O ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Marco Buzzi foi internado nesta quinta-feira (5) em um hospital de Brasília, sem previsão de alta, enquanto a jovem de 18 anos que o acusa de assédio sexual esteve na capital federal e prestou longo depoimento ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ). A denúncia contra o magistrado, revelada pelo portal Metrópoles, provocou reação imediata no Judiciário, com a abertura de sindicância no STJ e o envio do caso ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo relato da jovem, filha de um casal de amigos de Buzzi, o episódio ocorreu em 9 de janeiro, durante férias da família na casa do ministro em Balneário Camboriú (SC). Ela afirmou que, durante um banho de mar, o magistrado tentou agarrá-la por três vezes, estando “visivelmente excitado”. Em estado de desespero, conseguiu se desvencilhar, correu até a praia e relatou o ocorrido aos pais. O casal deixou o local imediatamente e registrou boletim de ocorrência em São Paulo.
Em nota divulgada após a revelação da denúncia, Buzzi declarou que “foi surpreendido com o teor das insinuações divulgadas por um site, as quais não correspondem aos fatos”. O ministro acrescentou: “Repudia, nesse sentido, toda e qualquer ilação de que tenha cometido ato impróprio”.
Na quarta-feira (4), o Pleno do STJ decidiu, por unanimidade, instaurar sindicância para apurar o caso. Foram sorteados os ministros Raul Araújo, Isabel Gallotti e Antonio Carlos Ferreira para compor a comissão responsável pela investigação. No entanto, Gallotti pediu afastamento, alegando impedimento por vínculos familiares com Buzzi. Caberá ao ministro Herman Benjamin realizar novo sorteio para definir o substituto, seguindo critérios como tempo de atuação na Corte.
O caso também chegou ao STF, já que ministros do STJ possuem foro privilegiado. O relator é o ministro Nunes Marques, que deverá conduzir os desdobramentos na Suprema Corte. A atuação do CNJ, que ouviu a jovem em sessão reservada, reforça a dimensão institucional da denúncia, considerada grave por envolver um magistrado da mais alta instância da Justiça brasileira.
A internação de Buzzi em Brasília ocorre em meio à pressão crescente sobre o tribunal e ao acompanhamento próximo de entidades da sociedade civil. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e associações de magistrados acompanham o caso, que reacende o debate sobre mecanismos de responsabilização de autoridades com foro privilegiado.
Leia o depoimento da jovem à Polícia de São Paulo. Todos os nomes, exceto do ministro do STJ, estão omitidos:
Aos 14 dias do mês de Janeiro de dois mil e vinte e seis, nesta cidade de S.PAULO, Estado de São Paulo, na sede da(o) 04ª
DEL.POL.REP.PEDOFILIA, onde presente se achava o(a) Exmo(a) Sr(a)xxxxxxxx, Delegado(a) de Polícia respectivo(a), comigo Escrivão(ã) de seu cargo ao final nomeado(a) e assinado(a), comparece Informação protegida nos termos do Provimento CG n° 32/20002, filho(a) de, com, estado civil, de nacionalidade, natural de, de profissão, residente e domiciliada à, com endereço comercial.
Sabendo ler e escrever, declarou que: sua mãe, P., é advogada militante nos Tribunais Superiores, de modo que a relação profissional com o Ministro Marco Aurelio Buzzi evoluiu para uma relação de amizade entre as famílias. Assim, a declarante acabou se aproximando do Ministro, tendo comparecido diversas vezes em seu gabinete. Ademais, informa que seus genitores já haviam participado de viagens junto com o Ministro e sua família. Informa que, desde criança, frequentava assiduamente o Superior Tribunal de Justiça e tinha o Ministro Marco Buzzi como um avô e confidente, especialmente considerando os conselhos por ele ofertados quando decidiu ingressar na faculdade de Direito.
Nesse contexto, informa que, no dia 07/01/2026, a convite do Ministro e sua esposa viajou à praia do Estaleiro, situada no Município de Balneário do Camboriú/SC, na companhia de sua mãe, e se hospedou na residência de Marco Buzzi e de sua esposa, xxxxx. Declara que, no dia 08/01/2026, Marco conversou com a declarante, questionando se ela seria lésbica e se não sentiria atração por homens, já que possui uma namorada, ao que respondeu que, na verdade, era bissexual. No dia seguinte, em 09/01/2026, seu pai, R., chegou à praia do Estaleiro para participar da viagem, que, até então, havia sido pacífica.
