da Redação
03 junho 2026
A parcela de brasileiros que avalia que o país caminha na direção certa registrou melhora relevante no último mês, saltando sete pontos percentuais e atingindo 39%. O avanço foi acompanhado por uma percepção mais positiva sobre a economia nacional, que oscilou quatro pontos para cima, fixando-se em 35%.
Os dados constam da nova onda da pesquisa mensal What Worries the World, divulgada hoje pela Ipsos, cuja coleta foi realizada entre 24 de abril e 8 de maio de 2026.
Apesar do alento nos indicadores de rumo e de economia, o humor da população ainda se desenha sob um pano de fundo de insatisfação estrutural. As principais preocupações dos brasileiros permaneceram praticamente inalteradas e consolidadas na liderança da agenda pública.
O tema crime e violência continua no topo do diagnóstico nacional, afetando 48% dos entrevistados — uma oscilação de um ponto percentual em relação a abril e um crescimento de sete pontos na comparação com o mesmo período do ano passado.
Na sequência das inquietações domésticas, figuram a corrupção, mencionada por 36% (retração de dois pontos no mês), empatada com a pobreza e a desigualdade social, que também registraram 36% e mantiveram-se estáveis.
O setor da saúde permaneceu imóvel na percepção popular, retendo os mesmos 35% do mês anterior. Já a preocupação com os impostos subiu três pontos percentuais, passando a ser citada por 29% dos respondentes. O cenário indica forte continuidade de mazelas estruturais já sedimentadas no país, sem novos fatores capazes de subverter de forma abrupta a ordem de prioridades coletivas.
Análise do cenário
Para Diego Pagura, CEO da Ipsos no Brasil, os movimentos sugerem um ambiente um pouco menos pressionado em maio, embora distante de um otimismo consolidado. “O movimento sugere um humor um pouco menos negativo em relação ao país, mesmo em um contexto em que as principais preocupações da população permanecem elevadas”, avalia o executivo.
Inércia e inflação no panorama internacional
Diferentemente do ensaio de melhora verificado no Brasil, o ambiente internacional segue imerso em pessimismo homogêneo. A percepção global de que as nações se encontram na direção certa permaneceu estagnada em 39%, refletindo a permanência de um quadro predominantemente negativo do ponto de vista geopolítico e econômico.
No agregado global, a inflação se mantém como o principal fantasma contemporâneo, apontada por 32% dos entrevistados como a maior fonte de apreensão. O encargo do custo de vida supera por margem estreita outros problemas crônicos mundiais: crime e violência (31%), desemprego (29%) e pobreza e desigualdade social (28%). Trata-se de uma combinação continuada de restrições financeiras e desgaste do tecido social.
Crise dupla nos Estados Unidos e erosão na Argentina
A deterioração das expectativas econômicas e institucionais ficou nítida em duas das principais economias das Américas. Nos Estados Unidos, o período foi marcado pelo avanço simultâneo de temores associados ao bolso e à integridade do Estado. A inflação se isolou como a principal aflição americana ao saltar para 43% (alta de cinco pontos). Paralelamente, denúncias e debates sobre corrupção financeira e política ganharam tração, escalando seis pontos e fixando-se em 37% — avanço de dez pontos na comparação anual.
O recrudescimento destes índices coincide com a aceleração do debate eleitoral em solo americano, permeado por questionamentos sobre financiamento de campanhas, ação de lobbies e peso das tarifas comerciais na manutenção do custo de vida. A segurança externa também cobra sua fatia: a menção a conflitos militares entre nações permaneceu alta, em 25%, patamar que supera em 15 pontos o registrado um ano antes. Como reflexo imediato do mal-estar multifacetado, o indicador de otimismo desabou nos EUA: somente 30% creem que o país está no rumo certo, uma contração mensal de cinco pontos.
Na Argentina, o centro da crise continua fixado nas engrenagens do mercado de trabalho. O desemprego lidera de forma absoluta o ranking de temores nacionais com 57%, índice que, embora estável no mês, carrega crescimento expressivo de 11 pontos em comparação com maio de 2025. A vulnerabilidade social é corroborada pelo incremento de três pontos no indicador de pobreza e desigualdade, que chegou a 44%, seguido de perto pela inflação, que registrou 38% (dois pontos acima do mês anterior).
Em contrapartida, as queixas de segurança pública deram uma trégua parcial: as citações de crime e violência recuaram um ponto no mês e consolidaram redução de oito pontos na base anual. Essa dinâmica sinaliza deslocamento da atenção pública, que migra das ameaças físicas urbanas para urgências materiais de sobrevivência econômica e diária. Diante do sufoco fiscal, a confiança no rumo da Argentina sofreu desgaste, recuando quatro pontos no mês (e 14 pontos na comparação anual), com apenas 42% da população enxergando uma direção correta para o país.
Metodologia
A edição de maio do levantamento Ipsos What Worries the World foi realizada entre 24 de abril e 8 de maio de 2026, com base em entrevistas mensais com cidadãos de múltiplos países, mapeando oscilações de percepção pública e macroeconômica global.
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