O produtor Ismael Pfeifer em sua plantação de maracujá doce do cerrado, em Pirajuí, oeste de São Paulo. (Foto: Divulgação)


Por Adriana Blak (RJ)

O verde intenso da casca engana o olhar desatento nas gôndolas, que muitas vezes o confunde com um limão ou um jiló. Mas basta o primeiro corte para que o perfume adocicado revele a verdadeira identidade do Maracujá Pérola do Cerrado.

Fruto de 20 anos de pesquisa da Embrapa e de uma década de estudos acadêmicos, essa joia da biodiversidade brasileira está deixando de ser uma exclusividade de “preço de ouro” para se tornar a nova promessa da fruticultura sustentável no interior paulista.

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No centro dessa transformação está Ismael Pfeifer. Após 40 anos dedicados ao jornalismo econômico, ele decidiu trocar as redações pela lida no campo em Pirajuí, no interior de São Paulo.

O que começou como um experimento com 400 plantas hoje já soma duas mil unidades e uma expectativa de colheita de 40 toneladas para este ano. Para o agora agricultor, o nicho de mercado é claro:

“É uma fruta especial, com propriedades funcionais superiores e que passou a ter preços acessíveis. A missão agora é divulgá-la. É provar e ser conquistado, porque ela é muito saborosa”, afirma Pfeifer.

Se para o produtor o foco é a viabilidade comercial, para a ciência o Pérola do Cerrado é um triunfo da saúde. A nutricionista e pesquisadora Isabella Duarte, que dedicou mestrado e doutorado à espécie, comprovou que a fruta é um autêntico “alimento funcional”.

Diferente do maracujá comum, onde o efeito calmante concentra-se nas folhas, no Pérola a eficácia está na polpa. Apenas 50 gramas diários — o ⁠equivalente a três frutos médios — são capazes de induzir ao relaxamento e melhorar os níveis de insulina no sangue em apenas três horas.

“O consumo demonstrou capacidade de atuar no sistema nervoso e induzir ao relaxamento, um efeito anti-estresse”, explica a pesquisadora, que defende a exploração sustentável como pilar de preservação.

Do ponto de vista agronômico, a variedade é um alento para o pequeno produtor. Diferente do maracujá-azedo, que exige a polinização manual “flor a flor”, o Pérola conta com a ajuda da fauna noturna: suas flores abrem à noite e atraem morcegos, mariposas e mangavas. Além disso, a planta é resistente às principais pragas que costumam aniquilar plantações tradicionais, dispensando o uso de agrotóxicos.
O desafio, contudo, ainda mora na etiqueta de preço e no desconhecimento. Se há doze anos o quilo chegava a custar R$ 100, hoje oscila entre R$ 20 e R$ 30 em mercados paulistanos.

Para Isabella Duarte, o fortalecimento dessa cadeia produtiva — ⁠que une o cultivar BRS Pérola do Cerrado à preservação das espécies das nossa biodiversidade — é o caminho para manter a floresta em pé e o prato cheio.

“Foram cerca de duas décadas de pesquisa até que o fruto pudesse ser produzido em escala com qualidade e estabilidade”, diz Duarte.

Isabella Duarte foi a responsável por oito anos de pesquisa das qualidades nutricionais e funcionais do maracujá Pérola do Cerrado, em parceria com Embrapa, UnB, USP e INRAE (França).

A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:

Adriana Blak – Primeiramente, eu gostaria de conhecer um pouco da sua história. Como o maracujá entrou na sua vida?

Ismael Pfeifer – Na verdade, foi algo bem natural, porque esse sítio — essa fazenda onde hoje a gente cultiva maracujá — é o lugar onde eu nasci.

Fica em Pirajuí, próximo de Bauru, uma região muito bonita. Essa propriedade da minha família também é muito especial pra mim. Meu pai fazia parte dos irmãos que tocavam a fazenda, que na época produzia café.

Depois, fui morar em outro lugar do interior, Rio Claro, onde cresci. Mais tarde, fui estudar Jornalismo em Campinas. Me tornei jornalista e comecei a trabalhar nos jornais da cidade, como o Correio Popular e o Diário do Povo.

Depois vim para São Paulo e trabalhei no O Estado de S. Paulo. Após um começo cobrindo esportes, migrei para a área de economia e negócios. Também trabalhei na Gazeta Mercantil, que era o principal jornal de economia do país. Fui correspondente internacional, editor-chefe… enfim, tive uma carreira muito longa e muito rica, de cerca de 40 anos.

