da Redação
03 junho 2026
Em reunião ministerial nesta quarta-feira (3), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva endureceu o discurso contra a extrema direita brasileira, a família Bolsonaro — a quem acusou de “traidora da pátria” — e contra o senador norte-americano Marco Rubio, além de criticar duramente as novas tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil.
Lula afirmou que não aceitará “o tratamento de republiqueta insignificante” e que o país não será “vira-lata diante das grandes potências”.
“Estão tentando trair o Brasil, com interesses mesquinhos, com interesses rasteiros, de uma disputa eleitoral. E não há disputa eleitoral em qualquer país do mundo que possa dar valor a alguém que trai a pátria, alguém que é capaz de vender o seu país por interesses mesquinhos deles.”
“O imbecil não percebe que quem é prejudicado é o povo, não é o Lula. Pedir uma punição ao país na perspectiva de derrotar uma candidatura ou de levar vantagem é de uma grosseria, que eu não posso encontrar outro nome, a não ser dizer, em qualquer outro país do mundo, em qualquer outro momento histórico, isso seria chamado de traição da pátria.”
“Nós não somos melhores do que ninguém, mas também não somos piores. Nós queremos respeitar todo mundo, mas nós também queremos respeito. E é assim que a gente vai continuar tratando esse país.”
“Eu não fui eleito imperador da América Latina e, muito menos, o Trump foi eleito imperador do mundo.”
Leia, a seguir, a íntegra do pronunciamento do presidente Lula na reunião ministerial desta quarta-feira (3), em Brasília:
Temos cinco meses antes das eleições, nós temos sete meses antes de terminar o mandato, sete meses e um dia, porque agora vai até o dia 5 a posse do novo presidente, e nós temos até o dia 3 de julho para fazermos todas as entregas que nós temos que fazer, porque depois do dia 3 de julho não podemos mais fazer convênios com a Prefeitura, não podemos mais fazer convênios com o Governo do Estado, não podemos mais inaugurar obras. Eu posso visitar obras, mas não posso inaugurar. Então, tudo que nós tivermos que entregar, ninguém me apresente absolutamente nada novo, agora é entregar o que já foi pensado. Tem muita coisa que vocês já pensaram, muita coisa que eu até pensei que já estava funcionando, e algumas ainda não estão funcionando por problemas burocráticos normais, e é importante que a gente apronte tudo até o dia 3 de julho.
A segunda coisa que eu quero aqui, primeira recomendação funcional do Governo, a segunda coisa que eu quero dizer para vocês é o seguinte: é muito importante que vocês não inaugurem nada sem passar pela Casa Civil. Muitas vezes a gente fica sabendo de ministros que estão inaugurando coisas, ou coisas que são inauguradas sem a participação do ministro, e a gente não sabe quem é que está representando o Governo Federal nas entregas. E vocês sabem como é isso na política: se você não tiver de corpo presente, ninguém de fora vai dizer quem está fazendo o quê nesse país.
Ou seja, tanto o prefeito, quanto o governador, quanto qualquer outra pessoa que estiver falando, não terá nenhuma importância esclarecer quem é que fez, quanto custou, por que foi feito, a não ser o Governo Federal. Então é importante que vocês se deem conta de que tem que passar pela Casa Civil, porque nós precisamos estar informados do que está acontecendo nesse país. A segunda coisa muito importante é que, muitas vezes, os ministros, por conta própria, tentam fazer ações nos tribunais superiores sem consultar a Advocacia-Geral da União e a Casa Civil.
É importante que a gente não saiba nada pelos jornais, que a gente saiba as coisas pelo compromisso de ser um governo unitário, democrático, só isso, e progressista. E saber que nós estamos num momento de disputa de ideias nesse país. Portanto, é importante a gente levar isso em conta.
Perfeito, vamos seguir em etapas sequenciais para que você receba o discurso completo revisado. Aqui está a Parte 2 do texto corrigido:
A segunda coisa é dizer para vocês: vai ter explicações aqui, é do momento que nós estamos vivendo. Eu tenho certeza de que muitos daqui que convivem comigo há algum tempo sabem que nós estamos vivendo um paradoxo na política brasileira, talvez no mundo, porque poucas vezes na história o país conseguiu ter coisas tão positivas a seu favor como nós temos agora. E muitas vezes vocês ficam preocupados porque a sociedade não tem a percepção das coisas boas que o governo está informando, às vezes que ele informa.
Por exemplo, é um motivo de regozijo para todos nós saber que o Brasil atingiu a sua maior performance na questão do IDH. Não é que a gente tenha o melhor, mas hoje fazemos parte de um núcleo de países que são países de ponta em questão de qualidade de vida do povo. E é importante lembrar que isso se deve também ao avanço que nós tivemos na educação.
Bem, eu não vou falar das coisas que o Dario vai falar, porque, senão, na hora que a gente passar a palavra para o Dario, ele vai dizer que o presidente já falou tudo. Eu vou deixar as questões econômicas para o Dario falar. Mas o que é importante vocês saberem é que nós estamos num momento decisivo para que a sociedade brasileira, e eu diria até uma parte da sociedade mundial, reconheça o fortalecimento da democracia no nosso país, a nossa luta para o fortalecimento do multilateralismo, a nossa luta para que esse país não seja tratado em nenhum momento como se fosse uma republiqueta insignificante.
