Por Camila Srougi e Germano Oliveira
O estresse deixou de ser apenas um incômodo emocional para se tornar uma ameaça concreta à saúde física. A constatação vem da médica Dra. Patrícia Olaya, especialista em psiquiatria e dermatologia, que deu entrevista nesta quinta-feira (5) ao programa BC TV, do portal Brasil Confidencial.
A médica detalhou como a liberação contínua de hormônios ligados ao estresse pode fragilizar o sistema imunológico e abrir caminho para doenças graves.
Segundo a especialista, a descarga crônica de substâncias como cortisol e adrenalina no organismo provoca alterações metabólicas, inflamatórias e imunológicas. “O resultado é um terreno fértil para o surgimento ou agravamento de enfermidades cardiovasculares, autoimunes, infecciosas e dermatológicas”, disse.
“O problema não está no estresse pontual, que é adaptativo e nos prepara para reagir. O risco aparece quando esse estado se prolonga e se torna crônico”, explica.
A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:
Camila Srougi – Para começar, muita gente ainda trata o estresse como algo apenas psicológico. Do ponto de vista fisiológico, o que acontece no nosso organismo que faz com que um período de ansiedade se transforme em uma queda real da imunidade?
Dra. Patrícia Olaya – Na verdade, períodos de estresse são cada vez mais frequentes, mas não podem ser entendidos apenas como uma questão emocional. Quando vivemos situações de estresse ou ansiedade intensa, ocorre no organismo uma descarga de hormônios, citocinas e outras substâncias que, num primeiro momento, são mecanismos de defesa. Eles nos ajudam a agir de forma mais rápida diante de situações que nos causam medo, ansiedade ou ameaça.
Esses mecanismos são necessários. Durante esse processo, o coração acelera, há uma liberação maior de açúcar na corrente sanguínea e o corpo entra em estado de alerta. Pontualmente, isso é benéfico, pois nos deixa mais ágeis e preparados para reagir.
O problema surge quando esse estado se torna crônico, algo que temos visto com muita frequência atualmente, inclusive em jovens e crianças — o que é extremamente preocupante. Quando o estresse se prolonga, ele deixa de ser adaptativo e passa a provocar doenças físicas. Podemos observar o surgimento ou agravamento de doenças cardiovasculares, diabetes, doenças autoimunes e, dentro da minha área, doenças de pele, que se tornam mais agudas e mais graves em função do estresse e da ansiedade.
Isso já está comprovado cientificamente. Não é algo novo. Ainda nos anos 1980, um casal de pesquisadores, os Glazer, realizou um estudo com estudantes de medicina e demonstrou que, durante a semana de provas, esses alunos apresentavam diminuição das células de defesa, como as células natural killer, além de alterações nas citocinas inflamatórias.
Hoje sabemos que períodos prolongados de estresse e ansiedade diminuem, sim, a imunidade e abrem espaço para o aparecimento de doenças. Pesquisas dos anos 1990 também mostraram que a baixa imunológica provocada pelo estresse pode agravar doenças infecciosas.
O que mudou ao longo dos anos foi a nossa capacidade de compreender melhor os mecanismos envolvidos. Sempre acreditei que corpo e mente precisam caminhar juntos. Para mim, fazer prevenção em saúde hoje faz muito mais sentido do que tratar apenas doenças já instaladas.
Quando falamos de envelhecimento, é fundamental que a população entenda que saber envelhecer é uma grande dádiva. Estatisticamente, sabemos que o Brasil está se tornando um país com uma população cada vez mais velha, e essa realidade só tende a crescer.
Para que essas pessoas envelheçam com qualidade de vida, é necessário um cuidado contínuo ao longo de toda a vida. Autonomia, saúde física, saúde mental e bom funcionamento cognitivo não surgem do nada na terceira idade — são construções feitas ao longo do tempo.
Não podemos tratar apenas as chamadas “doenças da idade” nem achar que o envelhecimento, por si só, traz doenças de forma inevitável. Não necessariamente. É possível envelhecer melhor, com mais qualidade, mais saúde e mais bem-estar. Isso passa por prevenção, cuidado emocional e atenção ao corpo e à mente durante toda a vida.
Germano Oliveira – Durante o estresse, há liberação de substâncias como noradrenalina, dopamina e cortisol, que aceleram os batimentos cardíacos e contraem a musculatura. Isso pode levar a problemas mais graves, como infarto ou AVC?
Dra. Patrícia Olaya – Pode, sim. Principalmente quando essa descarga hormonal acontece de forma frequente e prolongada. É importante lembrar que existe também o fator genético, que é bastante relevante nesses casos. As doenças, em geral, resultam da interação entre genética e fatores ambientais.
No caso do estresse e da ansiedade crônicos, algo que temos visto com muita frequência atualmente, esse excesso de liberação hormonal pode acelerar o aparecimento de doenças que talvez só se manifestassem mais tarde — ou que nem chegariam a se manifestar.