Mas, enquanto isso, a propriedade da família continuava com meu pai. Já no fim da carreira, precisei dividir meu tempo para ajudá-lo a cuidar da fazenda, que naquele momento tinha cana e gado. Acabei assumindo a administração da propriedade nos últimos anos.

Inclusive, mando um beijo para o Seu Ismael e dona Arlete, meus pais.

Há cerca de sete anos, comecei a fazer testes com culturas alternativas numa área que estava desocupada da fazenda. Pra você ter uma ideia, comecei com esponja vegetal — a famosa bucha usada no banho. Era uma cultura muito interessante, mas comercialmente não deu certo.

Então, no terceiro ano, migrei para o maracujá. Comecei com o maracujá azedo tradicional, que hoje representa cerca de 90% da produção brasileira. O maracujá é uma fruta muito brasileira. Nenhum outro país tem tanta variedade quanto o Brasil — dizem que existem mais de 300 espécies.

Ao mesmo tempo, conheci a história do maracujá Pérola do Cerrado e comecei a fazer testes em uma área menor. Acabei me encantando pela fruta. Ela tem características muito interessantes, especialmente pela resistência a doenças e pragas.

O maracujá, de forma geral, já é uma planta fascinante. A flor do maracujá abre apenas uma vez, durante cerca de oito a dez horas. Nesse período, ela precisa ser polinizada para gerar o fruto, que vai surgir cerca de dois meses depois.

No caso do maracujá azedo, para ter uma produção grande, geralmente é necessário fazer polinização manual, porque a mamangava não consegue dar conta sozinha da quantidade de flores.

Já o maracujá Pérola do Cerrado tem uma característica muito diferente: a flor abre à noite, normalmente entre nove e dez horas, e fecha por volta das seis ou sete da manhã. Por isso, a polinização é feita principalmente por morcegos e mariposas. A Embrapa já estudou isso. E, claro, no começo da manhã, a mamangava também ajuda no processo.

Essas características tão especiais me chamaram muito a atenção. Hoje, praticamente fiquei só com esse maracujá, embora ainda esteja testando algumas outras variedades.

É uma fruta que realmente me conquistou — e que também vem conquistando muita gente. Além de todas essas particularidades, ela tem propriedades nutricionais muito especiais. Sem exageros ou sensacionalismo, é claro, mas é uma fruta extremamente interessante do ponto de vista nutricional.

Adriana Blak – Na França tem, Isabela?

Isabella Duarte – Na verdade, como o Ismael comentou, o maracujá é um fruto originário da América do Sul — e o Brasil concentra uma diversidade incrível dessa fruta.

Aqui na Europa, o que a gente mais encontra nos supermercados são maracujás vindos da Colômbia e do Peru. Mas o mercado está aberto, porque é uma fruta muito valorizada por aqui. Em inglês, inclusive, ele é conhecido como ‘passion fruit’, a fruta da paixão.

Adriana Blak – Isabela, eu queria saber primeiro: como a nutrição entrou na sua vida? Sempre foi uma paixão? E por que, especificamente, o maracujá?

Isabella Duarte – Bom, a nutrição realmente sempre fez parte da minha vida. Quando fui prestar vestibular e comecei a revisitar minhas memórias, percebi que toda a minha criação foi muito pautada por alimentos naturais e orgânicos — e isso eu devo aos meus pais.

Esse olhar para o alimento natural sempre foi algo muito presente e, sinceramente, deveria continuar sendo algo normal. A gente deveria comer o que vem da terra, o que é próximo da gente, e manter contato com os produtores locais.

Eu lembro da minha mãe ligando diretamente para o produtor. Nós morávamos em Brasília, e o grande cinturão verde da cidade é Brazlândia. Brasília já foi planejada pensando nesse polo produtor, formado por agricultores vindos de Minas Gerais, do Nordeste e também por famílias japonesas, para abastecer a capital.

E era muito bonito poder conversar diretamente com o produtor, saber o que estava sendo colhido naquela semana e receber aqueles alimentos em casa. Hoje, com as feiras de pequenos produtores nos grandes centros urbanos, existe um resgate importante dessa conexão, que em algum momento acabou se perdendo.

Essa relação direta entre população, pequenos produtores e pesquisadores é essencial. E é justamente isso que envolve a rede da qual faço parte.

A Rede Pacitec começou quando eu ainda era estudante na Universidade de Brasília. É uma rede coordenada pela Embrapa, mas que reúne pesquisadores do Brasil e do exterior para estudar toda a cadeia produtiva dos alimentos.

