Pam Bondi, procuradora-geral dos Estados Unidos, durante o depoimento. (Reprodução: TV)


A audiência no Comitê Judiciário da Câmara dos Estados Unidos, nesta quarta-feira (11) transformou-se em um palco de confronto político e institucional.

A procuradora-geral Pam Bondi, que compareceu para prestar esclarecimento, foi acusada por parlamentares democratas de orquestrar um encobrimento na divulgação dos arquivos relacionados a Jeffrey Epstein, o financista condenado por manter uma rede de exploração sexual de menores. O embate expôs não apenas as feridas abertas do caso, mas também a polarização que domina a política americana.

O caso Epstein: símbolo de poder e impunidade

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Jeffrey Epstein construiu sua fortuna e influência cercado de figuras poderosas da política, negócios e entretenimento. Preso em 2019, morreu pouco depois em uma prisão federal em Nova York, em circunstâncias que até hoje levantam suspeitas. Sua cúmplice mais conhecida, Ghislaine Maxwell, foi condenada em 2021 a 20 anos de prisão por ajudar a recrutar e abusar de meninas menores de idade.

A nova lei de transparência, aprovada após sua morte, exige que o Departamento de Justiça libere documentos relacionados ao caso. Mas a divulgação de milhões de páginas com extensas redações e atrasos alimentou críticas de que o governo estaria protegendo nomes influentes.

O depoimento de Bondi

Na audiência, Bondi foi confrontada por democratas que a acusaram de minimizar o acesso às informações e de proteger aliados políticos. Sobreviventes dos abusos estavam presentes na sala, reforçando a pressão emocional.

Transferência de Maxwell: questionada pela deputada Deborah Ross sobre a mudança da prisioneira para uma unidade de menor segurança, Bondi negou envolvimento e disse que só soube da decisão depois. Acrescentou que “esperançosamente” Maxwell “morrerá na prisão”.

Perdão presidencial: Ross perguntou se Donald Trump deveria perdoar Maxwell. Bondi evitou responder e desviou o foco para crimes ocorridos no distrito da deputada.

Contratação polêmica: o deputado Joe Neguse questionou a nomeação de Jared Wise, acusado de incitar violência contra policiais no ataque de 6 de janeiro de 2021. Bondi respondeu que Wise foi perdoado por Trump e não comentou sobre a dissolução de unidades anticorrupção e de fiscalização de criptomoedas.

Em várias ocasiões, Bondi chamou a audiência de “circo” e acusou os democratas de usar o caso para fins políticos.

Depoimento é um show de horrores

Antes da audiência, sobreviventes de Epstein e familiares criticaram duramente a condução do caso. “O Departamento de Justiça precisa fazer seu trabalho. Entregue o restante dos arquivos e comece as investigações”, disse Dani Bensky. Sky Roberts, irmão de Virginia Giuffre, foi ainda mais direto: “Nada menos que um fracasso. Faça seu trabalho, Pam.”

Confronto com democratas

Durante a sessão, a deputada democrata Pramila Jayapal pediu que sobreviventes presentes se levantassem e desafiou Bondi a pedir desculpas. A procuradora recusou e devolveu a provocação: “Vocês deveriam pedir desculpas ao presidente Trump pelos esforços de impeachment.”

Bondi acusou os democratas de “teatralidades” e afirmou que não “se meteria no esgoto com essas pessoas”. Em seguida, lançou ataques pessoais: chamou Jamie Raskin, democrata, de “advogado decadente” e disse que Hank Johnson, há duas décadas no Congresso, “não tem experiência”. Mary Gay Scanlon reagiu: “Obrigada pelo insulto.”

Críticas também de republicanos

O republicano Thomas Massie, que coautorou o pedido obrigando o Departamento de Justiça a liberar os registros de Epstein, acusou o departamento de liberar informações sensíveis de forma descuidada. Bondi retrucou: “Esse cara tem síndrome de perturbação de Trump. Você é um político fracassado.”

Defesa de Trump

Em vários momentos, Bondi exaltou o presidente. “O maior presidente da história americana”, disse, lendo o que pareciam ser pontos pré-escritos. Ela também acusou “juízes ativistas liberais” de participarem de uma “oposição judicial coordenada” contra a administração.

Clima de tensão

Jamie Raskin acusou Bondi de “transformar o Departamento de Justiça do povo no instrumento de vingança de Trump”. Segundo ele, “Trump ordena processos como pizza e você entrega toda vez que ele manda.”

Apesar das críticas, a Casa Branca divulgou nota afirmando que Bondi “está fazendo um excelente trabalho”, citando elogios do vice-presidente JD Vance, da chefe de gabinete Susie Wiles, do secretário de Estado Marco Rubio e da porta-voz Karoline Leavitt.

Momentos de trégua

Bondi e Eric Swalwell, democrata da Califórnia, tiveram um raro momento de colegialidade quando o deputado relatou ameaças contra sua família. “Nenhum de vocês deveria se sentir ameaçado, nunca. Nenhum dos seus filhos deve ser ameaçado. Nenhuma de suas famílias deve ser ameaçada”, disse Bondi.