Elza dos Santos teve o filho preso e desaparecido durante a ditadura militar . (Foto Elza dos Santos/Arquivo Pessoal)


O dia 8 de março tinha um significado especial para Elza dos Santos. Mais do que ser o Dia Internacional da Mulher, era o aniversário dela, celebrado com sorrisos, música e os seis filhos apertados na casa de um quarto onde moravam no Rio de Janeiro. Viúva e costureira, Elza era a “rainha” de sua família. Mas a vida deu uma reviravolta em março de 1971, quando seu filho mais velho, Joel Vasconcelos, de 21 anos, foi preso por agentes da ditadura militar.

Aquele mês não trouxe mais alegria. A dor de sua ausência marcou para sempre aquela casa.

Joel era um jovem idealista e diretor da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes). Ele também trabalhava como sapateiro para ajudar nas despesas de casa. Detido pelo DOI-Codi, nunca voltou. Elza, com a foto do filho nas mãos, iniciou uma batalha para saber o que aconteceu. Era vista na Cinelândia, em escadarias e ruas movimentadas, mostrando o rosto de Joel e pedindo informações, enquanto encorajava os filhos a não perderem os sorrisos, mesmo diante de tanto sofrimento. “A gente tinha que continuar vivendo, mesmo com o coração apertado”, relembra Altair de Almeida, advogada e irmã mais nova de Joel.

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A esperança nunca deixou Elza, que manteve o telefone fixo na casa por anos, na expectativa de um dia receber uma ligação. Mas ela faleceu em 1994, sem o corpo do filho ou respostas concretas sobre seu destino.

Um impacto que vai além

Foto de Joel Vasconcelos. (Arquivo Pessoal)

A história de Joel reflete o destino de muitas famílias brasileiras durante os anos de repressão. Como ele, milhares desapareceram sem explicação. E foi a força de mulheres como Elza que manteve viva a luta por memória e justiça. Muitas vezes, eram mães, viúvas ou irmãs que, além de enfrentarem as perdas, carregavam sozinhas o sustento dos filhos e a busca pela verdade.

Victória Grabois, de 81 anos, sabe o peso dessa luta. Ela perdeu três familiares – o pai, o irmão e o marido – assassinados pela ditadura. “Eu vou morrer sem respostas, mas continuo porque o Brasil precisa lembrar dessas histórias”, diz. Fundadora do movimento Tortura Nunca Mais, Victória acredita que a repercussão de produções como o filme “Ainda Estou Aqui”, sobre Eunice Paiva, ajuda a dar visibilidade às lutas das mulheres. “Se falamos de ditadura, isso se deve às mães, esposas e companheiras que se recusaram a desistir”, afirma.

Crianças também sofreram

Família de Hilda Martins e Virgilio Gomes, considerado o primeiro desaparecido político da ditadura militar. (Foto Virgílio Gomes/Arquivo Pessoal)

Em São Paulo, Virgílio Gomes da Silva foi o primeiro desaparecido político reconhecido da ditadura militar. Ele foi preso em 1969 e nunca voltou. Sua esposa, Ilda Martins, com apenas 38 anos, foi presa no dia seguinte com os quatro filhos, incluindo a caçula Isabel, então com apenas quatro meses de vida. “Minha mãe foi uma heroína”, conta Isabel, hoje professora. “Ela perdeu o marido e foi separada de nós por mais de um ano, mas nunca perdeu a força para nos criar.”

Após anos de exílio em Cuba, a família voltou ao Brasil. Para Isabel, a luta agora é por encontrar os restos mortais do pai. “Ainda esperamos respostas, porque o Brasil nunca julgou adequadamente esse período”, conclui.

Persistência e memória

Diva Santana, hoje com 81 anos, ainda busca sua irmã Dinaelza Coqueiro, desaparecida na Guerrilha do Araguaia. Representante da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, Diva acredita que as mulheres familiares de perseguidos desempenharam um papel crucial.

“Essas mulheres enfrentaram portas fechadas e cadeias para manter viva a luta por justiça. Elas fizeram isso pelo país, para que fosse mais humano e democrático”, diz Diva.

De Ilda a Elza, de Victória a Diva, essas histórias se conectam por uma força comum: a coragem de transformar a dor em luta. Enquanto houver busca por memória, as histórias dessas mulheres seguirão inspirando. Afinal, como dizia Elza para seus filhos: “Vamos sorrir. Somos heróis também.”