O objetivo é identificar frutos da nossa biodiversidade e entender como transformá-los em alimentos viáveis para produção e consumo em escala. No caso do maracujá Pérola, por exemplo, hoje o Ismael produz toneladas da fruta, mas isso só foi possível depois de cerca de duas décadas de pesquisa.

Foi necessário estudar o fruto, fazer o melhoramento genético, entender a polinização, desenvolver uma polpa mais volumosa e criar condições para que ele pudesse chegar aos supermercados e mercados populares. E, nesse processo, também é fundamental dar suporte aos produtores.

A minha parte foi justamente estudar os efeitos nutricionais dessa fruta.

Adriana Blak – Você falou ‘passion fruit’. Em inglês, maracujá é chamado de ‘passion fruit’, fruto da paixão. Por quê? Você sabe qual é o motivo?

Isabella Duarte – Olha, eu já conversei com outros pesquisadores e também com o que a literatura traz.

Apesar de muita gente associar o nome ao possível efeito afrodisíaco — e essa é uma hipótese que não dá para descartar completamente, já que o maracujá tem usos populares ligados a relaxamento, sono e até controle de ansiedade, e realmente atua de forma sistêmica no organismo — a explicação mais aceita para o nome ‘fruta da paixão’ não é essa.

O principal motivo vem da interpretação feita pelos jesuítas aqui na América do Sul, quando encontraram a planta e a flor do maracujá. Eles associaram a flor a uma representação religiosa, chamada de simbologia da Paixão de Cristo.

Então, a flor foi vista como uma espécie de ‘mensagem visual’ da crucificação: algumas partes da flor foram interpretadas como símbolos da coroa de espinhos, dos pregos, e até dos elementos ligados à narrativa cristã. Por isso o nome ‘passion fruit’, que não significa paixão no sentido romântico, mas sim ‘Paixão de Cristo’.

📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:

Variedade de maracujá-doce do Cerrado foi desenvolvida pela Embrapa

As frutas já cortadas: a polpa é doce e tem propriedades medicinais. (Foto: Divulgação)

A primeira cultivar de maracujá da espécie Passiflora alata Curtis registrada e protegida no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, BRS Mel do Cerrado, abriu aos fruticultores brasileiros o seleto e valorizado nicho de frutas especiais.

A qualidade e o sabor adocicado são os diferenciais dos frutos, que chegam a alcançar preço até quatro vezes superior ao do maracujá-azedo.

Desenvolvida pela Embrapa, a cultivar de maracujazeiro-doce tem dado bom retorno financeiro aos produtores, e seu fruto recebeu ótima aceitação dos consumidores.

No momento, a cultivar é indicada para a região do Cerrado, no Distrito Federal, Goiás, Minas Gerais e Tocantins. Há trabalhos de validação em andamento em outras regiões brasileiras, incluindo o Sul, o Norte e o Nordeste.

O agricultor familiar Gilmar Santos plantou 250 mudas em sua propriedade em Pouso Alegre (MG) logo após a cultivar ter sido lançada, em dezembro de 2017, e não se arrepende. Ele está em plena colheita e estima que cada planta tenha produzido, em média, 150 maracujás, o que dá cerca de 37,5 quilos por planta.

“Temos muito mais frutos nesta próxima colheita, as plantas estão mais carregadas. Eu as vendo em caixas de papelão, cada uma com cinco ou seis maracujás, dependendo do tamanho deles, e embalo um por um com papel específico, igual à goiaba, para não machucar a casca”, disse o produtor.

Os maracujás saem de Minas Gerais, da chácara São José, e vão para São Paulo, onde são comercializados na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), em um mercado que atua com frutas especiais exóticas, disputando espaço com o melão andino, a granadilla do México e a graviola-baby da América Central, por exemplo.

Gilmar Santos conheceu a cultivar BRS Mel do Cerrado em uma reportagem de TV e, de imediato, se interessou pela planta: “Fiquei um pouco receoso em plantar uma fruta diferente, mas resolvi arriscar. Não me arrependi. Estou conseguindo ganhar um bom dinheiro com ela. Pagam muito mais pelo maracujá-doce do que pelo azedo”, explica.

“Quem experimenta o maracujá-doce gosta, elogia seu sabor e se impressiona com o tamanho do fruto”, conta o produtor. A nova fruta tem conquistado os consumidores, tanto que a pequena plantação a céu aberto não consegue atender à demanda. O agricultor diz que já recebeu pedidos de mercados locais e de pessoas conhecidas, mas sua produção só é suficiente para atender ao mercado paulista”, disse.

