A derrocada do Banco Master e a subsequente liquidação extrajudicial da instituição, decretada pelo Banco Central (BC) após a prisão de seu fundador, Daniel Vorcaro, deflagraram suspeitas sobre a saúde de liquidez e solvência do Banco de Brasília (BRB).
A instituição estatal do Distrito Federal tenta agora convencer o regulador e o mercado sobre a viabilidade de um plano de recuperação que envolve a venda de um “pacote” heterogêneo de ativos — que vai de aeronaves executivas a cemitérios — avaliado em R$ 21,9 bilhões.
O imbróglio teve origem na aquisição, pelo BRB, de carteiras de crédito consignado do Master pelo valor de R$ 12,2 bilhões. As investigações da Polícia Federal, no âmbito das operações “Carbono Oculto” e “Compliance Zero”, apontam que tais carteiras eram “podres” ou fraudulentas, fabricadas pela empresa Tirreno. Diante da contestação dos lastros pelo BC, o Master substituiu os ativos por uma cesta de bens de liquidez duvidosa pouco antes de ter sua liquidação decretada em fevereiro de 2026.
O “estoque” de ativos e o desafio da liquidez
O portfólio que o BRB agora carrega em seu balanço reflete a tentativa desesperada de Vorcaro de estancar a sangria antes de sua prisão em novembro de 2025.
Na lista de itens que o presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, tem oferecido a investidores na Faria Lima, constam:
- Grupo Maya (Cemitérios São Paulo S.A.): Empresa que administra cinco cemitérios na capital paulista e é alvo de reclamações de usuários e investigações municipais por suposta fusão informal com o grupo Cortel.
- Ativos imobiliários e participações: Terrenos em áreas nobres como a Cidade Jardim, em São Paulo, além de restaurantes e contas no exterior.
- Aeronaves: A Viking Participações, que controla três jatos — incluindo o Falcon 7X utilizado por Vorcaro —, teve 55% de seu capital transferido para o fundo Stern (administrado pela Reag, empresa acusada de lavar dinheiro do PCC) em uma operação que a PF suspeita ser uma tentativa de blindagem patrimonial.
Segundo Ailton de Aquino, diretor de Fiscalização do Banco Central, o rombo no BRB decorrente dessas operações pode ultrapassar R$ 5 bilhões. Em janeiro deste ano, o regulador exigiu que o banco estatal fizesse um provisionamento imediato de R$ 2,6 bilhões.
Conexões políticas e patrocínios sob lupa
A crise financeira ocorre em um momento de fragilidade nas contas do Governo do Distrito Federal (GDF), controlador do banco. Em 2025, o GDF registrou déficit de R$ 926,5 milhões. Paralelamente ao rombo no Master, a política de patrocínios do BRB entrou no radar dos órgãos de controle.
Sob a gestão de Ibaneis Rocha (MDB), os gastos com apoios comerciais saltaram de R$ 1 milhão anuais para uma reserva de R$ 125,8 milhões em 2025. Entre os aportes mais questionados estão o patrocínio de R$ 32 milhões ao Flamengo — time do governador —, além de R$ 1 milhão para um show de Roberto Carlos na Paraíba e R$ 800 mil destinados a congressos de procuradores e segurança pública.
O GDF sustenta que o banco possui solidez e que a alienação dos ativos regularizará a situação. O plano de recomposição de capital apresentado ao BC inclui quatro frentes: empréstimos via consórcio bancário, acesso a recursos do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), criação de um Fundo de Investimento Imobiliário (FII) com prédios do governo e venda direta dos ativos herdados do Master.
Bastidores e defesas
A defesa de Daniel Vorcaro afirma que as movimentações societárias, como a venda da Viking, foram transparentes e comunicadas às autoridades, classificando os registros de 2025 como “atos burocráticos” de um negócio fechado em 2024. Já a Reag, gestora do fundo que adquiriu a empresa de jatinhos, não se manifestou.
O desfecho do caso depende agora da capacidade do BRB em converter cemitérios e aeronaves em caixa imediato, sob o olhar atento da Polícia Federal, que analisa se as transferências de ativos configuram crime de ocultação patrimonial ou fraude financeira.