Nós somos muito grandes, nós temos muita história e nós não podemos aceitar o tratamento que os Estados Unidos deu ao Brasil esta semana. Não é possível. Ninguém pode dizer que o Brasil se negou a negociar com os Estados Unidos.
Desde o primeiro Twitter do presidente Trump, desde o primeiro Twitter, que é um comunicado avesso àquilo que a democracia e a civilidade exigem, é que um presidente telefone para o outro ou um presidente mande uma carta oficial para o outro. Eu fiquei sabendo da taxação primeiro pelo Twitter, e uma taxação substanciada com base em verdades, porque o déficit deficitário que os Estados Unidos dizem que têm com o Brasil, é o Brasil que tem contra eles.
Portanto, se alguém tivesse que fazer uma taxação, seria o Brasil contra os Estados Unidos e não os Estados Unidos contra o Brasil.
O que é que nós fizemos? Nós não fizemos bravata, nós não fizemos discurso, nós resolvemos construir uma narrativa para tentar mostrar, não só aos Estados Unidos, mas mostrar a outros países e ao povo americano, porque teve alguns artigos no Washington Post, teve alguns artigos meus no New York Times, para tentar conversar com o povo americano, mostrando a insensatez da punição ao Brasil.
Eu já tinha dito e vou dizer para vocês: ao presidente Trump, esse Marco Rubio não gosta da América Latina e muito menos do Brasil.
Ele é um latino-americano frustrado, não sei se ele nasceu em Cuba, me parece que ele nem nasceu em Cuba, parece que ele é filho de pessoas que nasceram em Cuba.
Então, o comportamento dele com relação à América Latina, inclusive eu espero que o nosso Senado, o Jacques Wagner, responda. Ele falou ontem no Senado que está muito feliz, porque eles estão conseguindo fazer a América Latina, com exceção do Brasil, com exceção da Nicarágua, com exceção de Cuba e com exceção da Colômbia, ficar muito, mas muito próxima dos Estados Unidos. Ele não sabe que nós já sabemos que antes dessa jogada deles, esse país foi vítima de golpe em 1974 e naquele tempo articulado por embaixadores americanos no Brasil.
Nós sabemos disso. Então, é importante que eles saibam que nós conhecemos a história, é importante que eles saibam que nós não queremos guerra, é importante que eles saibam que nós queremos construir a narrativa verdadeira de uma relação que já dura 201 anos, que, portanto, é uma relação nova e que nós queremos fortalecer a nossa relação institucional com os Estados Unidos. Na última reunião que eu estive lá com o ministro da Justiça, com o ministro do Desenvolvimento, com o ministro da Economia, com o ministro da Agricultura, com o ministro da Indústria e do Comércio, tivemos uma conversa com o Trump de três horas, na qual eu entreguei o documento dos assuntos que o Brasil quer discutir.
Na hora comercial, houve uma divergência entre o meu ministro da Indústria e do Comércio e o meu ministro das Relações Exteriores com o ministro do Comércio deles, e eu propus ao Trump: já que não tem acordo entre os dois ministros, vamos dar 30 dias para que os dois se entendam. Se o Brasil tiver errado, eu sei voltar atrás, mas se você tiver errado, você volta atrás. Essa reunião ainda não concluiu nada, por isso está a nossa surpresa com a decisão de mais um comunicado, de mais uma taxação com relação ao Brasil.
Depois eu entreguei quatro documentos ao presidente Trump, dizendo os assuntos que nós gostaríamos de discutir com ele, Alckmin. Quatro assuntos. Desde o combate ao narcotráfico, o crime organizado, foi entregue um documento.
Desde a questão comercial, foi entregue um documento. O acordo que nós tínhamos feito com o Irã em 2010, Brasil e Turquia, com relação ao enriquecimento de urânio, que é melhor do que o que eles fizeram, entreguei para o Trump também. Está aqui o documento.
E entreguei também o nosso relatório sobre as questões de terras raras e minerais críticos. Tudo isso foi entregue a pretexto de eu dizer para ele: eu vou lhe entregar o documento, porque muitas vezes a gente faz uma conversa, a gente esquece e muitas vezes os seus assessores tomam o documento da sua mão. Então eu vou entregar pessoalmente para você os quatro documentos, leve para casa e leia.
Ao deitar, leia esse documento, que é muito importante para a relação com o Brasil. Eu saí de lá convencido de que a gente estava estabelecendo uma nova lógica no relacionamento democrático e civilizado entre Brasil e Estados Unidos. E confesso a vocês que fui pego de surpresa ontem, com a decisão deles ontem.