Adaptação

Os custos de produção do maracujá-doce variam conforme a capacidade de investimento do produtor, já que a cultivar pode ser plantada a céu aberto, em pequenas propriedades, em sistema orgânico e também em estufa, explica Faleiro. “Não existe um pacote tecnológico para essa cultivar, ou seja, o agricultor pode produzir o maracujá dentro da sua realidade de investimento”, esclarece.

Pesquisadora brasileira coordena trabalhos em segurança alimentar e uso sustentável da biodiversidade

A Dra. Isabella Duarte, pesquisadora e nutricionista. (Foto: Redes Sociais)

A nutricionista e pesquisadora Isabella Duarte assumiu a coordenação da área de Segurança e Eficácia Funcional/Medicinal da rede Passitec, iniciativa que vem ganhando destaque no cenário científico nacional. A rede atua na pesquisa e valoração da biodiversidade, integrando esforços dentro da LAC-SMART, um programa de alcance latino-americano voltado para a transformação rural sustentável.

A Passitec tem como missão investigar o potencial funcional e medicinal de espécies nativas, promovendo o uso responsável dos recursos naturais e incentivando práticas que conciliem inovação científica e preservação ambiental.

O trabalho da rede é estratégico para fortalecer cadeias produtivas sustentáveis e ampliar o acesso a alimentos com propriedades diferenciadas.

O Brasil, reconhecido mundialmente por sua megadiversidade, encontra na LAC-SMART uma oportunidade de posicionar-se como protagonista na construção de modelos de desenvolvimento rural que unem ciência, tecnologia e conservação. A atuação da doutora Isabella Duarte reforça esse compromisso, trazendo rigor científico para garantir que os produtos derivados da biodiversidade sejam não apenas eficazes, mas também seguros para o consumo humano.

Em paralelo, iniciativas como a introdução do maracujá-doce BRS Mel do Cerrado no mercado de frutas especiais — desenvolvida pela Embrapa — ilustram como a pesquisa aplicada pode gerar impacto direto na economia rural, valorizando espécies nativas e ampliando oportunidades para agricultores familiares. A convergência entre projetos como o da Embrapa e a rede Passitec evidencia um movimento crescente em direção a uma agricultura mais sustentável e inovadora.

Para Isabella Duarte, a expectativa é que a Passitec fortaleça ainda mais sua atuação, contribuindo para que a biodiversidade brasileira seja reconhecida não apenas como patrimônio natural, mas também como fonte de soluções para saúde, nutrição e desenvolvimento socioeconômico.

Plantação de Ismael já rende duas toneladas de frutas por mês

O pomar com os pés de maracujá, na propriedade rural de Ismael, em Pirajuí, no oeste de São Paulo. (Foto: Divulgação)

O produtor Ismael Pfiffer disse que cultiva maracujá-doce em uma área de aproximadamente 2 hectares e já contabiliza cerca de 2 mil plantas em seu pomar.

A produção atual gira em torno de 2 toneladas por mês, mas ainda nem toda a área está em plena colheita.

A expectativa é dobrar esse volume, alcançando 4 toneladas mensais — o equivalente a 40 toneladas por ano.

Segundo Pfiffer, cada planta rende em média 20 quilos de fruta, número inferior ao maracujá-azedo, que chega a 30 quilos por pé.

No mercado atacadista, os preços variam conforme a qualidade: o tipo A é comercializado entre R$ 12 e R$ 15 o quilo, enquanto o tipo B, de menor calibre, fica entre R$ 7 e R$ 9. Para o produtor, o valor recebido é cerca de 20% a 25% menor que o preço final do atacado.

Apesar disso, o maracujá-doce apresenta vantagem frente ao maracujá comum, chegando a valer o dobro em São Paulo.

Fruta é calmante natural, antioxidante potente e aliado da fitoterapia

Estudos científicos sobre a espécie Passiflora alata (à qual pertence o BRS Mel do Cerrado) já demonstraram que essa fruta possui:
Ação calmante e ansiolítica: tradicionalmente usada em fitoterapia para auxiliar no controle da ansiedade e insônia.

Potencial antioxidante: presença de compostos fenólicos que ajudam a combater radicais livres.

Uso em formulações farmacêuticas: extratos da Passiflora alata são empregados em medicamentos fitoterápicos registrados no Brasil.