Luiz Malavolta


Luiz Malavolta*

Existe uma espécie peculiar, um fenômeno social fascinante que emergiu do solo fértil do discurso público: a sociedade do “não aguento mais pagar imposto”. Estão por toda parte, ecoando sua indignação na internet, nos debates televisionados e até nas conversas casuais na padaria. Mas onde essas almas indignadas realmente residem? O que mantém sua revolta acesa? E quais grandes feitos ocupam seus dias?

Imaginemos, por um instante, seu habitat natural. Não é a favela, certamente não a periferia, onde o peso da sobrevivência diária faz das discussões sobre impostos um luxo inalcançável. Não, suas moradias frequentemente ostentam mais de um banheiro, um jardim bem cuidado e, claro, uma conexão de internet confiável, pela qual transmitem seu martírio fiscal. Vivem em bairros onde as ruas são asfaltadas, o lixo é coletado, e a iluminação pública funciona – serviços, ironicamente, financiados pelos impostos que tão veementemente denunciam.

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E o que comem? Não pão amanhecido e água, presume-se. Suas mesas estão fartas de queijos importados, vegetais orgânicos (talvez de uma fazenda que se beneficia de incentivos fiscais) e cortes de carne cujo valor excede o salário mínimo semanal. Seu café é artesanal, seu vinho é vintage, e a escola de seus filhos é particular, garantindo uma educação intocada pelo sistema público que evitam financiar adequadamente. Consomem bem, muitas vezes excessivamente, mas a ideia de contribuir para o bem coletivo lhes parece uma afronta, um ataque direto ao conforto arduamente conquistado (e muitas vezes herdado).

Mas são suas ações – ou melhor, suas inações – que os definem. Exigem melhores serviços públicos – saúde eficiente, ruas seguras, educação de ponta –, mas recusam-se a contribuir mais para alcançá-los. Defendem a responsabilidade fiscal, desde que não afete suas próprias carteiras. Pregam austeridade, mas apenas para os outros. Brandem contra a corrupção, convenientemente ignorando que um setor público robusto e bem financiado, com salários justos e fiscalização adequada, é a melhor defesa contra ela. São os que reclamam do trânsito, mas rejeitam investimentos em transporte público. Lamentam a falta de segurança, mas contestam o financiamento para melhores equipamentos e treinamento policial. Criticam os hospitais públicos, mas usam planos de saúde privados sem hesitar.

Querem um país de primeiro mundo com uma conta de impostos de terceiro mundo, um estilo de vida de champanhe com um orçamento de cerveja para o coletivo. A verdade inconveniente, sussurrada nos corredores do poder e bradada pelos economistas, é que não existe árvore de dinheiro mágica. A conta por uma sociedade funcional é inevitável – será paga por meio de tributação responsável, distribuída equitativamente, ou pela deterioração lenta e dolorosa dos serviços públicos, tornando a vida digna acessível apenas aos verdadeiramente ricos.

A turma do “não aguento mais pagar imposto”, com seu conforto e revolta fervorosa, acredita que pode ter o bolo e comê-lo, sem nunca contribuir com os ingredientes. Exigem os benefícios de uma sociedade civilizada sem arcar com o custo. Enquanto sua voz for dominante, o resto continuará pagando a conta, enquanto desfrutam de suas ruas bem pavimentadas e queijos importados, inconscientes da hipocrisia que alimenta sua indignação.

*Luiz Malavolta é jornalista