
Em depoimento à Polícia Federal, o piloto Mauro Caputti Mattosinho, de 38 anos, revelou que o presidente nacional do União Brasil, Antônio Rueda, está entre os verdadeiros donos de quatro dos dez jatos executivos operados pela empresa Táxi Aéreo Piracicaba (TAP), envolvida em um esquema de lavagem de dinheiro que atende ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
A informação foi divulgada em reportagem conjunta do ICL Notícias e do UOL, assinada por Leandro Demori, Cesar Calejon, Flávio VM Costa, Alice Maciel e Thiago Herdy.
Mattosinho, que trabalhou na TAP entre 2023 e setembro de 2025, afirmou que transportou ao menos 30 vezes os líderes do esquema:
Mohamad Hussein Mourad, conhecido como “Primo”, e Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”, ambos atualmente foragidos da Justiça. O piloto contou que, após um voo ao Uruguai com familiares de Beto Louco, decidiu pedir demissão e prestar depoimento à PF no aeroporto Catarina, em São Roque (SP), há 17 dias.
Segundo ele, Rueda era citado por seu chefe e por funcionários da empresa como o líder de um grupo que “tinha muito dinheiro que precisava gastar”.
“Havia um clima de ‘boom’ de crescimento na empresa. E isso foi justificado como sendo um grupo muito forte, encabeçado pelo Rueda, que vinha com muito dinheiro que precisava gastar. Então, a aquisição de várias aeronaves foi financiada”, afirmou Mattosinho em entrevista gravada ao ICL Notícias.
As aeronaves envolvidas incluem modelos como Citation Excel (avaliado em cerca de US$ 6 milhões), Citation Jet CJ (US$ 4 milhões), jatos leves de US$ 3 milhões e até um Gulfstream da série 500, com valor superior a US$ 10 milhões. O piloto relatou que os aviões estavam registrados em nome de terceiros, como forma de ocultar a verdadeira propriedade, dificultando o rastreamento patrimonial.
A investigação da Polícia Federal aponta que o esquema de lavagem de dinheiro está ligado ao setor de combustíveis, com movimentações de R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, gerando um prejuízo fiscal de R$ 8,6 bilhões. Mattosinho também revelou que Rueda era conhecido internamente como “Ruedinha” e que costumava viajar nos jatos operados pela TAP, embora ele próprio não fosse o piloto desses voos.
O piloto decidiu revelar o esquema após enfrentar um diagnóstico de câncer com 87% de chance de morte. “Mudou a minha forma de ver a vida e as pessoas… Naquele momento estava claro pra mim que as coisas que eu fazia não eram as mais importantes”, disse ele. Em um momento de indignação, Mattosinho chegou a gravar vídeos mostrando os “presentes” que transportava, incluindo um que estava escondido no banheiro da aeronave.
Em nota oficial, Antônio Rueda negou qualquer vínculo com os aviões ou com o PCC. “Repudia com veemência qualquer tentativa de vincular seu nome a pessoas investigadas ou envolvidas com a prática de algum ilícito”, afirmou. O presidente do União Brasil declarou que “já voou em aeronaves particulares em voos fretados por ele ou como convidado”, mas que “nunca participou da compra das aeronaves” e que costuma realizar seus deslocamentos “em voos comerciais”.
A Polícia Federal ainda está em fase preliminar da apuração e, segundo fontes próximas à investigação, não há provas conclusivas até o momento, apenas indícios que seguem sendo analisados.
Piloto diz ter transportado sacola de papelão que teria dinheiro
O piloto Mauro Caputti Mattosinho disse ter transportado uma sacola de papelão que aparentava conter dinheiro vivo durante voo realizado em 6 de agosto de 2024. Na mesma data, o empresário Roberto Augusto Leme, conhecido como “Beto Louco”, teria mencionado aos demais passageiros que se encontraria com o senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional do partido.
Segundo Mattosinho, a sacola foi colocada no toalete do bimotor Israel G150, prefixo PR-SMG, que partiu de São Paulo com escala no Rio de Janeiro e destino final em Brasília. O piloto relatou que o alerta para o cuidado especial com o objeto foi feito por Epaminondas Chenu Madeira, dono da empresa Táxi Aéreo Piracicaba (TAP), onde Mattosinho trabalhava até duas semanas antes da entrevista.
Durante o desembarque, Mattosinho ouviu Leme perguntar se “o senador Ciro” já os aguardava, reforçando a suspeita de que o encontro seria com o parlamentar. O piloto gravou um vídeo da sacola, que foi confirmado pela reportagem do ICL Notícias como tendo sido feito na data do voo.
O ICL Notícias disse que o piloto procurou o portal pela primeira vez em novembro de 2023, mas só revelou sua identidade em setembro de 2024, após prestar depoimento à Polícia Federal em 30 de agosto. Ele afirma “estar indignado” com o conteúdo das conversas que presenciou durante os voos.
Ligações com o PCC e esquema bilionário
Mattosinho revelou ter realizado cerca de 30 viagens com Beto Louco e Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”, apontados pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e pela Polícia Federal como líderes de um esquema do Primeiro Comando da Capital (PCC). O grupo é acusado de lavar dinheiro do crime organizado por meio de fundos de investimento na Faria Lima e fraudes fiscais no setor de combustíveis.
Durante o voo em questão, os passageiros incluíam funcionários da Copape, empresa envolvida no esquema. A Copape e a Aster, distribuidora de combustíveis, buscavam reverter a revogação de licenças junto à ANP e ao Congresso Nacional, segundo o ICL Notícias.
Documentos públicos mostram que empresas ligadas ao grupo são cotistas do Capri Fundo de Investimento em Participações, representado por Rogério Garcia Peres, advogado foragido e alvo da operação “Carbono Oculto”. A gestora Altinvest, também investigada, aparece em registros da CVM sob o nome Ruby Capital, que teria sido citado por Epaminondas e um advogado da TAP como “intacto”, apesar de já ter sido identificado pelas autoridades.
Antes da publicação da primeira matéria, Ciro Nogueira negou qualquer proximidade com Beto Louco ou recebimento de valores. O senador colocou seus sigilos bancários, telemáticos e telefônicos à disposição da Justiça e ingressou com ação judicial contra o ICL Notícias por danos morais.
O Senado, por sua vez, informou que não há registros de entrada de Leme e Mourad no gabinete de Ciro Nogueira em 2024. No entanto, negou pedido feito via Lei de Acesso à Informação sobre possíveis acessos a outras áreas do Senado, alegando que os dados são de caráter pessoal.
EIS A NOTA OFICIAL DO UNIÃO BRASIL SOBRE AS DENÚNCIAS:






