Jornais europeus que publicaram o artigo de Lula pregando nova ordem global. (Reprodução)


O jornal francês Le Monde publicou, em suas edições digital e impressa deste sábado (12), artigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendendo uma reformulação profunda da governança global. Segundo o chefe de Estado, o atual sistema multilateral está em colapso e precisa ser reconstruído com base na justiça, inclusão e representatividade.

A publicação ocorre em um momento delicado nas relações entre o Brasil e a União Europeia, especialmente após impasses nas negociações do acordo Mercosul-União Europeia. Ainda assim, Lula escolheu um dos jornais mais influentes da Europa para lançar um apelo global: “A solução para a crise do multilateralismo não é abandoná-lo, mas refundá-lo sobre bases mais justas e inclusivas”, escreveu o líder brasileiro. Além do Le Monde, o texto foi publicado nos jornais El País, The Guardian, Der Spiegel, Corriere della Sera, Yomiuri Shimbun, China Daily, Clarín e La Jornada.

Lula traça um panorama da ordem internacional, destacando a ineficácia das instituições multilaterais diante de crises como a guerra na Ucrânia e “omissão frente ao genocídio em Gaza”. Ele acusa membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU de banalizarem o uso da força e denuncia a paralisia da Organização Mundial do Comércio (OMC), esvaziada por disputas protecionistas.

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“O mundo de hoje é muito diferente de 1945”, afirma o presidente, em alusão ao final da Segunda Guerra Mundial, quando a ONU foi formada. Segundo ele, a estrutura das organizações internacionais não reflete mais a realidade geopolítica atual. Para o líder brasileiro, a falta de representatividade e o domínio de potências tradicionais impedem respostas eficazes aos desafios globais.

O artigo também denuncia o aprofundamento das desigualdades globais, agravadas pela crise financeira de 2008 e pela resposta neoliberal baseada na austeridade. Lula cita dados da Oxfam para ilustrar a concentração de riqueza: os 1% mais ricos do mundo acumulam US$ 33,9 trilhões — 22 vezes o necessário para erradicar a pobreza global.

No campo ambiental, o presidente critica o fracasso das promessas feitas em conferências climáticas, como a COP15 de Copenhague, e alerta para os impactos desproporcionais das mudanças climáticas sobre os países mais pobres. “A realidade está se movendo mais rápido do que o Acordo de Paris”, escreve.

“Desigualdades enraizadas em séculos de exploração”

Lula destaca o protagonismo do Brasil em fóruns internacionais como o G20, os BRICS e a próxima COP30, que será realizada em Belém, como exemplos de que é possível buscar convergências mesmo em contextos adversos. E reafirma o compromisso brasileiro com a diplomacia e a cooperação internacional.

“Não se trata de fazer caridade, mas de corrigir disparidades que têm raízes em séculos de exploração”, afirma, ao defender maior acesso a financiamento, respeito às realidades locais e o fortalecimento do papel dos países do Sul Global.

A tribuna de Lula é, ao mesmo tempo, um diagnóstico e um chamado à ação. Em meio à polarização crescente e ao descrédito nas instituições, o presidente brasileiro propõe uma nova arquitetura global baseada na solidariedade, na justiça e na corresponsabilidade.

“Não existem muros altos o suficiente para isolar ilhas de prosperidade cercadas por miséria e violência”, conclui o presidente brasileiro.

Leia aqui o artigo publicado pela imprensa Internacional:

NÃO HÁ ALTERNATIVA AO MULTILATERALISMO

O ano de 2025 deveria ser um momento de celebração dedicado às oito décadas de existência da Organização das Nações Unidas (ONU). Mas pode entrar para a história como o ano em que a ordem internacional construída a partir de 1945 desmoronou.

As rachaduras já estavam visíveis. Desde a invasão do Iraque e do Afeganistão, a intervenção na Líbia e a guerra na Ucrânia, alguns membros permanentes do Conselho de Segurança banalizaram o uso ilegal da força. A omissão frente ao genocídio em Gaza é a negação dos valores mais basilares da humanidade. A incapacidade de superar diferenças fomenta nova escalada da violência no Oriente Médio, cujo capítulo mais recente inclui o ataque ao Irã.

A lei do mais forte também ameaça o sistema multilateral de comércio. Tarifaços desorganizam cadeias de valor e lançam a economia mundial em uma espiral de preços altos e estagnação. A Organização Mundial do Comércio foi esvaziada e ninguém se recorda da Rodada de Desenvolvimento de Doha.

O colapso financeiro de 2008 evidenciou o fracasso da globalização neoliberal, mas o mundo permaneceu preso ao receituário da austeridade. A opção de socorrer super-ricos e grandes corporações às custas de cidadãos comuns e pequenos negócios aprofundou desigualdades. Nos últimos 10 anos, os US$ 33,9 trilhões acumulados pelo 1% mais rico do planeta é equivalente a 22 vezes os recursos necessários para erradicar a pobreza no mundo.

O estrangulamento da capacidade de ação do Estado redundou no descrédito das instituições. A insatisfação tornou-se terreno fértil para as narrativas extremistas que ameaçam a democracia e fomentam o ódio como projeto político.

Muitos países cortaram programas de cooperação em vez de redobrar esforços para implementar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável até 2030. Os recursos são insuficientes, seu custo é elevado, o acesso é burocrático e as condições impostas não respeitam as realidades locais.

Não se trata de fazer caridade, mas de corrigir disparidades que têm raízes em séculos de exploração, ingerência e violência contra povos da América Latina e do Caribe, da África e da Ásia. Em um mundo com um PIB combinado de mais de 100 trilhões de dólares, é inaceitável que mais de 700 milhões de pessoas continuem passando fome e vivam sem eletricidade e água.

Os países ricos são os maiores responsáveis históricos pelas emissões de carbono, mas serão os mais pobres quem mais sofrerão com a mudança do clima. O ano de 2024 foi o mais quente da história, mostrando que a realidade está se movendo mais rápido do que o Acordo de Paris. As obrigações vinculantes do Protocolo de Quioto foram substituídas por compromissos voluntários e as promessas de financiamento assumidas na COP15 de Copenhague, que prenunciavam cem bilhões de dólares anuais, nunca se concretizaram. O recente aumento de gastos militares anunciado pela OTAN torna essa possibilidade ainda mais remota.

Os ataques às instituições internacionais ignoram os benefícios concretos trazidos pelo sistema multilateral à vida das pessoas. Se hoje a varíola está erradicada, a camada de ozônio está preservada e os direitos dos trabalhadores ainda estão assegurados em boa parte do mundo, é graças ao esforço dessas instituições.

Em tempos de crescente polarização, expressões como “desglobalização” se tornaram corriqueiras. Mas é impossível “desplanetizar” nossa vida em comum. Não existem muros altos o bastante para manter ilhas de paz e prosperidade cercadas de violência e miséria.

O mundo de hoje é muito diferente do de 1945. Novas forças emergiram e novos desafios se impuseram. Se as organizações internacionais parecem ineficazes, é porque sua estrutura não reflete a atualidade. Ações unilaterais e excludentes são agravadas pelo vácuo de liderança coletiva. A solução para a crise do multilateralismo não é abandoná-lo, mas refundá-lo sob bases mais justas e inclusivas.

É este entendimento que o Brasil – cuja vocação sempre será a de contribuir pela colaboração entre as nações – mostrou na presidência no G20, no ano passado, e segue mostrando nas presidências do BRICS e da COP30, neste ano: o de que é possível encontrar convergências mesmo em cenários adversos.

É urgente insistir na diplomacia e refundar as estruturas de um verdadeiro multilateralismo, capaz de atender aos clamores de uma humanidade que teme pelo seu futuro. Apenas assim deixaremos de assistir, passivos, ao aumento da desigualdade, à insensatez das guerras e à própria destruição de nosso planeta.

Luiz Inácio Lula da Silva
Presidente da República do Brasil