Laira Vieira*
Existem casas que não são feitas de paredes, mas de ideias. Algumas tão antigas quanto a culpa, outras tão refinadas quanto a retórica da salvação. O filme Herege (2024), dirigido por Scott Beck e Bryan Woods (A Casa do Terror, 65: Ameaça Pré-Histórica), é um mergulho nas fundações dessas construções invisíveis – espaços onde a fé vira cárcere, o ceticismo é pecado e a dúvida, um convite ao abismo. A obra não quer assustar com gritos ou aparições, mas com aquilo que há de mais aterrador: o pensamento que se instala, corrói e persiste.
A premissa, em aparência singela, oculta uma engrenagem cruelmente precisa: duas missionárias mórmons, Irmã Barnes (interpretada por Sophie Thatcher, de Yellowjackets e O Livro de Boba Fett) e Irmã Paxton (interpretada por Chloe East, de Os Fabelmans e Generation), em trabalho de proselitismo, batem à porta errada – ou talvez a mais reveladora. Elas são recebidas pelo Sr. Reed (vivido por Hugh Grant, de Quatro Casamentos e um Funeral e O Diário de Bridget Jones), um homem excêntrico, erudito e sedutor, que as acolhe com uma cortesia quase paternal. A hospitalidade, porém, logo se revela armadilha: o que parecia uma conversa casual se torna um ritual de demolição.
Presas dentro da casa, as jovens percebem que não há uma rota clara de fuga, as portas se fecham metafórica e literalmente. Isoladas do mundo exterior, elas se veem forçadas a permanecer no jogo intelectual e psicológico proposto por Reed. A única chance aparente de sair dali com segurança é jogar conforme suas regras – escutar, responder, aceitar a escalada de provocações. O ambiente, já opressivo, torna-se um tabuleiro onde a dúvida é a moeda de troca. E então, lentamente, as certezas começam a ruir.
O que se segue é uma lenta erosão das convicções. Reed conhece as brechas da fé, as rachaduras do dogma, e sabe como conduzir suas visitas por um labirinto de lógica, ironia e provocação. Mas não é apenas o discurso que as abala: eventos estranhos, sutis e perturbadores começam a acontecer na casa. Fenômenos que desafiam a racionalidade – e paradoxalmente também a fé – emergem como interrogações vivas. As missionárias veem coisas que as desestabilizam, mas até que ponto elas podem confiar em seus próprios olhos? Seriam manifestações sobrenaturais, truques psicológicos ou manipulações arquitetadas por aquele anfitrião inquietante, mais velho, mais culto e preparado para a chegada delas?
A dúvida se infiltra não só nas crenças das missionárias, mas na percepção do espectador. O Sr. Reed seria apenas um provocador intelectual ou um homem perigosamente hábil em manipular mentes jovens e impressionáveis? A tensão cresce não apenas pelo confronto ideológico, mas pela suspeita de que há algo mais sombrio em jogo. Seria ele um serial killer? Um sádico que se esconde sob o verniz da erudição? A ameaça nunca é explícita, mas paira como uma sombra, ampliando a inquietação que se espalha pela narrativa.
O auge do horror está nas entrelinhas, nos silêncios, nas perguntas que soam gentis mas disparam granadas existenciais. Reed não encarna um vilão típico – ele é um inquisidor disfarçado de anfitrião. Não impõe a descrença, mas a exige como raciocínio inevitável. Seu jogo não é o da conversão, mas da corrosão: não quer demolir a fé das garotas, mas fazê-las demoli-la por dentro.
Nesse campo de batalha discursivo, o terror nasce da reflexão forçada. A fé, aqui, é desnudada de sua função reconfortante e transforma-se em campo de tensão, em identidade ameaçada. Barnes vacila, hesita, tenta sustentar seus valores diante das investidas de Reed; Thatcher entrega uma performance contida, de olhar tenso, que traduz perfeitamente a batalha íntima de quem começa a suspeitar da fragilidade de suas certezas. Paxton, mais rígida, mais devota, assume o papel da fortaleza dogmática – e, paradoxalmente, é por isso que se mostra mais vulnerável. O roteiro compreende com precisão a fé como fenômeno psicológico e social: ela nunca é apenas crença, mas pertencimento, memória, defesa contra o caos.
O roteiro de Herege opera como um duelo socrático pervertido. Reed, com sua retórica sedutora, não busca verdade, mas dominação intelectual. Sua arma é a dúvida meticulosamente calibrada, ele se apresenta como cético, mas age como sacerdote de outra doutrina: a da razão absoluta, intolerante ao mistério. E é aí que a obra ganha camadas mais densas. Ao inverter o jogo entre crentes e descrentes, Herege revela que o autoritarismo não é monopólio da religião. Também o racionalismo, quando hipertrofiado, pode se tornar dogma – um dogma que se pretende superior, mas que se recusa a dialogar com aquilo que não pode medir.
Em tempos de polarização histérica, de certezas blindadas e bolhas ideológicas, o longa-metragem funciona como uma alegoria aguda da contemporaneidade. A casa de Reed poderia ser uma live, um fórum online, uma mesa de jantar onde ninguém mais escuta – apenas aguarda sua vez de afirmar, de vencer. O terror aqui não vem do sobrenatural, mas da impossibilidade do diálogo. De um mundo onde a escuta é fraca e a imposição é regra. Onde perguntas não visam entendimento, mas humilhação. E nesse ambiente, todos se tornam hereges – porque toda diferença vira heresia.
A frase de Blaise Pascal ecoa como fantasma nos corredores desse filme: “O coração tem razões que a própria razão desconhece.” Herege confronta essa dicotomia com precisão cirúrgica. E, ao fazer isso, obriga o espectador a enfrentar algo incômodo: a possibilidade de que nenhuma convicção é imune à dúvida – nem mesmo aquela que se julga racional.
O desfecho, longe de oferecer consolo, agrava a inquietação; há reviravoltas, mas não há libertação real. A película termina como começou: lançando perguntas. E sua maior virtude está justamente aí – em não querer apaziguar. Herege é um terror filosófico, psicológico, existencial. Não perturba pelo que mostra, mas pelo que deixa em suspensão. Como as ideias mais perigosas, ele não grita. Sussurra. E permanece.
É uma obra que exige maturidade emocional e intelectual, não para compreendê-lo, mas para aceitar o que ele não diz. Em tempos de narrativas simplificadas, Herege se impõe como um raro exemplar cinematográfico que desestabiliza, que não quer agradar, mas desarmar; que não oferece refúgio – apenas espelhos rachados onde, com sorte, cada um verá seu próprio fanatismo, sua própria arrogância, e sua própria fé em ruínas.
*Laira Vieira é Tradutora, Crítica Cultural, e formada em Ciências Econômicas pela UFSM. Autora




