Saúde mental e saúde física são indissociáveis. Diferentemente do entendimento que predominou no passado, a medicina atual aponta que as duas dimensões são interdependentes e que o equilíbrio entre elas é essencial para o bem-estar integral. O tema ganha relevância ainda maior quando confrontado com dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), segundo os quais o Brasil é líder global em pessoas com ansiedade – aproximadamente 9% da população.
A relação entre as duas esferas é de mão dupla: problemas de saúde mental podem afetar o corpo, causando doenças cardíacas, problemas digestivos, dores, distúrbios de sono e enfraquecimento do sistema imunológico. Da mesma forma, condições físicas, como doenças crônicas, podem desencadear quadros de ansiedade e depressão.
A psicóloga Lua Helena Moon, da Hapvida, destaca que o impacto do sofrimento emocional sobre o físico se expressa de maneiras concretas e que muitas vezes são subestimadas.
“O corpo não vive separado da vida emocional. Quando uma pessoa passa muito tempo sob estresse, ansiedade ou esgotamento, isso se reflete no sono, no apetite, na energia, nas dores, na disposição e até na capacidade de se cuidar. Muitas vezes, o corpo expressa o que a mente já não consegue sustentar sozinha”, afirma Lua.
A profissional ressalta que o sofrimento psíquico influencia no modo como o corpo adoece, se desgasta e tem mais dificuldade de se recuperar.
“Saúde mental não é um detalhe periférico. Ela participa da forma como o corpo suporta a rotina, reage ao estresse e enfrenta o adoecimento. Não se trata de dizer que tudo nasce da mente, mas de reconhecer que o sofrimento psíquico também participa do modo como o corpo adoece”, explica.
Corações e mentes
O cardiologista José de Lima Oliveira Júnior, da Hapvida, ressalta que o coração é um dos órgãos mais sensíveis ao estado emocional. Segundo ele, estresse, ansiedade e depressão aumentam o risco de infarto e AVC e podem elevar a pressão arterial, descontrolar o diabetes, favorecer a obesidade e ampliar o risco de eventos cardiovasculares graves.
“Quando a pessoa vive sob estresse, ansiedade ou depressão, há uma descarga constante de hormônios que sobrecarregam o sistema cardiovascular. Situações de tensão prolongada aumentam a liberação de adrenalina e cortisol, hormônios que elevam a pressão arterial, aceleram os batimentos e favorecem processos inflamatórios associados à formação de placas de gordura nas artérias”, detalha Lima.
Saúde hormonal x equilíbrio emocional
O endocrinologista Rodrigo Gomes de Souza, da Hapvida, aponta a influência recíproca existente entre saúde mental e o sistema hormonal. “Problemas como depressão e ansiedade podem aumentar o risco de doenças físicas. Algumas doenças hormonais também podem favorecer o surgimento de distúrbios psicológicos”, relaciona.
De acordo com o especialista, uma em cada quatro pessoas com diabetes apresenta sintomas de depressão. Outro ponto destacado por ele é o estresse crônico, que pode ocasionar aumento contínuo de um hormônio chamado cortisol. Em excesso, ele pode contribuir para ganho de peso, elevação da glicose, aumento da pressão arterial e maior risco de doenças cardiovasculares.
“Mas devemos ter atenção. O foco do tratamento não deve ser reduzir o cortisol isoladamente, mas sim tratar a causa do estresse crônico.”
Souza também chama a atenção para outro ciclo problemático: pessoas com obesidade têm maior risco de desenvolver depressão e ansiedade, enquanto quem já tem esses transtornos apresenta maior chance de ganhar peso.
“Pacientes com doenças metabólicas e hormonais devem ser avaliados também quanto à saúde emocional, assim como pessoas com transtornos psiquiátricos precisam de acompanhamento clínico mais amplo. Mente e corpo estão profundamente conectados. Tratar um sem olhar para o outro pode comprometer os resultados”, finaliza.





