Em uma entrevista exclusiva ao Jornal BC TV, do Portal BRASIL CONFIDENCIAL, nesta terça-feira (8), Sérgio Sá Leitão – renomado especialista com vasta experiência no setor cultural, tendo atuado como ex-secretário de Cultura de São Paulo, ex-ministro da Cultura, e dirigido a Ancine e o Centro Cultural Banco do Brasil – abordou a relevância da cultura para a economia nacional, a preservação do patrimônio e a difusão do conhecimento. Recebido pelos jornalistas Camila Srougi e Germano Oliveira, Sá Leitão defendeu a cultura não apenas como um pilar social, mas como um vetor de desenvolvimento econômico.
Indústria Criativa
Questionado sobre os desafios para transformar a indústria criativa em um motor real de desenvolvimento no Brasil, Sá Leitão enfatizou a necessidade de uma mudança de percepção. “Nós precisamos entender de uma vez por todas que é a cultura, as atividades culturais e criativas, que transformam os valores, os símbolos, as expressões da nossa cultura em produtos e serviços, que tudo isso constitui um vetor de propulsão, de desenvolvimento, de geração de renda, de geração de emprego”, afirmou.
Ele ressaltou a imensa vocação do Brasil para este setor, mas lamentou que o país ainda esteja “longe de realizar o nosso potencial”. Para Sá Leitão, a sociedade brasileira precisa se conscientizar de que “cultura é uma economia que gera renda, que cultura gera emprego, que cultura gera inclusão, gera desenvolvimento. É um diferencial competitivo do nosso país. Que podemos e devemos estimular cada vez mais”.
Ele citou como exemplo o Fundo Soberano do Espírito Santo, o único estado brasileiro a criar um fundo para gerir recursos de royalties do petróleo, que poderia ser um “estimulador, um dínamo do desenvolvimento da economia criativa no Espírito Santo e isso pode contribuir imensamente para o desenvolvimento do Espírito Santo e do Brasil”.
O ex-ministro defende que o Brasil deve aproveitar seu potencial cultural, que se destaca pela diversidade e riqueza em áreas como música, audiovisual, teatro, dança e literatura, além das manifestações e festas populares. “Nós estamos entre os países em que as expressões culturais e criativas têm o maior peso. Isso aí deriva da diversidade da nossa sociedade. Do processo constitutivo da nossa sociedade que gerou esse caldo cultural fabuloso aí que nós temos. Muitas áreas, na música, no audiovisual, no teatro, na dança, na literatura também. As nossas manifestações, expressões populares, as festas populares, enfim, tudo isso é uma riqueza do Brasil. Tudo isso são ativos do Brasil”, salientou.
A fusão que gera unicórnios
A entrevista também abordou o impacto da tecnologia e da inteligência artificial na produção cultural brasileira. Sérgio Sá Leitão destacou a crescente interseção entre a economia criativa e a inovação tecnológica. “É cada vez mais, economia criativa e a tecnologia e inovação estão juntas. As interseções são muitas”, disse, citando a indústria de games como um grande exemplo. Ele mencionou o caso da Wild Life Studios, uma empresa que surgiu em São Paulo “no quarto dos fundos da casa de uma família de classe média de São Paulo, dois meninos muito jovens, de 15 anos, 16 anos. E a Wild Life Studios se tornou o 11º unicórnio brasileiro. Quer dizer, uma startup que amealhou mais de um bilhão de dólares de investimento”.
Para Sá Leitão, esse exemplo demonstra como a cultura e a tecnologia podem se fundir para gerar empreendimentos que beneficiam o conjunto da economia brasileira. “É onde a cultura e a tecnologia e inovação se misturam, se fundem. Gerando um empreendimento que traz benefícios para o conjunto da economia brasileira e para o país”. No entanto, ele apontou uma lacuna no Brasil: “O que nos falta são mecanismos capazes de estimular as startups, de financiar as ideias realmente criativas. Realmente são poderosas. Do ponto de vista transformador, do ponto de vista empreendedor, para que a gente tenha um ecossistema mais favorável. Aumento tanto da economia criativa quanto da inovação e da tecnologia”.
Lei Rouanet
Um dos pontos altos da entrevista foi a defesa de Sá Leitão pela Lei Rouanet. Diante do debate sobre a volta do financiamento subsidiado pelo governo, ele se mostrou um “entusiasta da Lei Rouanet”, afirmando que “não se trata de uma questão ideológica. Se trata apenas de entender o que é a Lei Rouanet. O Brasil pode fazer ainda mais”. Ele apresentou dados de um estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em 2018 para o Ministério da Cultura, que identificou que “para cada R$ 1 alocado na economia criativa por meio da Lei Rouanet de recursos oriundos de impostos a pagar, sobretudo de empresas, mas também de pessoas físicas, porque tem recursos que o governo tem de receber e que foram alocados em projetos culturais, para cada R$ 1, houve a injeção na economia de R$ 1,59”.
Sá Leitão ressaltou que esse cálculo ainda não considerava as receitas geradas pelas atividades, algo que a FGV está atualizando em uma nova edição do estudo. “Graças à Lei Rouanet que nós temos muitas orquestras no Brasil, nós temos museus, nós temos instituições que realizam trabalhos de caráter permanente e contínuo. Isso não seria possível sem a Lei Rouanet ou sem o investimento público”, argumentou. Ele reiterou que “o investimento público na cultura é necessário. A cultura é um indicador civilizatório. A cultura faz muito bem para a sociedade”.
Além de gerar renda e emprego, “ela também estimula os indivíduos, ela conecta as pessoas, ela gera senso de pertencimento. Ela alarga o repertório, ela qualifica o capital humano, que é o principal vetor de toda a sociedade. Enfim, os benefícios da cultura para os indivíduos e para o país são imensos”. Para ele, “a Lei Rouanet tem sido um instrumento muito poderoso de financiamento da cultura, com resultados expressivos e significativos. Não apenas para o setor cultural, mas para o conjunto da sociedade”.
📺 Assista aqui a íntegra da entrevista com Sérgio Sá Leitão:




