O mercado acionário brasileiro fecha 2025 com o melhor desempenho em quase dez anos. O Ibovespa, principal índice da B3, avançou 33% no acumulado do ano, segundo dados da consultoria Elos Ayta. Foi a maior alta desde 2016, quando o índice subiu 38,9%. Ao longo do ano, o Ibovespa bateu recordes de fechamento em 32 sessões, superando o ritmo de máximas registrado em 2019.
O resultado surpreendeu analistas que esperavam estagnação, já que a taxa Selic terminou 2025 em 15%, o maior nível em duas décadas.
O fator Federal Reserve
A escalada das ações brasileiras foi influenciada por decisões tomadas em Washington. O Federal Reserve (Fed) reduziu os juros nos Estados Unidos três vezes em 2025, fixando o intervalo entre 3,50% e 3,75%.
Com os rendimentos dos Treasuries em queda, gestores globais buscaram alternativas em mercados emergentes. “Com o custo do capital em queda nos EUA e incertezas sobre a dívida americana, os ativos brasileiros, que estavam descontados, tornaram-se uma alternativa de valor”, disse Lauro Sawamura Kubo, analista da Patagônia Capital.
Resiliência sob o “tarifaço”
O protecionismo do governo de Donald Trump, que impôs tarifas de até 50% sobre diversas importações, não impediu a adaptação das empresas brasileiras. O pessimismo inicial deu lugar a um otimismo cauteloso quando Washington retirou sobretaxas de mais de 200 itens alimentícios, incluindo café e proteínas animais, em novembro.
“O pessimismo sobre as companhias nacionais foi mal dimensionado pelo mercado no início do ano”, afirmou Marcos Praça, da ZERO Markets Brasil. “As grandes exportadoras mostraram solidez operacional mesmo sob estresse comercial.”
O paradoxo dos juros
Com a Selic em 15%, a bolsa conseguiu competir com a renda fixa. Investidores passaram a antecipar cortes em 2026, com projeções de taxa básica em 12,25%.
“O mercado antecipou o futuro”, explicou Felipe Tavares, da BGC Liquidez. “A combinação de preços de ativos historicamente baixos e a perspectiva de queda de juros no horizonte de médio prazo atraiu o fluxo de capital.”
Riscos fiscais e volatilidade eleitoral
Apesar da euforia, persistem dúvidas sobre as contas públicas. “Os temores fiscais ficaram em segundo plano por fatores externos temporários, mas o risco permanece elevado”, alertou Kubo.
O ano de 2026, marcado por eleições, deve trazer aumento de gastos e maior volatilidade. Em dezembro, anúncios políticos já provocaram quedas de até 4% em sessões isoladas.
Perspectivas para 2026
As projeções para o Ibovespa variam entre 170 mil e 200 mil pontos. Empresas com histórico sólido de dividendos — que distribuem entre 9% e 10% ao ano — devem funcionar como “amortecedor” para os investidores.
O Brasil se consolida como porto alternativo em um mundo fragmentado. Mas o sucesso da bolsa dependerá da capacidade de equilibrar crescimento econômico e responsabilidade fiscal em um ano de alta temperatura política.
Bancos: liderança doméstica
- De acordo com levantamento da B3, os bancos privados foram protagonistas em 2025. O BTG Pactual liderou a valorização, com um salto de R$ 155,3 bilhões em valor de mercado até dezembro com.br.
- O Itaú Unibanco manteve a liderança em valor de mercado, enquanto o BTG ultrapassou o Bradesco e assumiu a vice-liderança entre os bancos listados.
- Em contraste, estatais como Petrobras e Banco do Brasil registraram perdas expressivas, com a Petrobras encolhendo R$ 85,7 bilhões em valor de mercado.
O setor bancário mostrou que, mesmo com Selic em 15%, a capacidade de geração de lucro e distribuição de dividendos manteve o apetite dos investidores. Bancos privados se consolidaram como porto seguro, enquanto estatais sofreram com volatilidade política e fiscal.