O excesso de citocinas inflamatórias, a diminuição da imunidade e as mudanças metabólicas provocadas pelo estresse crônico podem antecipar doenças cardiovasculares. O coração passa a trabalhar em um ritmo acelerado por muito tempo e pode não suportar essa sobrecarga.
Germano Oliveira – Há estudos que mostram que os efeitos do estresse podem durar até dois anos e facilitar a entrada de doenças e infecções, especialmente em idosos. Isso ficou evidente durante a pandemia. Pessoas idosas e estressadas ficam mais vulneráveis a doenças como a covid-19?
Dra. Patrícia Olaya – Sim. Existem estudos, inclusive dos anos 1990, que mostram que infecções virais se agravam muito em pessoas com altos níveis de estresse e ansiedade. Pessoas com níveis menores de hormônios do estresse, como adrenalina e cortisol, conseguem combater infecções virais com mais facilidade.
No caso dos idosos, isso se torna ainda mais evidente. O envelhecimento pode ser saudável, mas é natural que as células envelheçam e que o funcionamento do organismo já não seja o mesmo de um jovem. O metabolismo se torna menos eficiente e a capacidade de resposta do corpo diminui.
Quando um idoso enfrenta infecções, grandes níveis de estresse, ansiedade ou até solidão — que é um fator extremamente importante — ele pode adoecer com mais facilidade e ter mais dificuldade de se defender. Isso vale para infecções, doenças autoimunes e outras condições.
O que chama atenção hoje é que não vemos isso apenas em idosos. Temos observado doenças autoimunes surgindo em crianças, algo que era raro no passado. Crianças estão expostas a preocupações, informações e experiências que não são adequadas para a idade delas. Vivemos um período de excesso de informação, muitas vezes equivocada, o que gera ansiedade em todas as faixas etárias.
Camila Srougi – Vivemos uma era de exposição constante nas redes sociais e de comparação estética. Essa busca pela perfeição pode se tornar um gatilho para ansiedade e impactar tanto a saúde mental quanto a saúde da pele?
Dra. Patrícia Olaya – Sem dúvida. Foi justamente por isso que busquei uma formação também em psiquiatria. Distúrbios de imagem, dismorfias corporais e doenças autoimunes com manifestações na pele se intensificam muito com a ansiedade e com essa busca incessante pela perfeição.
Hoje vemos complicações graves na área da estética porque as pessoas buscam uma beleza que não é delas, uma beleza do outro. Querem ser alguém que não são, e isso gera muita ansiedade e sofrimento.
A saúde mental é uma grande preocupação na minha prática. Tento sempre ajudar minhas pacientes a se conectarem com aquilo que elas têm de mais bonito, para que possamos melhorar o que já existe. Claro que o envelhecimento traz rugas e flacidez, e isso faz parte da vida.
O estresse, inclusive, já foi comprovado cientificamente como um fator que destrói colágeno. E o colágeno é fundamental para a saúde da pele, para a autoestima e para o bem-estar ao se olhar no espelho.
Mas isso vai muito além da aparência. Estar bem consigo mesma passa diretamente pela saúde mental. Minha mãe costumava dizer que a alegria sai na pele, e isso é verdade. A pele reflete muito do que carregamos por dentro.
As doenças de pele são altamente estigmatizadas. Elas aparecem, são visíveis, e isso impacta profundamente a autoestima. Muitas pessoas passam a se esconder, a sentir vergonha de se mostrar, o que agrava ainda mais o sofrimento emocional.
Quando conseguimos olhar para o ser humano como um todo — suas vivências, angústias, ansiedade e doenças físicas ou mentais — conseguimos promover uma melhora global. É nisso que eu acredito.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:
Conheça a médica Patrícia Olaya

A médica Patrícia Olaya, especialista em dermatologia, atua com foco na saúde e na estética da pele. Defende um atendimento personalizado e humanizado, voltado para o bem-estar e a autoestima dos pacientes.
Formada pela Universidade do Grande Rio (Unigranrio), Olaya é pós-graduada em dermatologia e psiquiatria.
Em 2023, concluiu aprimoramento em Medicina do Estilo de Vida. Há mais de dez anos ministra cursos de cosmiatria para médicos e mantém consultório particular na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.
A profissional sustenta que o envelhecimento feminino após os 40 anos deve ser tratado de forma integrada. Essa abordagem envolve dermatologistas, nutricionistas, educadores físicos e profissionais de saúde mental. Estudos publicados em periódicos internacionais, como o Journal of Women & Aging e o The Lancet Healthy Longevity, indicam que intervenções combinadas fortalecem a capacidade das mulheres de lidar com as transformações dessa fase da vida.
Segundo Olaya, unir ciência, estética e cuidado humano é essencial para que cada paciente alcance uma pele mais saudável e viva o envelhecimento com confiança.