Por volta das 11h30 do dia 09/01/2026, os integrantes decidiram ir à praia e a declarante deixou a residência junto com Marco, enquanto sua mãe aguardava xxxx terminar alguns afazeres e seu pai R. estava em uma reunião online. Após chegarem na praia, a declarante, que usava apenas um biquini e portava seu celular e um livro em suas mãos, se sentou nas cadeiras em frente ao condomínio e passou a trabalhar, verificando algumas mensagens de seu estágio.
Na ocasião, quando finalizou os afazeres de seu estágio, olhou para frente e Marco estava em pé a convidando para entrar no mar. Quando concordou, Marco sugeriu que se dirigissem para o lado esquerdo da praia do Estaleiro, distante 400 metros do guarda-sol que se localizava na frente do condomínio, pois Marco disse que lá o mar estaria mais tranquilo, o que causou estranheza à declarante, considerando que, no local em que estavam, o mar não estava revolto.
No entanto, a declarante aceitou o convite de Marco e, então, ambos se dirigiram à esquerda do condomínio e entraram no mar. Ressalta que o local em que foram não era de visibilidade das pessoas que estariam no guarda-sol em frente ao condomínio que estavam hospedadas, de modo que sua mãe, caso estivesse na praia desde o início, não conseguiria vê-los. Informa que, por ser uma praia “de tombo”, Marco a ajudou a ingressar no mar e logo alcançaram uma profundidade grande na água.
Ainda assim, Marco sugeriu que fossem até mais fundo e conduziu a declarante, segurando em sua mão. Declara que começaram a conversar sobre assuntos diversos e que Marco perguntou a idade da declarante, apesar de saber que possuía 18 anos. Informa que Marco comentou estar sentindo frio, quando apontou para duas pessoas que também estavam dentro do mar, um pouco distantes, e afirmou “deve ser por isso que eles estão abraçados”. Declara que, nesse momento, Marco puxou a declarante pelo braço e a virou de costas para si e pressionou o quadril e nádegas da declarante contra seu pênis e a afirmou que a achava “muito bonita”. Quando tentou se desvencilhar, Marco a puxou de volta contra si e passou a mão em suas nádegas.
Que em ambas as ocasiões, a declarante pode sentir o pênis de Marco. Após, a declarante se afastou de Marco, que tentou puxá-la mais algumas vezes para perto de si, porém sem sucesso. Informa que, logo depois, Marco aconselhou a declarante dizendo: “você é muito sincera, deveria ser menos sincera com as pessoas. Eu só vejo a sua relação com a sua mãe, mas você é muito sincera, deveria ser menos. Isso pode te prejudicar”. Ao saírem do mar, caminharam de volta ao local do guarda-sol em que estavam anteriormente e Marco perguntou se a mãe da declarante estava no guarda-sol, ao que respondeu afirmativamente.
Diante disso, Marco disse “avisa que eu vou andar até o final da praia”. Informa, ainda, que Marco possui um problema na perna e que, por isso, havia afirmado anteriormente que não gosta de andar na praia. Ao chegar no local da praia em que estava a mãe da declarante acompanhada por xxxxx e xxxxxi e sua esposa (primo de Marco), disse a ela que não queria ficar lá e que precisava trabalhar. Se cobriu com uma toalha e saiu correndo em direção ao condomínio. Declara que ao chegar à residência, a declarante contou o ocorrido ao seu pai, chorando muito. O pai da declarante, então, contou o ocorrido à mãe da declarante que havia chegado sozinha à residência e ambos decidiram voltar a São Paulo, porém passaram por Curitiba/PR antes.
Por fim, informa que, desde o ocorrido, não consegue dormir e sofre de pesadelos constantes sobre o episódio e está sendo acompanhada por psicóloga e psiquiatra. Nada mais disse nem lhe foi perguntado. Nada mais havendo a tratar ou a relatar, determinou a Autoridade o encerramento do presente termo que, após lido e achado conforme, vai por todos devidamente assinado, inclusive por mim Escrivão(ã) de Polícia que parcialmente o digitei.





