Por Luiz Carlos Pereira da Silva*
O Brasil acaba de concluir o maior certame de sua história energética: o Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência (LRCAP 2026). Com a contratação de aproximadamente 19 GW de potência, o evento mobilizou R$ 64,5 bilhões em investimentos projetados, mas trouxe consigo um peso fiscal e tarifário sem precedentes, estimado em R$ 38,9 bilhões anuais a serem rateados pelos consumidores brasileiros, com impacto tarifário estimado em aproximadamente 10%. Embora a realização do leilão tenha sido um passo necessário para garantir a segurança do suprimento elétrico diante de uma matriz cada vez mais intermitente, o desenho final do certame revelou fragilidades estruturais que não podem ser ignoradas.
A tese central que defendemos é que, embora o LRCAP tenha acertado ao garantir a segurança energética do Sistema Interligado Nacional (SIN), ele falhou ao negligenciar a inovação tecnológica, a modicidade tarifária e a otimização do sistema a longo prazo. O leilão foi marcado por uma excessiva dependência de fontes fósseis e por um processo de definição de preços-teto que careceu de transparência. É imperativo que os erros cometidos agora sirvam de lição para o próximo grande marco do setor: o leilão exclusivo de sistemas de armazenamento em baterias (BESS), previsto para o biênio 2026-2027. O Brasil está em uma encruzilhada entre o passado hidrotérmico e o futuro flexível; a correção de rumo começa agora.
Se a recontratação de térmicas movidas a gás natural já existentes é considerada um acerto por alguns, a aposta em novas usinas térmicas a gás natural e em usinas existentes à carvão mineral é o ponto mais vulnerável do LRCAP 2026. Estamos falando de projetos com altíssimo custo de capital (CAPEX), variando entre R$ 3.0 e R$ 4.0 bilhões por GW, e com prazos de construção que se estendem por 4 a 6 anos. Em um mundo que exige respostas rápidas à crise climática, imobilizar bilhões em infraestruturas fósseis de longa duração parece um anacronismo financeiro. O custo de reserva dessas novas plantas atingiu a marca de R$ 2.8 bilhões por GW-ano, um valor exorbitante quando comparado às alternativas tecnológicas modernas.

Os sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS) representam a peça que faltava no quebra-cabeça da reserva de capacidade brasileira. Os números são incontestáveis: enquanto, pelo resultado do leilão, uma térmica nova custa aproximadamente R$ 2.8 bilhões por GW-ano, um novo sistema de BESS apresenta custos entre R$ 1.0 e R$ 1.5 bilhões por GW-ano. Além da vantagem financeira, o tempo de implantação de um sistema de baterias é de apenas 12 a 18 meses, contra os quase seis anos de uma termelétrica. Em termos de performance, a diferença é abismal: baterias respondem a comandos do operador em milissegundos, enquanto térmicas levam dezenas de minutos para executar uma rampa de carga após sincronização com a rede.
A condução regulatória do LRCAP 2026 deixou cicatrizes na confiança do mercado. O episódio da modificação dos preços-teto às vésperas do certame é emblemático: em 10 de fevereiro, a ANEEL aprovou um teto de R$ 1,6 bilhão por GW-ano para novas termelétricas a gás natural e a carvão e R$ 1,12 bilhões por GW-ano para as existentes; após pressão de agentes de mercado no dia 11, o governo dobrou o preço para termelétricas existentes (R$ 2,25 milhão) e quase dobrou para as novas (R$ 2,9 milhões) em 13 de fevereiro, apenas três dias após a primeira aprovação da ANEEL. Essa volatilidade regulatória foi alvo de críticas severas do Tribunal de Contas da União (TCU), que identificou “indícios de irregularidade” e falta de transparência metodológica no reajuste súbito. Além disso, a expectativa de elevado deságio não se concretizou, atingindo a média de 5,5% somente.
Apesar das críticas, há uma luz no fim do túnel. O anúncio de um LRCAP exclusivo para armazenamento, com realização prevista entre o final de 2026 e início de 2027, é o reconhecimento implícito do governo de que o modelo anterior foi incompleto. Esta é a oportunidade de ouro para corrigir o rumo. O BESS não deve ser visto apenas como um “complemento” marginal, mas como o pilar primário da reserva de capacidade moderna.
O fortalecimento do Sistema Interligado Nacional (SIN) é a pré-condição para que o Brasil atinja sua meta de redução de 35% nas emissões de gases de efeito estufa até 2030. O tripé ideal para essa segurança não é o carvão, mas a combinação de BESS, térmicas limpas (biodiesel/biometano) e hidrelétricas otimizadas. Essa integração sistêmica permitiria uma redução no desperdício de energia renovável (curtailment), economizando recursos que hoje são simplesmente jogados fora por falta de onde armazenar.
O LRCAP 2026 deixará um legado complexo. Por um lado, afastou o fantasma do apagão ao garantir 19 GW de potência; por outro, impôs um custo elevado e uma pegada de carbono desnecessária ao futuro do país. O aprendizado é claro: não podemos mais planejar o setor elétrico com as ferramentas do século passado. O próximo leilão de armazenamento não é apenas mais um certame, é o teste definitivo da vontade política do governo em promover uma transição energética justa e barata.
O Brasil possui todas as condições para ser o líder em armazenamento de energia na América Latina, aproveitando sua matriz renovável única para alimentar baterias que garantirão o progresso industrial e o conforto das famílias. O futuro da segurança energética brasileira não está em mais gás importado ou carvão mineral. Ele reside na inteligência das baterias, na eficiência operacional, na diversificação de fontes e, acima de tudo, na transparência absoluta com o cidadão que paga a conta. É hora de transformar a reserva de capacidade em um motor de inovação, e não em um peso para o desenvolvimento nacional.
*Luiz Carlos Pereira da Silva, Diretor do CPTEn (Centro Paulista de Estudos da Transição Energética), Membro do Conselho Estadual de Política Energética do Estado de São Paulo e Professor Titular da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação da Unicamp.




