Laira Vieira*
A promessa da transparência total nunca foi tão opaca. Em O Círculo (2015), o diretor James Ponsoldt (O Maravilhoso Agora, O Fim da Turnê) disseca, com um bisturi silencioso, a utopia digital do nosso tempo — aquela que vende liberdade enquanto instala vigilância, que promete comunidade enquanto engole o indivíduo. Sua crítica não grita, sufoca. É o futuro maquinal disfarçado de idealismo, e a isca perfeita é a boa intenção.
Emma Watson (As Vantagens de Ser Invisível, Adoráveis Mulheres) interpreta Mae Holland, uma jovem inteligente e ambiciosa que, cansada da mediocridade e seduzida pelo brilho tecnológico, consegue um emprego na maior e mais influente empresa de tecnologia do planeta: o Círculo. A startup é o sonho molhado do Vale do Silício, com campus reluzente, fraternidade corporativa, programa de bem-estar e uma filosofia de transparência até a alma. Mas o que parece um paraíso digital logo revela seu verdadeiro rosto: uma distopia domesticada, limpa, funcional e perigosamente encantadora.
Tom Hanks (Forrest Gump, Náufrago) vive Eamon Bailey, o CEO carismático que vende controle com voz doce. Uma figura híbrida de Steve Jobs com messias evangélico, ele promete um mundo sem mentiras, sem crimes, sem segredos. Uma transparência plena que, sob o verniz da conectividade, representa a extinção da privacidade e, portanto, da humanidade.
Cada elemento do filme se constrói como um espelho reluzente da sociedade contemporânea. Telas, sensores, dados, câmeras — tudo é coleta, tudo é performance. O que torna O Círculo tão perturbador não é o exagero, mas a verossimilhança. Nada ali soa absurdo, tudo já existe, talvez com menos propaganda, talvez com mais polidez. A crítica está menos na invenção e mais na constatação.
Ponsoldt não dramatiza, documenta. A direção evita histerias fáceis. O ambiente é limpo, silencioso, e justamente por isso, hostil. A alienação não se manifesta na violência, mas na adesão. Mae não é coagida; ela consente, sorri, participa. Quando decide transmitir sua vida 24 horas por dia, não é punida; é celebrada. O horror, aqui, é cordial. E ainda assim, quase imperceptível.
Nesse cenário, John Boyega (Star Wars: O Despertar da Força, Detroit em Rebelião) surge como Ty, o dissidente interno. Um dos fundadores da plataforma, agora arrependido, tenta alertar a protagonista sobre o colapso iminente da liberdade. Mas sua voz é abafada pela euforia coletiva, por uma plateia que grita “transparência” como se fosse libertação, sem perceber que é uma coleira digital.

A intimidade se dissolve em nome da eficiência, relações humanas tornam-se espetáculo; o pensamento crítico, uma ameaça ao engajamento; a câmera acompanha Mae como um olho onisciente — e ela, ciente disso, performa até a própria dor. Tudo vira conteúdo. O que antes era vida privada vira ativo de rede, e quem não se expõe, não existe.
Não há reviravoltas explosivas, o filme se desenrola como uma tragédia silenciosa e inevitável. A fluidez entre os atos mantém o espectador num estado constante de inquietação. Uma inquietação que não vem do futuro, mas do agora. Do medo do anonimato, que faz com que tanta gente entregue a própria existência em troca de visibilidade — como se ser visto fosse o mesmo que ser amado.
Quando Mae está completamente integrada ao sistema, encara a câmera com olhar sereno, como quem, enfim, sente que pertence a algo maior. Ao seu redor, os drones zunem. Nada escapa, nem o pensamento. A liberdade foi diluída no elogio à transparência. O mundo se tornou uma vitrine sem trancas, o que resta é a ilusão de controle, a paz artificial, a alma conectada e ausente.
O Círculo não é um filme futurista, é uma elegia ao presente que já vendemos e seguimos comprando. Como diz a frase atribuída a Tiradentes: “A liberdade não é um presente que se recebe, mas uma conquista que se faz todos os dias.” Em um mundo de likes, lives e consentimentos automáticos, talvez a batalha já tenha sido perdida — e seguimos sorrindo, performando, diante das câmeras que agora moram em todos os lugares.
*Laira Vieira é Critica Cultural, Economista e Tradutora. Autora.




