Os problemas com o diesel começam em meio à colheita da safra. (Foto: Reprodução)


Um dia após o governo Lula anunciar a desoneração de PIS/Cofins sobre o diesel, os preços do combustível seguem em alta, em meio a denúncias de especulação por parte de postos e distribuidoras. Produtores rurais do Rio Grande do Sul e do Paraná relatam dificuldades para abastecer máquinas agrícolas em plena colheita e acusam aumentos abusivos.

A escalada ocorre em paralelo à disparada do petróleo no mercado internacional, que voltou a superar a marca de US$ 100 o barril após o agravamento do conflito entre EUA, Israel e Irã. Embora a Petrobras ainda não tenha reajustado os preços no Brasil, o diesel já acumula alta de 7% nos primeiros dias de março.

No campo, os relatos são de escassez e preços fora da realidade. Em Pelotas (RS), o produtor de arroz Fernando Rechsteiner afirma que o litro do diesel saltou de R$ 5 para R$ 7 em poucos dias, além de enfrentar lista de espera para entrega. No Paraná, o Sistema FAEP registra casos de distribuidoras sem produto em municípios como Rio Azul, Faxinal e Guarapuava. Em Erechim (RS), o sindicato rural estima que 20% dos produtores não conseguem comprar diesel, com reajustes que variam de 20% a 55%.

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A Agência Nacional do Petróleo (ANP) nega desabastecimento e afirma que os estoques são suficientes, mas anunciou que notificará distribuidoras para esclarecer volumes em estoque e pedidos atendidos. Ainda assim, entidades do setor suspeitam de retenção deliberada de produto para elevar margens. “O diesel que está saindo das distribuidoras foi comprado com petróleo abaixo de US$ 60. Segurar o estoque para vender 50% mais caro é especulação”, critica Antônio Luz, economista-chefe da Farsul.

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) abriu investigação sobre preços abusivos, após pedido da Secretaria Nacional do Consumidor. Paralelamente, associações rurais e distribuidoras pressionam o governo por medidas emergenciais para ampliar a oferta de biodiesel. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) pediu ao Ministério de Minas e Energia o aumento da mistura obrigatória de 15% para 17%. Já entidades como Abicom e Fecombustíveis defendem a liberação da importação de biodiesel até 20% da demanda nacional.

No curto prazo, o impasse ameaça a logística da colheita e pode pressionar os custos de alimentos. A percepção generalizada entre produtores é de que o mercado opera em ritmo especulativo, em contraste com o discurso oficial de normalidade no abastecimento.