Libanesas voltam para casa e encontram tudo destruído. (Reprodução: TV)



O cessar-fogo entre Israel e o Líbano, em vigor desde a meia-noite de quinta-feira, 16 de abril, está por um fio. Embora os bombardeios aéreos tenham cessado no subúrbio sul de Beirute e nas regiões leste e sul do país, confrontos terrestres letais envolvendo artilharia persistem entre o Hezbollah e o Exército israelense. Os combates concentram-se na zona tampão ocupada por Israel no sul libanês, em uma profundidade que varia de 5 a 8 quilômetros.


Sepulturas improvisadas em Tiro, sul do Líbano, de civis mortos pelos israelenses. (Reprodução: TV)

Desde o início da trégua, dois soldados israelenses e um número não divulgado de combatentes do Hezbollah morreram. Atrás da chamada “linha amarela” — marcação de demarcação estabelecida por Israel —, as forças de Tel Aviv realizam operações de varredura e demolição de residências com explosivos, consolidando a destruição de localidades fronteiriças. No último domingo, o comando militar israelense ordenou o uso de “toda a força disponível” em caso de ameaça, inclusive durante o cessar-fogo.

Tensão com as forças de paz

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Os capacetes-azuis da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (Finul) têm sido as vítimas colaterais dessa volatilidade. No sábado, 18 de abril, o sargento-chefe francês Florian Montorio morreu em uma emboscada no sul do país. O presidente Emmanuel Macron sugeriu que a responsabilidade recai sobre o Hezbollah, embora o grupo negue envolvimento e classifique as acusações como “arbitrárias”.

Fontes francesas indicam que os soldados foram alvo de disparos ao tentarem remover um artefato explosivo improvisado (IED) durante uma missão de reconhecimento logístico. O incidente ocorreu em Al-Ghandouriyé, área adjacente ao território ocupado pelas tropas israelenses. Paris pressiona o governo libanês a identificar os responsáveis, sob o risco de estremecer as relações diplomáticas com o Líbano.

Beirute: Retorno sem ilusões

No subúrbio sul de Beirute, reduto histórico do Hezbollah, o cenário é de devastação. Mais de 7.500 imóveis foram destruídos ou danificados pelos bombardeios israelenses entre março e abril. Com a trégua, moradores retornam brevemente para recuperar pertences, mas poucos acreditam em uma paz duradoura.

“Para quê, para quem toda essa destruição?”, questiona Ibrahim, morador do bairro de Jamous, enquanto observa os escombros de seu apartamento. Nas ruas, cartazes com críticas ao apoio militar dos EUA a Israel dividem espaço com montanhas de entulho e brinquedos abandonados. O sentimento geral é de ceticismo. A trégua é vista como uma janela de apenas dez dias, enquanto os termos do acordo permanecem vagos sobre a liberdade de ação de Israel para atacar “ameaças imminentes”.

O fim de uma era para a ONU

A Finul, presente na região há 48 anos, enfrenta seu momento mais dramático. Com 343 mortes acumuladas desde 1978, é a missão da ONU com maior número de baixas na história. Pressionado por Israel e pelos Estados Unidos, o Conselho de Segurança da ONU votou pela última prorrogação do mandato da força, que deve iniciar sua retirada definitiva em 31 de dezembro de 2026.

Até lá, a força multinacional de 10.800 soldados tenta manter uma margem de manobra estreita, espremida entre a desconfiança do Hezbollah e as críticas de Israel, que acusa a missão de falhar em impedir o controle da milícia no sul. O futuro da segurança na fronteira agora depende de negociações diretas mediadas pelos EUA, que buscam restaurar a soberania do Estado libanês e desarmar o grupo xiita — uma proposta que o Hezbollah já rotulou como “capitulação”.