A combinação entre o recorde de produção nacional de petróleo e o choque de preços da commodity no mercado internacional impulsionou as ações preferenciais da Petrobras (PETR4) — títulos que oferecem prioridade aos acionistas no recebimento de dividendos e compensações, mas que geralmente não dão direito a voto — a uma valorização de cerca de 20% em apenas um mês. O rali dos papéis reflete o acirramento das tensões envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, mas encontra lastro em fatores estruturais internos, como a retomada de investimentos exploratórios e a modernização do parque de refino.
O cenário atual é classificado por analistas do banco norte-americano Goldman Sachs como um “autêntico choque do petróleo”, o terceiro de grande magnitude nos últimos 50 anos, após os registros de 1973 e 1979. Diferente dos episódios anteriores, que apanharam o Brasil em uma dependência radical dos exportadores do Oriente Médio, o atual encontra o país autossuficiente em produção de petróleo bruto, do qual é exportador.
Segundo balanço da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a produção brasileira de petróleo e gás natural bateu recorde em fevereiro de 2026, alcançando 5,304 milhões de barris de óleo equivalente por dia (boe/d). Para os economistas István Kecskeméti e Zoltan Horváth, da consultoria húngara OTP Global Markets, o cenário favorece as contas públicas: “Considerando que todos os outros fatores permaneçam inalterados, os preços do petróleo em alta poderiam aumentar exportações e receitas tributárias [do Brasil], assim como dividendos fluindo para o Tesouro”.
Desafios no refino e a meta do diesel
Apesar da abundância de óleo bruto, o país ainda necessita importar derivados refinados, como diesel, gasolina e querosene de aviação (QAV). Diante disso, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou que a companhia projeta atingir a autossuficiência em diesel em cinco anos — originalmente, a intenção era suprir 80% da demanda no período.
“Muito provavelmente, porque a Petrobras adora desafios, quem sabe a gente chega com a possibilidade de ter um novo plano de negócios capaz de entregar a autossuficiência do Brasil em diesel”, disse a executiva. O anúncio coincide com registros de racionamento ou desabastecimento de diesel no Rio Grande do Sul e no Mato Grosso, regiões onde o insumo é determinante para a colheita da safra de verão, que inclui soja, milho e arroz.
Paralelamente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou indignação contra distorções em leilões de gás liquefeito de petróleo (GLP), o gás de cozinha, que registrou preços até 100% superiores à tabela da companhia nas distribuidoras. “Foi feito um leilão, eu diria que uma cretinice, bandidagem que fizeram”, afirmou Lula, que ameaçou anular o processo, embora tenha isentado a direção da estatal de responsabilidade direta.
Trajetória das ações e o peso do Brent
O valor de mercado da Petrobras tem sido historicamente moldado por variáveis externas e internas. O economista Mahatma Ramos, do Ineep, observa que a ação PETR4 valia R$ 23 em abril de 2021, durante a pandemia, saltando para R$ 32 em 2022 com a guerra na Ucrânia. Após estabilizar-se entre R$ 35 e R$ 42 no início de 2024, o papel sofreu correções em 2025 devido à desaceleração chinesa, mas retomou o fôlego neste ano. “Agora, em 2026, [o preço da ação] explode de novo, alcançando quase R$ 50 de valor de face”, pontua Ramos.
A correlação com o barril tipo Brent, parâmetro global do setor, é direta. Em 27 de fevereiro, véspera dos ataques ao Irã, a PETR4 fechou a R$ 39,33, enquanto o Brent estava em US$ 73,25. No dia 2 de março, com a reabertura dos mercados, as ações saltaram 4,58%, fechando a R$ 41,13. Em 1º de abril, os títulos atingiram R$ 47,29, acompanhando a escalada do petróleo, que chegou a tocar US$ 116,25 em março sob a ameaça de bloqueio do Estreito de Ormuz — rota por onde escoa um quinto da produção global.
Da Lava-Jato à Transição Energética
Maior empresa da América Latina, com valor estimado em mais de US$ 130 bilhões, a Petrobras consolidou seu perfil por meio das reservas do pré-sal, situadas a profundidades de 5 mil a 7 mil metros. No entanto, a trajetória recente da estatal foi marcada pelo impacto da Operação Lava-Jato, que investigou esquemas de corrupção e levou à condenação de ex-diretores, sendo fator decisivo para o impeachment de Dilma Rousseff em 2016.
Nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, a gestão adotou o Preço de Paridade de Importação (PPI) e a venda de ativos, política que gerou tensões como a greve dos caminhoneiros em 2018. O governo Lula elegeu-se com a promessa de revisar esse modelo. “Nós não vamos pagar o preço internacional, nós vamos pagar o preço do custo da gasolina aqui no Brasil”, declarou Lula, defendendo que a estatal induza o desenvolvimento nacional.
Para analistas como Cloviomar Cararine, do Dieese, o futuro da companhia depende da relação de forças entre a atual dependência global de fósseis e a pressão por energia limpa, especialmente vinda da China. O desafio da Petrobras será converter-se de uma petroleira tradicional em uma empresa de energia integrada, equilibrando lucros conjunturais com a sustentabilidade de longo prazo.




