Cyra Moreira e Cecília Tilkian diante de trecho da obra em processo que integra a exposição Com.Fiar, desenvolvida ao longo de 58 encontros entre 2023 e 2025 - Divulgação


Por Adriana Blak (RJ)

Neste sábado (9), a Galeria Marta Traba, no Memorial da América Latina, inaugura a exposição “Com.Fiar”, uma obra que desafia os limites da criação artística. São 125 metros de papel contínuo, percorridos por grafismos, cores e texturas, resultado de 58 encontros das artistas Cyra Moreira e Cecília Tilkian entre 2023 e 2025.

“Esse trabalho, desde o primeiro dia, esteve em um lugar desconhecido — principalmente para artistas. O ato de criar costuma ser muito solitário, e compartilhar esse processo é algo bastante incomum”, afirmou Cyra Moreira, em entrevista ao programa BC TV, do portal Brasil Confidencial.

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O processo: sem roteiro, sem hierarquia

Ao longo de 480 dias, Cyra e Cecília se encontraram para pintar e desenhar sem qualquer planejamento prévio. O suporte escolhido foi o papel Canson Infinity Imaging Photo Mate 24”, 180g, com 61 centímetros de largura. Sobre ele, uma verdadeira alquimia de materiais: grafite, aquarela, acrílica, lápis de cor, giz de cera, pastel seco e a óleo, nanquim, carvão, além de elementos naturais como terra, capim, raízes e casca de árvore.

“Nunca programamos o que iríamos pintar, simplesmente pintamos, como um bando de pássaros que voa junto, formando desenhos no ar”, explicou Cyra.

O título “Com.Fiar” nasceu da necessidade de nomear a experiência. “Fiar é solitário. Confiar pressupõe o outro”, sintetizou a artista.

A confiança como matéria-prima

Segundo Cyra, o processo exigiu uma abertura constante ao imprevisível. “Dividíamos nossos espaços sem nunca sentir invasão. Esse sentimento simplesmente nunca existiu”, disse.

A obra, portanto, não é apenas resultado plástico, mas também registro de uma relação de confiança construída ao longo dos encontros. “Foi depois de tudo isso que entendemos o que tínhamos feito. Até então, estávamos apenas vivendo o processo”, acrescentou.

A experiência da exposição

O percurso conduz o visitante por diferentes registros visuais e emocionais, mas sempre unidos pela continuidade do papel, como uma única respiração. O desfecho é marcado por uma imersão no azul ultramar. “Os últimos metros trazem apenas o azul, que se expande até envolver completamente o espaço”, explicou Cyra. Nesse momento, o papel desaparece como suporte e se transmuta em luz, oferecendo ao público um mergulho sensorial.

A participação do público

No domingo, a exposição abre espaço para a criação coletiva. No chão, um grande rolo de papel branco será estendido, convidando os visitantes a desenhar juntos com giz de cera. Monitores conduzirão a experiência, estimulando reflexões sobre o ato de compartilhar.

“Quando o outro pincel, a tinta que vem da outra pessoa, não é tomado como invasão ou agressão, mas como soma e colaboração — estamos diante de uma revolução”, declarou Cyra.

Por que “Com.Fiar” é urgente?

Mais do que uma obra plástica, “Com.Fiar” se afirma como gesto político. Propõe que a beleza nasça da trama conjunta, que habitar o mesmo espaço não precisa ser ameaça, mas possibilidade. “Pode ser o começo de algo que nenhum dos dois criaria sozinho”, resume a proposta.

A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:

Adriana Blak – Primeiro, eu queria saber como surgiu a ideia de criar uma obra compartilhada sem um planejamento prévio?

Cyra Moreira – Esse trabalho, desde o primeiro dia, esteve em um lugar desconhecido — principalmente para artistas. O ato de criar costuma ser muito solitário, e compartilhar esse processo é algo, para nós, bastante incomum. É quase como compartilhar um pensamento, porque a criação acontece em um espaço que ainda não existe, e isso é muito difícil de dividir com outra pessoa. Você precisa abrir um lugar novo, que é justamente o movimento de criar.

A Cecília me procurou no começo de 2023 dizendo que gostaria muito de trabalhar comigo. Nós mal nos conhecíamos e nunca tínhamos trabalhado juntas. Acho que ela também não conhecia profundamente o meu trabalho, nem eu o dela, mas ela já tinha me visto trabalhando.

Quando ela veio com essa proposta, eu aceitei, mas sem saber exatamente para onde aquilo iria. A única condição era: não precisava resultar em uma obra, nem em uma exposição, nem em qualquer produto final. Não havia um objetivo definido. O que existia era um compromisso profissional e interno entre nós, mesmo sem sabermos exatamente com o quê.

Então estabelecemos um encontro semanal: todas às sextas-feiras, alternando entre o meu ateliê e o dela. E, desde a primeira sexta-feira, houve uma empatia muito grande. Não foi algo intelectual ou planejado — não existia uma conversa do tipo ‘vamos respeitar o espaço da outra’. Isso simplesmente aconteceu de forma natural.

Ao longo do processo, fomos entendendo o quanto aquilo era precioso e raro, um lugar muito diferente de criação. Porque esse tipo de trabalho exige uma confiança imensa no outro, em todos os sentidos. E essa confiança não vinha de acordos teóricos ou de conversas elaboradas, mas da experiência em si. Dividíamos nossos espaços sem nunca sentir invasão. Esse sentimento simplesmente nunca existiu.

