor que também faz parte da cooperativa.

É uma forma de unir as pessoas em torno de necessidades em comum: cada um contribui com sua parte, e juntos têm mais força para enfrentar o mercado e dividir os resultados entre todos os cooperados.

Adriana Blak – Como é que funciona uma cooperativa na prática?

José Alves – Na prática, uma cooperativa funciona como um esforço coletivo para alcançar um objetivo em comum. Seja uma cooperativa agropecuária, de consumo, de crédito ou de saúde, as pessoas se unem para ocupar espaço no mercado, valorizar sua atuação e também o seu investimento.

Diferente do modelo tradicional, em que os resultados vão para investidores, na cooperativa esses resultados são distribuídos entre todos os cooperados, de forma mais direta e justa.

Adriana Blak – Quantas cooperativas existem hoje no Brasil?

José Alves – No Brasil, existem hoje aproximadamente 4.500 cooperativas, distribuídas por todos os estados do país — um número bastante significativo. Ao todo, são cerca de 26 milhões de cooperados.

Se considerarmos que cada cooperado faz parte de uma família, esse número pode chegar a quase 80 milhões de pessoas impactadas pelo cooperativismo. Isso mostra que o setor tem uma força extraordinária no país.

E essa força não aparece apenas no mercado, mas também na capacidade de promover uma distribuição mais justa e social dos resultados gerados pelas cooperativas.

Adriana Blak – Em quantos municípios brasileiros as cooperativas atuam?

José Alves – As cooperativas atuam hoje em cerca de 3.586 municípios brasileiros, mostrando uma presença ampla em todo o país.

Elas estão presentes em diversas áreas da economia, como cooperativas agropecuárias, de consumo, de crédito — que vêm crescendo bastante —, além de cooperativas de infraestrutura, saúde, trabalho, produção de bens e serviços e transporte.

Em breve, também haverá cooperativas de seguros, já que a legislação recente passou a permitir a atuação nesse setor, ampliando ainda mais o alcance do cooperativismo no Brasil.

Adriana Blak – Qual é o ramo mais forte do cooperativismo brasileiro?

José Alves – No Brasil, há vários ramos fortes do cooperativismo, e isso depende do critério analisado, como faturamento, sobras ou geração de empregos. O setor agropecuário é o maior destaque, com um faturamento aproximado de R$ 438 bilhões, sendo hoje o principal dentro do sistema cooperativista.

Além disso, o cooperativismo vem crescendo ano a ano no país. Esse crescimento aparece tanto no número de cooperados quanto no faturamento das cooperativas. No entanto, o número de cooperativas em si não cresce na mesma proporção.

Isso acontece porque muitas cooperativas estão centralizando seus serviços, ganhando mais força e escala. Ou seja, mesmo sem aumentar tanto em quantidade, o cooperativismo como um todo continua se expandindo de forma significativa.

Adriana Blak – Qual foi o faturamento total das cooperativas brasileiras em 2024?

José Alves – Em 2024, o faturamento conjunto das cooperativas brasileiras foi de aproximadamente R$ 760 bilhões, mostrando a grande relevância do setor no país.

O cooperativismo ocupa um papel importante na construção da sociedade, embora ainda tenha pouco reconhecimento — muitas pessoas ainda não entendem bem o que ele é e onde está presente.

Em nível mundial, se considerarmos o faturamento das dez maiores cooperativas do mundo, esse valor seria equivalente à nona maior economia entre os países. Isso mostra que o cooperativismo vem se desenvolvendo de forma significativa, tanto no Brasil quanto no mundo, gerando impactos econômicos e sociais muito relevantes.

Adriana Blak – E o que o senhor acha que falta para haver esse reconhecimento?

José Alves – Eu não sei ao certo, mas no Brasil a gente tem trabalhado bastante nisso. A OCB, que é a Organização das Cooperativas Brasileiras, com sede em Brasília e representação em todos os estados, vem fazendo um trabalho importante de defesa dos princípios, valores e interesses do cooperativismo.

Além disso, foi lançado o selo “SomosCoop”, para que as cooperativas possam identificar seus produtos e serviços. A ideia é que as pessoas reconheçam que aquilo que consomem vem de uma cooperativa, mesmo sem saber disso antes. Esse projeto tem trazido resultados positivos para o cooperativismo brasileiro.

Hoje, as cooperativas geram aproximadamente 580 mil empregos diretos no país, sem contar os empregos indiretos ligados aos serviços que elas contratam. É um impacto bastante significativo no Brasil.

📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:

Setor agrega 26 milhões de associados no país

Sicredi é uma cooperativa que atua no setor financeiro, oferecendo crédito. (Reprodução)

O cooperativismo brasileiro consolidou-se como um dos pilares da economia nacional, combinando relevância social e força empresarial.

Trata-se de um modelo baseado na união de pessoas em torno de objetivos comuns, regido por princípios de democracia, participação e distribuição equitativa de resultados.

No Brasil, sua história remonta ao início do século XX, quando surgiram as primeiras cooperativas de crédito e de produção agrícola, inspiradas em experiências europeias.

Desde então, o movimento cresceu de forma contínua, adaptando-se às transformações econômicas e sociais do país.

Hoje, o cooperativismo está presente em praticamente todos os setores produtivos. No campo, as cooperativas agropecuárias desempenham papel decisivo na organização de pequenos e médios produtores, garantindo acesso a mercados, tecnologia e exportações.

No setor financeiro, as cooperativas de crédito compõem o Sistema Nacional de Crédito Cooperativo, regulado pelo Banco Central, e ampliam o acesso a serviços bancários em regiões onde instituições tradicionais não chegam. Há ainda cooperativas de saúde, transporte, educação, consumo e infraestrutura, todas voltadas para atender demandas específicas de seus associados.

Os números oficiais confirmam a dimensão do movimento. Segundo o AnuárioCoop 2025, publicado pelo Sistema OCB (Organização das Cooperativas do Brasil), o país conta com 4.384 cooperativas, reunindo 26 milhões de cooperados e gerando 578 mil empregos diretos.

Estima-se que hoje o setor movimente algo em torno de R$ 700 bilhões por ano, e existem projeções de curto prazo de chegar a R$ 1 trilhão.

A movimentação econômica é expressiva: as cooperativas de crédito administram bilhões em ativos e operações, enquanto as agropecuárias respondem por uma fatia significativa das exportações nacionais.

Além disso, o modelo contribui para o desenvolvimento regional, ao fortalecer economias locais e promover inclusão financeira e social.

A importância do cooperativismo vai além dos indicadores econômicos. Ele representa uma alternativa de organização produtiva que alia eficiência empresarial a valores de solidariedade e sustentabilidade.

Em um país marcado por desigualdades, o cooperativismo oferece instrumentos de participação e empoderamento, permitindo que milhões de brasileiros tenham voz ativa na gestão de seus empreendimentos. Ao longo de mais de um século, o movimento consolidou-se como agente de transformação, capaz de gerar riqueza, distribuir oportunidades e sustentar comunidades.

Com raízes históricas sólidas e resultados atuais robustos, o cooperativismo brasileiro reafirma sua relevância como modelo econômico e social. Os dados mais recentes demonstram que não se trata apenas de uma forma de associação, mas de um sistema que movimenta a economia, gera empregos e promove inclusão.

Em tempos de desafios globais e necessidade de soluções sustentáveis, o cooperativismo se apresenta como uma resposta concreta, capaz de combinar competitividade com responsabilidade social.

O que é a Alianças Cooperativa Internacional para as Américas

Reunião de cooperados – produtores rurais – na Cooperativa Coopervale (atual C.Vale), em Palotina (PR). (Foto: Divulgação)

Criada em 1990, a Aliança Cooperativa Internacional para as Américas, conhecida como Cooperativas das Américas, consolidou-se como o principal organismo de representação do movimento cooperativista no continente. Sediada em San José, na Costa Rica, a entidade é o braço regional da Aliança Cooperativa Internacional (ACI), fundada em 1895 e com sede global em Bruxelas, Bélgica.

A organização reúne 74 entidades filiadas, que representam cerca de 50 mil cooperativas e mais de 300 milhões de pessoas nas Américas. Sua missão é defender e promover a identidade cooperativa, fortalecendo o modelo como alternativa econômica inclusiva e sustentável.

O trabalho da Cooperativas das Américas vai além da representação política. A entidade organiza assembleias regionais, promove capacitação e fomenta redes de cooperação entre países. Também atua como interlocutora junto a organismos internacionais, reforçando o papel das cooperativas na agenda de desenvolvimento sustentável.

Desde 1946, a ACI é reconhecida como uma das primeiras ONGs a ter assento no Conselho da ONU, o que confere legitimidade às suas ações em escala global. No continente americano, a entidade busca reposicionar o cooperativismo diante dos desafios contemporâneos, como a transição energética, a digitalização da economia e a inclusão social.