O Peru vive uma nova onda de instabilidade institucional após a destituição da presidente Dina Boluarte pelo Congresso Nacional, na madrugada de 10 de outubro. A decisão, tomada por 118 votos a favor e sem abstenções, foi motivada por acusações de “incapacidade moral permanente”, diante da escalada da violência urbana, denúncias de corrupção e repressão a manifestações populares.
Boluarte, que assumiu o cargo em dezembro de 2022 após a queda de Pedro Castillo, enfrentava uma rejeição recorde de 96%, segundo levantamento do instituto Ipsos. A presidente deixou o Palácio de Governo sem resistência, mas sob forte pressão das ruas e de setores do Judiciário.
Protestos e vítimas
Desde o início de outubro, milhares de manifestantes tomaram as ruas de Lima, Arequipa, Cusco e outras cidades exigindo reformas políticas e o fim da violência policial. Os atos foram impulsionados por jovens da chamada “Geração Z”, organizados por meio das redes sociais.
A morte do rapper Eduardo Ruiz Sáenz, de 24 anos, baleado por um policial infiltrado durante uma manifestação pacífica em Lima, intensificou os protestos. Segundo a Defensoria do Povo, ao menos 112 pessoas ficaram feridas nos confrontos com as forças de segurança. Organizações internacionais de direitos humanos pedem investigação independente sobre o uso excessivo da força.
Novo governo e estado de emergência
Com a saída de Boluarte, o presidente do Congresso, José Jerí, assumiu interinamente o comando do país. Em seu discurso de posse, Jerí prometeu “declarar guerra ao crime” e liderar um governo de transição até as eleições gerais previstas para abril de 2026.
Na manhã desta sexta-feira (17), o novo presidente decretou estado de emergência em Lima, autorizando o uso das Forças Armadas para garantir a ordem pública. A medida inclui a possibilidade de toque de recolher noturno, suspensão de garantias constitucionais e restrições à liberdade de reunião.
Situação institucional
O Peru acumula sete presidentes em menos de dez anos, reflexo de uma crise institucional profunda. A relação entre Executivo e Legislativo é marcada por disputas constantes, e o Congresso tem índice de rejeição de 89%, segundo pesquisa Ipsos.
“O país vive uma crise de representatividade. A população não confia nas instituições, e isso abre espaço para soluções autoritárias”, afirma o cientista político Javier Torres, da Universidade Católica do Peru.
Consequências
A instabilidade política já provoca impactos econômicos. O mercado financeiro reagiu com cautela à queda de Boluarte, e o setor de turismo — vital para a economia peruana — registra queda de 18% nas reservas internacionais, segundo dados do Ministério do Comércio Exterior e Turismo.
Analistas alertam para o risco de agravamento da crise caso o governo interino não consiga estabilizar o país. A população exige reformas estruturais, combate à corrupção e maior transparência nas ações do Estado.





