BRASIL EM FOCO
Germano Oliveira*
Lula e Trump passaram os últimos meses num clima de amor e ódio. Lula dizia que desejava que Trump perdesse sua hegemonia mundial, com as moedas dos países dos BRICS substituindo o dólar nos contratos internacionais. Tantas fez que Trump perdeu as estribeiras e fez de Lula seu inimigo número um. Passou a odiar o mandatário brasileiro, fechando-lhe as portas do comércio americano para os nossos produtos. Impôs ao Brasil o maior tarifaço mundial, de 50%. Isso colocou em xeque nossa capacidade de produção e comercialização internacional. O petista, no entanto, fez dessa sanção um instrumento de guerra, transformando um limão numa limonada. Seus publicitários até criaram campanhas de propaganda dizendo que não cederia às ameaças de Trump e que não negociaria nossa soberania e nossa democracia. O tiro acertou na mosca. Sua imagem, que estava avariada perante a opinião pública, cresceu ao ponto de tornar-se líder nas pesquisas e despontar em primeiro lugar em todas as consultas populares para a Presidência da República.
Os dois passaram a se odiar e juraram que não voltariam a se falar tão cedo.
Bastou a Assembleia Geral da ONU ter início na manhã desta terça-feira, em Nova York, para que tudo mudasse. Os dois se cruzaram no corredor da sede da entidade internacional das Nações Unidas e, durante 20 segundos, se entreolharam — e o amor esteve no ar. “Rolou uma química”, disse Trump. “Nós nos vimos, eu o vi, ele me viu e nós nos abraçamos”, concluiu o americano em seu discurso após a fala de Lula. Trump explicou que não tiveram tempo para conversar. “Ele me pareceu um homem muito agradável. Na verdade, ele gostou de mim. Vamos nos encontrar na semana que vem”, assegurou o chefe da Casa Branca. Os dois marcaram um encontro, cuja alcova ainda não foi definida.

O amor está no ar
Nem mesmo o fato de o governo americano ter ampliado a sanção a brasileiros — como aconteceu na véspera com a esposa do ministro Alexandre de Moraes, a advogada Viviane — ou a represália da Justiça brasileira à família de Bolsonaro, que concretizou a denúncia contra o deputado Eduardo Bolsonaro, o 03, além de arrastar junto o neto do ditador João Figueiredo, o lobista Paulo Figueiredo, influenciou para a permanência do mal-estar entre os dois líderes dos países do continente americano. Nem Lula nem Trump se referiram ao clima de confronto que reinou entre eles desde maio.
Pelos momentos românticos vividos por Trump e Lula na reunião da ONU, é bem provável que agora os dois países cheguem a um entendimento em matéria tarifária. O Brasil vende aos Estados Unidos em torno de 12% dos produtos de sua balança comercial, mas a relação é de superávit para Washington. Diante desse quadro, nunca houve uma razão econômica para a fixação do tarifaço de 50% ao Brasil. O que sempre esteve por trás da sanção econômica foi a questão política, já que Trump pressionou a Justiça brasileira a não condenar o ex-presidente pela tentativa de golpe de Estado. Talvez a Casa Branca já tenha compreendido que não conseguirá mudar as leis brasileiras e salvar a pele da família Bolsonaro. A família Moraes não se curvará aos métodos truculentos do trumpismo pelo mundo afora. Venceu quem têm uma causa mais justa para lutar.
*Germano Oliveira é Diretor do BRASIL CONFIDENCIAL.





