Paulo Paiva*
Quando Luiz Alberto Lacalle Pou, filho de ex-presidente, filiado ao tradicional Partido Blanco, que agrega os simpatizantes da direita conservadora, assumiu a presidência da Uruguai (2020), muitos, que desconheciam a tradição democrática daquele país, imaginaram que a solenidade de sua posse, ao interromper um ciclo de 15 anos, sepultava a hegemonia da esquerda.
Qual o quê! Após um mandato de direita, a Frente Ampla voltou a governar o Uruguai com a vitória de Yamandú Orsi, empossado no dia primeiro de março deste ano. A tônica das duas últimas transmissões de bastão foram o respeito à vontade popular e às regras do jogo e a cordialidade. Independente de convicções políticas, estavam todos unidos no compromisso com os valores da democracia e pela governança política na República Oriental.
Muito diferente do que vem ocorrendo em outros países Sul-americanos, no Uruguai os partidos são sólidos e estáveis, como observa seu maior líder, o velho José “Pepe” Mujica, ex-guerrilheiro do grupo Tupamaro, que enfrentou a ditadura militar, entre os anos 1970 e 1980, que ficou quase 15 anos encarcerado e torturado, mas que jamais perdeu a esperança de viver em um país livre e justo.
Afastado das atividades políticas, Mujica vive com sua esposa e, também, ex-militante esquerdista, Lúcia Topolansky, em uma chácara cuidando de flores e hortaliças. Nesse seu refúgio, sereno e firme, deu sua última entrevista ao jornal uruguaio “Búsqueda”, mostrando sua resignação diante da morte que se avizinha.
Em janeiro, ele havia concedido entrevista à BBC News quando anunciara: – “Meu ciclo acabou. Deixo as atividades políticas para os mais jovens que têm vitalidade e sonhos. Eu, sinceramente, estou morrendo. E o guerreiro tem direito ao seu descanso”.
Diagnosticado com câncer no esôfago, em 2024, sem constrangimentos afirmou: – “Estou a morrer”. Aos 89 anos, já com metástase do câncer, Mujica decidiu suspender os medicamentos e aguardar, corajosamente, a hora de partir.
O rosto do carismático líder exibe as marcas dos anos de luta, a coragem de quem combateu tantos combates, e o sorriso tranquilo de quem entende qual foi o seu papel na história.
Suas lições não estão apenas nos exemplos de sua vida, mas, também, em suas reflexões. Vale a pena conhecer o que ele diz.
Sobre a vida: – “A natureza inventou a vida, que é maravilhosa. Mas todas as coisas vivas estão condenadas a morrer. Para sustentar o motor da vida, ela inventou o amor. Aí está… não haveria vida sem amor”.
Sobre o sentido da vida: – “É ter uma coisa principal que preencha os capítulos e as preocupações de nossa existência. No meu caso, é o sonho de lutar por um mundo um pouco melhor. É uma preocupação sociopolítica”.
Sobre a morte: – “Sabe-se que a morte é inevitável. E talvez ela seja como o sal da vida. Ela é uma senhora de quem não gostamos, e que não queremos, mas que inevitavelmente vai chegar em algum momento. Portanto, temos que nos resignar”.
Sobre a política atual: – “Esses populismos de direita têm muito a ver com o desaparecimento dos partidos. A política foi reduzida à aparição de grandes indivíduos que vão resolver tudo. Essa mitologia está substituindo o esforço coletivo dos partidos”.
Sobre o liberalismo: – “Os alicerces para enfrentar a tirania e o despotismo das sociedades aristocráticas foram esquecidos. Agora essa doutrina se reduziu a uma equação econômica”.
Sobre a democracia: – “O fundamental é saber conversar com aqueles que pensam diferente de você”.
Sobre suas crenças, continua não acreditando na existência de Deus, mas espera estar errado, e se arrepende por não ter na juventude acreditado na democracia.
O velho guerreiro não desistiu da vida, tampouco de suas paixões, apenas quer paz no tempo que lhe resta. Obrigado “Pepe” Mujica, por ensinar-nos que a viva vale a pena quando se tem amor. Um dia seu corpo passará, mas seus ensinamentos, como as flores de sua chácara, continuarão se reproduzindo.
*Paulo Paiva é Mestre em Demografia pela Universidade da Pensilvânia, Professor Associado da Fundação Dom Cabral. Foi Ministro do Planejamento e do Trabalho, Vice-Presidente do Banco Interamericano do Desenvolvimento – BID, Presidente do BDMG. Autor.




