O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou em Barcelona nesta quinta-feira para dar início àquela que será sua última grande viagem internacional antes de se voltar à campanha eleitoral no Brasil. O giro, que inclui passagens por Hanover (Alemanha) e Lisboa (Portugal), ocorre em um momento de alta sensibilidade diplomática: Lula busca consolidar alianças com a esquerda europeia e viabilizar o acordo Mercosul-União Europeia, ao mesmo tempo em que tenta evitar um desgaste direto com o governo de Donald Trump, cujo reflexo reverbera na polarização política brasileira.
O “campo minado” da Catalunha
A agenda oficial começa na Catalunha, onde o presidente participa do Global Progressive Mobilisation (Mobilização Progressista Global). O evento, organizado pelo primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, visa articular uma resposta coordenada ao avanço da direita radical global. Sánchez tem sido um dos críticos mais ferozes de Trump, chegando a classificar como “ilegais” as recentes ofensivas americanas no Irã e proibindo o uso de bases espanholas para tais fins.
Para analistas consultados pela BBC News Brasil, o cenário exige cautela. “Lula deve tomar cuidado para não apertar os botões errados”, afirma Guilherme Casarões, professor de Relações Internacionais na Universidade Internacional da Flórida. Segundo ele, declarações dadas em um fórum global repercutem com maior velocidade e abrangência, podendo alienar o eleitorado brasileiro moderado que defende a manutenção de laços pragmáticos com Washington.
O fator doméstico: Flávio Bolsonaro
A viagem acontece em meio a um cenário interno desafiador. Pesquisas de intenção de voto da consultoria Quaest indicam um empate técnico em um eventual segundo turno entre Lula (40%) e o senador Flávio Bolsonaro (42%). Enquanto o presidente busca apoio em solo europeu, a oposição utiliza a proximidade com o governo Trump — reforçada pela mudança de Eduardo Bolsonaro para os Estados Unidos — para se posicionar como uma ponte mais estável com a maior economia do mundo.
Acordo Mercosul-UE e o desafio do Pix
Um dos pilares da visita é a entrada em vigor do acordo Mercosul-União Europeia, prevista para 1º de maio. O tratado promete:
- Isenção tarifária: Atingirá 92% das exportações do Mercosul (estimadas em US$ 61 bilhões).
- Benefícios ao setor produtivo: Foco em agronegócio, calçados e maquinário.
- Impacto ao consumidor: Redução de preços em itens como vinhos, queijos e medicamentos.
Contudo, a diversificação comercial é vista por alguns setores como uma tentativa de reduzir a dependência do dólar, tema que gera fricções com os EUA. Soma-se a isso a investigação comercial aberta pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sobre o Pix, sob a suspeita de que o sistema de pagamentos brasileiro configure “prática desleal” contra empresas americanas.
Estratégia de equilíbrio
Acompanhado por uma comitiva recorde de 15 ministros, Lula deve assinar mais de 20 acordos bilaterais. Para Oliver Stuenkel, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), a Europa funciona como um contrapeso estratégico. “O Brasil precisa de terceiros para aumentar sua margem de manobra na hora de negociar tanto com Washington quanto com Pequim”, avalia. A expectativa é que, apesar do ambiente progressista na Espanha, o presidente brasileiro mantenha um tom moderado para evitar novos focos de crise com a Casa Branca.





