Linha de produtos da marca Ypê, alvo da ANVISA. (Foto: Reprodução)


A Diretoria Colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária decidiu por unanimidade nesta sexta-feira (15) manter a suspensão da fabricação, comercialização, distribuição e uso de linhas de detergentes, sabões líquidos e desinfetantes da Ypê.

Nos votos, os diretores afirmaram que as medidas adotadas pela empresa foram “insuficientes”, citaram um “histórico recorrente de contaminação microbiológica” e defenderam que os riscos sanitários identificados pela fiscalização ainda não foram superados.

Apesar de manter a suspensão da fabricação, comercialização, distribuição e uso dos produtos, a diretoria retirou o efeito suspensivo especificamente sobre a medida de recolhimento imediato dos lotes.

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Segundo os diretores, a empresa deverá apresentar um plano de ação baseado em análise de risco, permitindo acompanhamento técnico e eventual liberação gradual de produtos lote a lote.

Com a decisão, volta a valer integralmente a Resolução 1.834/2026, publicada pela Anvisa no último dia 5, que determinou a suspensão e o recolhimento de todos os lotes de detergentes lava-louças, sabões líquidos para roupas e desinfetantes com numeração final 1.

O diretor-presidente da Anvisa, Leandro Safatle, afirmou que as “medidas implementadas pela empresa foram insuficientes” e mencionou um “histórico recorrente de contaminação microbiológica envolvendo os produtos da empresa”.

Já o diretor Thiago Campos afirmou que a análise atual tem natureza cautelar e defendeu que, em matéria sanitária, “aguardar certeza absoluta do dano significa agir tardiamente”.

A diretora Daniela Marreco classificou o risco sanitário como “alto” e afirmou que a repercussão do caso gerou uma “discussão polarizada” que “não reflete as motivações da agência”, que, segundo ela, são técnico-científicas e voltadas à proteção da saúde pública.

Último a votar, Daniel Pereira afirmou que, embora reconheça a relevância econômica da empresa, isso “não pode se sobrepor ao dever institucional da agência na proteção da saúde pública”. Ele também defendeu acompanhamento contínuo da Anvisa para possibilitar que a empresa retome “o quanto antes” suas atividades.

ENTENDA

A Diretoria Colegiada da Anvisa é a instância máxima de decisão da agência reguladora. Os diretores votam temas como registro de medicamentos, vacinas e normas sanitárias. As deliberações ocorrem em reuniões oficiais do órgão.

A decisão de suspensão dos produtos foi tomada a partir de uma avaliação técnica de risco sanitário conduzida pela Anvisa em articulação com o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária, após inspeção conjunta com o Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo e a Vigilância Sanitária de Amparo, no interior paulista, onde fica a unidade da Química Amparo.

Durante a inspeção, segundo a Anvisa, foram constatados descumprimentos relevantes em etapas críticas do processo produtivo, incluindo falhas nos sistemas de garantia da qualidade, produção e controle de qualidade.

A agência também informou que a bactéria Pseudomonas aeruginosa foi identificada em mais de 100 lotes de produtos acabados da marca.

Os problemas identificados comprometem o atendimento aos requisitos das chamadas Boas Práticas de Fabricação de saneantes e indicam risco à segurança sanitária dos produtos, com possibilidade de contaminação microbiológica — a presença indesejada de microrganismos que podem causar doenças.

Após a publicação da resolução, a empresa apresentou recurso administrativo com o pedido de efeito suspensivo, o que paralisou as obrigações impostas pela Anvisa até que a Diretoria Colegiada deliberasse sobre o caso.

Em nota divulgada no dia 8 de maio, a agência informou que mantinha a avaliação técnica de risco e orientou os consumidores a NÃO utilizarem os produtos atingidos pela medida.

Já a responsabilidade de orientar a população sobre troca, devolução ou ressarcimento, segundo a Anvisa, é da própria empresa, por meio do Serviço de Atendimento ao Consumidor, que vem apresentando problemas.

Entenda riscos

A determinação da Anvisa levantou uma série de dúvidas entre consumidores que usaram os produtos nos últimos meses.

As principais perguntas giram em torno do risco para a saúde, da necessidade de procurar um atendimento médico e do que fazer com utensílios domésticos que tiveram contato com os itens recolhidos, como a esponja da pia.

Mas para entender o tamanho do risco, é preciso conhecer primeiro a bactéria associada ao caso.

A Pseudomonas aeruginosa foi identificada pela própria fabricante em lotes de lava-roupas em novembro de 2025. Ela é um microrganismo comum no ambiente, encontrado em água, solo e superfícies úmidas.