E mais ainda, o que é triste é que tem brasileiros, que eu não vou citar o nome aqui, brasileiros fomentando essa briga na perspectiva de que se ele taxar a gente, ele vai prejudicar uma candidatura a presidente da República, sabe? Que o imbecil desse não percebe que quem é prejudicado é o povo, não é o Lula. Ou seja, pedir uma punição ao país na perspectiva de derrotar uma candidatura ou de levar vantagem é de uma grosseria, que eu não posso encontrar outro nome, a não ser dizer: em qualquer outro país do mundo, em qualquer outro momento histórico, isso seria chamado de traição da pátria. Isso seria chamado de traição da pátria.
É o que eles fizeram. O que não tem explicação, não tem na sociologia explicação para um comportamento de um grupo de responsáveis como esses. E nós estamos muito tranquilos.
Todo mundo sabe que eu falo sempre: eu não quero guerra com os Estados Unidos, eu não quero guerra com a Bolívia, eu não quero guerra com o Uruguai, eu não quero guerra nem nas Ilhas Seychelles.
O que eu quero é provar que somente é possível a gente viver em paz se a gente fortalecer a democracia, se a gente fortalecer o multilateralismo e se a gente tratar com responsabilidade a relação entre chefes de Estado. Eu vou repetir uma coisa aqui que eu disse na primeira vez que eu recebi o tuíto do presidente Trump.
O Trump foi eleito pelo povo americano e eu respeito o resultado eleitoral americano. Eu fui eleito pelo povo brasileiro, ele tem que respeitar o voto do povo brasileiro. Eu não fui eleito imperador da América Latina e, muito menos, o Trump foi eleito imperador do mundo.
O que eu espero e estou implorando já há algum tempo é que os cinco membros do Conselho de Segurança da ONU, que são Inglaterra, França, Rússia, China e os Estados Unidos, que foi criado o
Conselho de Segurança, os membros permanentes, para manter a paz do planeta Terra, que eles tenham a capacidade de se reunir e discutir qual é o papel deles, se é para manter a paz ou para fomentar a guerra, até porque as guerras que estão acontecendo são decisões unilaterais. Ninguém pediu a ninguém para fazer guerra, os países decidem e fazem. E nós queremos paz, nós queremos progresso, nós queremos desenvolvimento, nós queremos melhorar a qualidade de vida do povo brasileiro e isso nós vamos fazer até o fim.
Eu ainda vou mandar outra carta ao presidente Trump, vou mandar outra carta, vou escrever quantos artigos for necessário escrever na imprensa americana e na imprensa mundial, para mostrar que eles estão errados, que eles estão equivocados e que eles estão induzindo o mundo a uma violência desnecessária. E todos eles sabem que se a gente tiver um conflito mais sério, que for necessário utilizar armas nucleares, a gente não está ganhando de um país, a gente está destruindo o planeta Terra. E isso o Brasil se colocará sempre contra, porque para nós ou é a paz ou não é nada.
E nós queremos paz. E depois, a questão comercial, é importante lembrar os nossos comerciantes aqui, é importante lembrar os companheiros que fazem comercialização. Se os Estados Unidos querem problema, eles têm o direito de não querer.
Agora, nós não vamos ficar chorando, nós vamos procurar outros parceiros. Se eles não querem comprar, a gente vai vender para quem quiser comprar, a gente não vai ficar reclamando. Se não quiserem investir aqui, nós vamos procurar outro.
O que tem que saber, o que tem que saber é que o Brasil é dono do seu nariz. Isso aqui é um país democrático e soberano. E por conta dessa soberania, nós faremos tudo o que for necessário.
Não cederemos. Quem quiser explorar terras raras daqui, vai ter que falar com o governo brasileiro. Quem quiser explorar minerais críticos, vai ter que conversar com o governo brasileiro.
Acabou, acabou, sabe, aquela história de levar todo o nosso ouro para fora para pagar a dívida de Portugal com a Inglaterra, sabe, depois levar todo o minério de ferro como continuam levando e a gente ganha menos do que deveria ganhar com isso. Nós resolvemos decidir que esse país não adotará mais a política do vira-lata diante das grandes potências. Nós não somos melhores do que ninguém, mas também não somos piores.
Nós queremos respeitar todo mundo, mas nós também queremos respeito. E é assim que a gente vai continuar tratando esse país. E aí, vocês, ministros, não podem deixar de dizer isso, de dizer isso, alto e bom som.
Estão tentando trair o Brasil, com interesses mesquinhos, com interesses rasteiros, de uma disputa eleitoral. E não há disputa eleitoral em qualquer país do mundo que possa dar valor a alguém que trai a pátria, alguém que é capaz de vender o seu país por interesses mesquinhos deles. Então, nessa reunião aqui, é uma arrumação de discurso para todo mundo.
Ninguém tem que ter medo de nada, porque a gente não vai baixar a cabeça. A gente vai continuar fazendo aquilo que nós sabemos fazer, vamos continuar conversando com todo mundo, e a gente… Eu nem ia no G7, agora eu vou. Nem ia e ia vir, mas agora eu vou no G7, porque é preciso alguém tentar colocar ordem na casa e dar um paradeiro nessa coisa que está acontecendo de desmonte do multilateralismo, desmonte da democracia e desvalorização das instituições.
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