Laira Vieira


Laira Vieira*

O século XXI não cansa de nos lembrar que a estupidez humana tem imaginação de sobra — e quando a arte decide acompanhá-la, nascem aberrações fascinantes. O Urso do Pó Branco (2023) é uma dessas criaturas disformes que escapam de qualquer jaula genérica. 

Baseado em um caso real tão absurdo que parece roteiro rejeitado por Tarantino, o longa dirigido por Elizabeth Banks (A Escolha Perfeita 2, As Panteras) transforma uma anedota de rodapé da década de 1980 em espetáculo cômico e sangrento sobre vício, degradação ambiental e o nosso apetite insaciável por entretenimento grotesco.

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O ponto de partida é simples e surreal: em 1985, um traficante lançou pacotes de cocaína de um avião sobre a floresta do estado da Geórgia (EUA) antes de saltar — e morrer — um urso-negro encontrou parte da carga e consumiu uma quantidade absurda da droga. Na vida real, o animal morreu quase imediatamente. Na obra, não. A criatura transforma-se numa força incontrolável, um predador alterado quimicamente, que entra em frenesi homicida enquanto se depara com personagens diversos — policiais, bandidos, turistas e duas crianças — que tentam sobreviver à selva contaminada. No elenco, Keri Russell (The Americans, Missão: Impossível III) vive Sari, uma mãe em busca da filha desaparecida; O’Shea Jackson Jr. (Straight Outta Compton, Den of Thieves) é Daveed, um capanga de traficante com senso prático; e Alden Ehrenreich (Han Solo: Uma História Star Wars, Dezembro Fatal) encarna Eddie, um criminoso à beira de um colapso existencial.

O filme balança entre o trash proposital e a crítica velada, usando a premissa nonsense para denunciar uma lógica de mundo onde até a fauna se torna refém das ruínas humanas. A floresta, espaço simbólico de refúgio e vida, é corrompida pela presença do homem e uma das suas mercadorias mais letais: Drogas pesadas, metáfora escancarada do capitalismo químico que vicia, mata e lucra. O urso, ao contrário do que se espera de um animal selvagem, não age por instinto de caça, mas por compulsão — como se sua própria biologia tivesse sido sequestrada pelo delírio humano. Ele se torna o avatar perfeito de uma natureza intoxicada pelo sistema que a explora.

Não se trata apenas de sátira visual. O filme dialoga com a tradição do cinema B dos anos 1980, mas com o cinismo do nosso presente hiperconectado, onde a violência virou commodity audiovisual. Cada desmembramento vira piada, cada ataque é celebrado como catarse. E o público consome com o mesmo entusiasmo. Essa digestão do horror, transformado em espetáculo, revela como o grotesco se normalizou. É a lógica do algoritmo: quanto mais absurdo, mais engajamento.

A presença de crianças em meio ao caos não é apenas uma estratégia dramática. É denúncia. Elas simbolizam uma geração abandonada, entregue a uma floresta simbólica onde os adultos já não sabem proteger, apenas fugir, drogar-se ou vender o próximo pacote. Keri Russell que empresta dignidade à figura de uma mãe que resiste, que tenta ainda significar cuidado em um cenário onde o mais forte é quem estraçalha o mais “fraco”. Nesse contraste, a obra se ancora emocionalmente.

Apesar do riso fácil provocado pelo absurdo e escândalo visual, há uma lucidez incômoda embaixo da fantasia sanguinolenta. O Urso do Pó Branco não apenas zomba de uma sociedade viciada em adrenalina e lucro; ele a exibe em sua nudez cômica e cruel. Como disse Sartre: “O homem está condenado a ser livre”.  Mas e quando essa liberdade se transforma em destruição pura, estetizada, viral?

A recepção da película foi mista — muitos críticos se dividiram entre o deboche e o fascínio, mas talvez essa divisão seja parte do efeito pretendido. Ao transformar um evento trágico e ridículo em entretenimento de massa, o longa revela mais sobre quem somos do que gostaríamos de admitir. O que vemos na tela não é apenas um urso drogado: é o retrato do nosso próprio estado psíquico coletivo, cada vez mais anestesiado, cada vez mais faminto por um caos editado.

A película não termina: ele reverbera. A gargalhada nervosa provocada por seus absurdos esconde um amargor que permanece após os créditos. No fundo, trata-se de uma fábula sinistra — não sobre a besta na floresta, mas sobre as bestas civilizadas que a criaram. E sobre o dia em que até a natureza, envenenada demais para suportar, resolveu dar o troco.

*Laira Vieira é Critica Cultural, Economista e Tradutora. Autora.