Adriana Blak – Agora, Círia, o que significa o título Confiar?

Cyra Moreira – Tudo isso veio depois. Esses dois anos de trabalho, na verdade, não foram contínuos. No segundo semestre de 2023, eu tive uma grande exposição e acabamos ficando cerca de dois meses sem nos encontrar. Em seguida, fomos juntas para uma residência na Europa, mas que não tinha relação direta com o nosso trabalho. Então, em termos de calendário, esse processo durou quase três anos, ou dois anos e meio.

Mas, em determinado momento, quando o trabalho já estava mais avançado, sentimos que precisávamos dar um rumo, encontrar uma forma de concluir aquilo. Senão, continuaríamos indefinidamente. E essa foi uma etapa difícil, porque foi justamente a hora de pensar — os últimos metros do processo — e de encontrar um desfecho. Foi daí que surgiu o mergulho no azul, que acabou se tornando o final da obra.

Foi também nesse momento que começamos a refletir sobre o que, de fato, tínhamos construído. Até então, estávamos apenas vivendo o processo. Então paramos um pouco para estruturar e tomar consciência do trabalho.

E foi daí que surgiu o nome Confiar. Porque existe o ‘com’, de estar junto, e o ‘fiar’, no sentido do ato de fiar, de tecer junto. O título acabou reunindo essas duas ideias e também inevitavelmente se aproximando da palavra ‘confiança’. Mas tudo isso veio depois da experiência.

Adriana Blak – E como foi dividir o mesmo papel e os mesmos pincéis com a Cecilia Tilkian?

Cyra Moreira – Então, foi muito mais do que dividir o mesmo papel ou os mesmos pincéis. Aliás, falar em pincel até é impreciso, porque foi justamente o que menos usamos. Tinha palito, terra, nanquim, acrílico… praticamente tudo o que você pode imaginar — menos tinta a óleo, embora o papel até suportasse isso.

O que realmente acontecia era uma partilha do próprio traço. E isso sem planejamento prévio. O trabalho ia acontecendo ali, no chão. O papel ficava sempre aberto, em grandes rolos, com pelo menos oito metros estendidos tanto no meu ateliê quanto no dela. Trabalhávamos uma diante da outra, mas sempre no chão, cercadas pelos materiais.

Cada uma pegava o que queria e ia intervindo livremente. Às vezes eu percebia um azul que ela tinha colocado e respondia com um verde, por exemplo. Mas não era algo racionalizado ou combinado — simplesmente acontecia

Adriana Blak – Vocês tiveram muitos encontros ao longo desses 480 dias. Como você acha que essa constância influenciou o resultado final?

Cyra Moreira – A constância foi fundamental. Esse foi um compromisso assumido desde o início — não exatamente no primeiro dia de trabalho, porque antes tivemos uma conversa no meu ateliê, depois que a Cecília disse que gostaria de trabalhar comigo. Precisávamos entender o que aquilo seria.

Ela queria trabalhar comigo, mas de que forma? O que significava esse encontro? E foi nessa conversa que estabelecemos um compromisso muito claro: seria um compromisso profissional. Eu disse a ela que, nesta altura da vida, eu não fazia mais nada de maneira amadora — não no sentido de resultado ou mercado, mas no sentido do compromisso com o próprio processo de criação.

Isso não significava que o trabalho precisaria virar uma exposição, uma obra à venda ou qualquer outra coisa concreta. Mas significava levar o processo a sério. Não era simplesmente ‘vamos experimentar algo juntas um dia’. O tempo da criação é precioso demais para isso.

Então, essa constância dos encontros foi essencial, porque ela sustentou a profundidade do trabalho e a confiança que fomos construindo ao longo do processo.

📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:

Serviço

Abertura: 9 de maio, 17h às 21h

Visitação: 10 de maio a 7 de junho
Quarta a domingo, das 10h às 17h

Local: Memorial da América Latina – Galeria Marta Traba
Av. Mário de Andrade, 664 Portões 4 e 8 – Barra Funda, São Paulo

Conheça as artistas Cyra Moreira e Cecilia Tilkian

Cyra Moreira nasceu em Belo Horizonte (MG) e cresceu em Rolândia (PR). Sua produção atravessa diferentes linguagens, como pintura, desenho, escultura, cerâmica e instalações, desenvolvidas ao longo de uma carreira marcada pela experimentação contínua e pela construção de uma linguagem própria. Com formação internacional e acadêmica, incluindo estudos no Brasil, na França e nos Estados Unidos, a artista ampliou seu repertório técnico e conceitual em instituições como o IADÊ (São Paulo), a Université Paris VII e o Montgomery College. Após anos vivendo fora do Brasil, retornou ao país e, desde 2000, vive e trabalha em São Paulo, onde mantém uma produção ativa e presença em exposições nacionais e internacionais, com obras integrando coleções em diferentes países.

Cecilia Tilkian construiu sua carreira em São Paulo, onde nasceu e vive até hoje. Sua prática artística se desenvolve principalmente em cerâmica, desenho, aquarela, gravura e pintura, articulando produção visual e atuação pedagógica. Formada em Licenciatura em Desenho e Plástica pela Universidade Mackenzie, com especialização em Terapia Artística Antroposófica e pós-graduação em Artes pela Faculdade Rudolf Steiner, Tilkian também se destaca pelo trabalho na formação de educadores e na terapia artística. Ao longo de sua trajetória, participou de diversas exposições e ilustrou livros, consolidando uma atuação que conecta arte, educação e cuidado.