A aceleração dos preços em Buenos Aires atingiu um patamar simbólico em março ao registrar alta de 3%. O índice mensal da capital argentina, isoladamente, já se aproxima do que o Brasil projeta para a inflação de um ano inteiro. No acumulado do primeiro trimestre de 2026, o custo de vida na metrópole subiu 8,9%, enquanto o indicador oficial dos últimos 12 meses na Argentina alcançou a marca de 32,1%, mantendo o país em um estado de fragilidade econômica crônica.
O certo é reflexo direto das medidas de austeridade do governo de Javier Milei. O ajuste, focado no corte drástico de subsídios e na liberação de tarifas represadas, fez com que os preços regulados — que incluem serviços básicos como luz e água — saltassem 6,5% apenas em março. O transporte público subiu 6%, pressionado pelos constantes repasses no preço do diesel e da gasolina, enquanto o setor de educação liderou as altas com 8,6%, impactado pelo reajuste das mensalidades no início do ano letivo. Alimentos e bebidas, embora apresentem um ritmo de subida menos agressivo que no ano anterior, seguem como o principal dreno do poder de compra das famílias de baixa renda.
A disparidade entre o custo de vida e os rendimentos acentua o abismo social na capital. Atualmente, o salário médio líquido em Buenos Aires é de aproximadamente 176 mil pesos, o que na conversão direta representa menos de R$ 500 mensais. Mesmo para trabalhadores de grandes empresas, que possuem as melhores remunerações médias da cidade, o valor de 246.390 pesos equivale a apenas R$ 697. Nas médias empresas, o ganho cai para R$ 548, chegando a apenas R$ 299 para quem atua em microempreendimentos. No setor público, a média salarial estacionou em 140.800 pesos, cerca de R$ 398.
As estatísticas oficiais de Buenos Aires revelam que a linha que define a classe média tornou-se inalcançável para a maioria. Uma família de quatro pessoas necessita hoje de ao menos 2,3 milhões de pesos (R$ 6.513) mensais para ser enquadrada nessa categoria. Para aqueles que não possuem imóvel próprio e precisam arcar com os custos de aluguel — cujos contratos sofreram forte desregulamentação —, o valor necessário para a subsistência digna salta para 3,4 milhões de pesos (R$ 9.628). Na prática, o salário médio oficial cobre menos de 8% dos custos de uma vida padrão de classe média.
Para o brasileiro, o cenário gera um contraste gritante. Com a moeda local praticamente sem valor frente ao real, o poder de compra de quem viaja do Brasil para a Argentina é enorme. Em abril de 2026, a cotação oficial é meramente figurativa, e no mercado paralelo — o chamado dólar blue — um único real é capaz de comprar milhares de pesos. No entanto, para o cidadão local, essa desvalorização significa o derretimento das economias e a impossibilidade de planejamento.
A estratégia de “terapia de choque” de Milei concentrou quase dois terços da inflação de março em itens de primeira necessidade: transporte, habitação e alimentação. Embora a Casa Rosada sustente que o rigor fiscal é o único caminho para a estabilização macroeconômica a longo prazo, o impacto imediato tem sido o esmagamento do consumo interno e um processo de empobrecimento acelerado que atinge inclusive setores da sociedade que, até pouco tempo, gozavam de relativa estabilidade financeira.



