Márcia Cavallari, diretora geral da Ipsos-Ipec. (Reprodução: TV)


A escalada das tensões no Oriente Médio despertou no brasileiro um temor imediato: o reflexo no próprio bolso. Uma pesquisa realizada pela Ipsos-Ipec entre os dias 8 e 12 de abril revela que 90% dos brasileiros acreditam que o conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã afetará a economia nacional. Para 65% dos entrevistados, o impacto será profundo.

O pessimismo é ancorado em itens básicos do cotidiano. O levantamento indica que nove em cada dez cidadãos preveem alta nos preços dos combustíveis (92%), dos alimentos (91%), do gás e na inflação oficial (89% cada). A percepção de que a crise cruzará fronteiras é homogênea entre diferentes classes sociais e faixas etárias.

Defesa da neutralidade

Apesar da gravidade do cenário internacional, o brasileiro demonstra pragmatismo diplomático. Segundo o estudo, 83% defendem que o governo brasileiro adote uma posição de neutralidade. O apoio explícito ao eixo Estados Unidos-Israel é de apenas 10%, concentrando-se em estratos de maior renda (19%) e entre o público evangélico (16%). Apenas 2% defendem o apoio ao Irã.

O ataque realizado em 28 de fevereiro por Washington e Tel Aviv, que resultou na morte do líder supremo iraniano e detonou o conflito atual, é visto com ressalvas pela opinião pública nacional. Para 64% da população, a ofensiva foi “desnecessária” ou “totalmente desnecessária” — índice que sobe para 72% entre os que recebem até um salário mínimo.

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“A percepção de impacto econômico demonstra que a população está receosa com os reflexos no bolso e atenta às consequências globais. O brasileiro deixa claro que o governo deve adotar uma postura de neutralidade”, analisa Márcia Cavallari, diretora geral da Ipsos-Ipec.

Divisão sobre os EUA

A imagem das potências envolvidas varia drasticamente. Não há consenso sobre os Estados Unidos, que dividem o país: 42% têm visão favorável e 45% desfavorável. Já em relação a Israel e ao Irã, o sentimento predominante é negativo. O Irã é rejeitado por 69% dos brasileiros, enquanto 51% têm percepção desfavorável sobre Israel.
A preocupação humanitária também é elevada. Cerca de 75% dos entrevistados temem pela própria vida ou de seus familiares em decorrência do conflito, e 70% se preocupam com brasileiros que vivem na região conflagrada.

Abismo de informação

O nível de informação sobre a guerra expõe desigualdades socioeconômicas: embora 60% afirmem estar informados, o índice cai para 45% entre os menos escolarizados e 44% entre os de menor renda. Em contrapartida, 73% daqueles com renda familiar superior a cinco salários mínimos dizem acompanhar o desenrolar da crise.

Metodologia

A pesquisa quantitativa contou com 2.000 entrevistas presenciais e domiciliares, realizadas em 130 municípios, entre 8 e 12 de abril de 2026. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A amostra seguiu cotas de sexo, idade e escolaridade baseadas no Censo 2022 e PNADC 2024.