O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, detalhou em seu despacho à Polícia Federal a estrutura da organização criminosa ligada ao Banco Master com três camadas: um braço tecnológico para ataques digitais, policiais infiltrados na PF e uma rede de laranjas e contadores para movimentar recursos. Mendonça decretou sete prisões preventivas e impôs medidas contra outros cinco investigados.
Segundo o relator, os autos revelam “quadro indiciário robusto no sentido de que a organização criminosa investigada se valeu de dois braços operacionais especializados para satisfazer os interesses do núcleo central: (i) um, de atuação presencial e policial-informacional, voltado a intimidações, levantamentos clandestinos e obtenção de dados sigilosos; (ii) outro, de atuação digital, vocacionado a ataques cibernéticos e monitoramento telemático ilícito”.
Núcleo tecnológico “Os Meninos”
A Polícia Federal afirma que o grupo “seria capitaneado por DAVID HENRIQUE ALVES, apontado como responsável por arregimentar operadores com perfil hacker, remunerados para execução de monitoramentos ilícitos, ataques digitais, invasões e derrubada de perfis”.
David era “remunerado por FELIPE MOURÃO, em valor mensal aproximado de R$ 35.000,00, com provável ingresso de recursos por intermédio da empresa BIPE SOFTWARE BRASIL LTDA”.
Em 04/03/2026, dia da 3ª fase da Compliance Zero, David foi abordado dirigindo uma Range Rover de Felipe Mourão. Dentro do veículo havia “um computador grande de mesa, dois ou três notebooks, caixas e malas, além de um conjunto de objetos que, no contexto investigativo, foi interpretado pela Polícia Federal como indicativo de fuga em andamento e possível destruição, remoção ou ocultação de provas digitais”.
Victor Lima Sedlmaier e Rodrigo Pimenta Franco Avelar Campos são apontados como operadores. Victor declarou prestar serviços a David desde julho de 2024, incluindo “desenvolvimento de software de inteligência artificial”. Recebia R$ 2.000,00 por mês. Em 05/03/2026, Victor foi à casa de David com chave do imóvel e depois voltou com caminhão de mudança, “em contexto objetivamente compatível com a desmobilização do imóvel, retirada de objetos de interesse investigativo e possível supressão de elementos probatórios”.
Rodrigo fazia “alguns trabalhos para DAVID”, como “pagar boletos e adquirir domínios na internet”.
Camada financeira: laranjas e notas fiscais
A PF descreve “uma camada de apoio patrimonial e contábil à estrutura criminosa”. Erlene Nonato Lacerda é apontada como “interposta pessoa e gestora financeira de MARILSON ROSENO DA SILVA, incumbida da realização de pagamentos e de controle de suas despesas particulares”. Ela recebeu dois pagamentos de R$ 50.000,00 da KING PARTICIPAÇÕES, de Felipe Mourão, embora “o real destinatário dos valores fosse MARILSON ROSENO”.
Helder Alves de Lima, contador da ROSENO & RIBEIRO GESTÃO, tinha “a responsabilidade pela emissão de notas fiscais e pela instrumentalização documental dos pagamentos”.
O ministro destaca que Helder mantinha contato permanente com Marilson e que “mesmo após a deflagração da segunda fase da Operação Compliance Zero, os pagamentos efetuados por KING PARTICIPAÇÕES em favor de MARILSON não cessaram, e HELDER teria permanecido à disposição para emitir as notas fiscais correspondentes”.
Infiltração na Polícia Federal
A decisão cita “infiltração do grupo em circuitos informacionais sensíveis”. A delegada Valéria Vieira Pereira da Silva “acessou, sem justificativa funcional, o Inquérito Policial nº 2023.0064343”, mesmo lotada na Delegacia Fazendária em MG. Com o agente aposentado Francisco José Pereira da Silva, repassou “dados relevantes a MARILSON, que posteriormente os transmitiu a integrantes da organização”.
O agente da ativa Anderson Wander da Silva Lima é tratado como “longa manus de MARILSON ROSENO dentro da Polícia Federal”. Desde agosto de 2023, “vinha realizando diversas pesquisas em bases de dados internas da corporação e transmitindo os resultados a MARILSON ROSENO”. Em 5/8/2023, enviou “imagem de tela de sistema interno da Polícia Federal com dados de entrada e saída do país de RENATA ALVES”. Recebeu contrapartidas: Marilson pediu sua chave Pix para “mandar um presente pra filhota que passou no vestibular”.
Liderança da “Turma” e isolamento
Marilson Roseno da Silva, PF aposentado, é “apontado como sua liderança operacional”. Por isso, Mendonça determinou sua transferência para o Sistema Penitenciário Federal. “Mesmo após sua prisão, MARILSON teria continuado recebendo informações sigilosas sobre diligências policiais realizadas fora do cárcere”, o que demonstra “capacidade de manter comunicação e influência sobre integrantes do grupo em liberdade”.
Apoio à fuga
Katherine Venâncio Telles estava no carro com David na noite da fuga. A PF diz que ela deu versão “incompatível com os dados disponíveis” ao alegar viagem a Santos. Para o ministro, sua conduta revela “apoio à fuga e ao encobrimento do deslocamento de DAVID com material probatório”.
Por que as prisões
Mendonça fundamentou as sete preventivas na “gravidade concreta dos fatos, pela contemporaneidade da atuação criminosa, pelo risco de reiteração dos ilícitos e pelo potencial de embaraço às investigações”. Citou que “a liberdade dos investigados compromete, assim, de modo direto, a efetividade da investigação e a futura aplicação da lei penal”.
O ministro destacou que “o crime de organização criminosa tem caráter permanente, e os riscos à ordem pública, evidenciados pelo modus operandi e pela estrutura do grupo, permanecem atuais”. Por isso, “medidas cautelares alternativas são insuficientes”.
Medidas diversas e comando
Para Erlene, Helder, Katherine, Valéria e Francisco, foi imposta proibição de se ausentar da comarca e do país. Valéria foi afastada do cargo e, com Francisco, proibida de ter contato com policiais e de acessar dependências da PF.
O despacho conclui que ambos os núcleos “eram gerenciados por FELIPE MOURÃO e predispostos a atender comandos emanados de DANIEL VORCARO e, segundo os novos elementos, também de HENRIQUE MOURA VORCARO”. A decisão será levada a referendo da Segunda Turma do STF.





