Gudryan Neufert*
“É possível separar o autor da obra?”, pergunta Álvaro Costa e Silva, o Marechal, em sua coluna Vargas Llosa nunca tuitou, na Folha de S.Paulo.
Uma pergunta sem resposta certa. Ou melhor: uma pergunta que admite todo tipo de resposta.
Particularmente, acredito que, no caso de Mario Vargas Llosa — morto esta semana — sim, é possível separar o autor de sua obra.
Estou lendo Dedico a Você Meu Silêncio, seu último romance. O livro conta a história de Toño Azpilcueta, um intelectual pobre da periferia de Lima. Crítico musical nas horas vagas, Toño decide escrever a biografia de um jovem talento da música criolla que morreu precocemente. Llosa, com sua pena afiada, presta uma última homenagem ao Peru. Mas não sem crítica. Nunca sem crítica.
Quando estive em Lima e Arequipa — sua cidade natal — fiquei chocado com o abismo social. Seria ainda maior do que no Brasil?
Pelo IDH, estamos lado a lado: o Peru ocupa a 87ª posição, com índice de 0,762; o Brasil, a 89ª, com 0,760. A dúvida se dissolve no ar, mas a impressão — aquela que os números não captam — permanece.
E outras perguntas surgem:
Por que vivia em Madri e não em Lima?
Por que bateu em Gabriel García Márquez — o soco mais famoso da literatura? (dizem que foi numa pergunta mal feita)
Por que, sendo um homem das letras, apoiou candidatos da extrema-direita?
Existem perguntas sem resposta. Mas não existem respostas sem perguntas.
E perguntar é uma arte. No meu caso, uma obsessão.
Certa vez, perguntaram ao então diretor de Esportes da Globo por que ele havia me contratado.
A turma não entendia. Eu não era o repórter mais carismático, tampouco dono do melhor texto. Não tinha amigos influentes dentro da emissora e, para completar, vinha do Sul — lá de longe.
A resposta veio seca, direta, como um passe de trivela no peito:
— Ele sabe perguntar.
Anos depois, levei meu material ao ex-chefe de Esportes da Record. Caprichei na seleção: escolhi as melhores reportagens, apostei em imagens fortes, boas apurações, textos redondos. Ele assistiu em silêncio. E então disse:
— Gostei da pergunta que você fez ao presidente do Palmeiras. Está dentro.
Para fazer uma boa pergunta, é preciso empatia — mas também a dose exata de objetividade. A pergunta tem que ser certeira, precisa, quase instintiva. Precisa vir rápida, antes que a resposta seja filtrada demais. A boa pergunta desarma.
O timing importa. Às vezes, a melhor estratégia é começar pelo irrelevante, só para abrir uma brecha. Criar o clima, amaciar o terreno. E só depois, na hora certa, mirar no que realmente interessa.
Lembro de quando Jair Bolsonaro foi visitar a mãe pela última vez, no interior de São Paulo. Acompanhei o dia inteiro de espera. Ao cair da noite, um dos filhos veio à imprensa e decretou:
— O ex-presidente vai falar brevemente. Não responderá perguntas.
Fez o discurso, virou-se para ir embora.
E eu soltei:
— Presidente, como está sua mãe?
Era o que ele queria ouvir. Parou, afastou os seguranças e começou a falar. Sobre a mãe, a doença, a dor. Falou. E depois respondeu todas as perguntas que os repórteres ali aguardavam ansiosamente.
Minha esposa costuma dizer, nas noites de segunda-feira:
— Não acredito que você está vendo Roda Viva de novo.
Mas eu não assisto só pelas respostas. Assisto pelas perguntas. Gosto de observar os caminhos, os atalhos, as pausas. O silêncio que antecede o impacto. A construção lenta até o ponto exato da queda.
Porque uma boa pergunta também tem storytelling.
Ela é quase um roteiro. E como todo bom roteiro, exige ritmo.
Não é a primeira pergunta que arranca lágrimas.
É preciso respeitar o tempo da cena.
E, às vezes, o melhor é não perguntar nada.
Foi o que fiz ao entrevistar, para o Fantástico, o pai da jornalista Sandra Gomide, assassinada brutalmente pelo ex-diretor de redação do Estadão, Pimenta Neves, no início dos anos 2000.
Ele morava no interior paulista. Trabalhava num haras, cercado de cavalos. Tinha perdido a filha havia menos de 48 horas.
À noite, entre os animais e o cheiro de feno, coloquei um banco, pedi que se sentasse e disse:
— Esqueça que estamos aqui. Fale o que quiser. Ou não fale nada.
Ficamos em silêncio. Um silêncio absoluto.
Cinco minutos depois, ele começou a chorar. Depois, a falar.
Tudo o que a reportagem precisava estava ali.
Na dor crua de um homem em pedaços.
Em outros momentos, o que se precisa é de uma faísca.
Logo após uma vitória, por exemplo, basta perguntar:
— Feliz?
E o atleta se derrama: lágrimas, desabafos, confissões.
Com o corpo ainda pulsando adrenalina, as palavras saltam da boca.
Saber perguntar também é saber ouvir.
E, sobretudo, estar preparado.
Alguns entrevistados querem te humilhar. Usam jargões, termos técnicos, frases rebuscadas. Nessas horas, você dá corda. Deixa.
Deixa ele se enforcar.
Mas não perde a compostura. Espera.
E, no tempo certo, dispara uma pergunta longa, informada, certeira. Só para mostrar que sabe do que está falando.
Geralmente, funciona. O entrevistado baixa a guarda.
Quase sempre, a primeira pergunta deve ser feita a si mesmo:
Por que esse texto foi escrito agora, e por quem?
Por que essa medida foi tomada, com que objetivo?
Na maioria das vezes, lendo as circunstâncias, você já conhece as respostas que virão — e as que jamais serão ditas.
Faz parte do jogo.
E como diz o ditado: o jogo é jogado.
Para jogar, você precisa mais das perguntas do que das respostas.
Perguntar bem é uma mistura de sensibilidade, conhecimento e oportunidade.
E não é tão diferente com a Inteligência Artificial.
Saber perguntar — ou melhor, saber construir um bom prompt — faz toda a diferença.
Em inglês geral, significa “rápido” ou “pronto”. Exemplo: He gave a prompt reply (“Ele deu uma resposta rápida”).
Em tecnologia, é o comando que aparece na tela pedindo ao usuário uma ação — como no famoso prompt de comando do Windows.
Na linguagem da IA, é o texto que você digita para orientar a resposta do modelo.
Hoje, há livros, cursos, especialistas em prompt engineering espalhados pelas redes. No X (antigo Twitter), proliferam perfis autointitulados gurus do assunto.
Mas, no fundo, é simples:
As respostas estão todas lá.
Você só precisa saber perguntar.
Ou, às vezes…
Só precisa saber calar.
Porque até o silêncio, quando bem colocado, é uma pergunta poderosa.
*Gudryan Neufert é jornalista, com passagens por TV Globo, TV Record e SBT, além de graduações em Jornalismo (PUC-PR) e História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).




