Filipe Colaço


Filipe Colaço*

Participei num par de projectos de consultoria no setor dos cabos submarinos, tanto a nível estratégico como operacional, pelo que observo com interesse particular o anúncio do Projecto Waterworth pela Meta. Este empreendimento, com um investimento estimado em US$ 2 bilhões, visa instalar um cabo submarino de 50.000 km que conectará os EUA, Índia, Brasil, África do Sul e outras regiões, tornando-se o mais longo do mundo.

Historicamente, a infraestrutura de cabos submarinos era dominada por consórcios de operadoras de telecomunicações. Nos últimos anos, gigantes da tecnologia como Meta, Google, Amazon e Microsoft assumiram papéis centrais na construção e propriedade desses cabos, redefinindo o controle sobre o tráfego de dados global. Estima-se que mais de 99% das telecomunicações mundiais dependam desses cabos, evidenciando sua importância estratégica.

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A participação direta dessas empresas na construção de cabos submarinos traz benefícios relevantes:

  • Aumento da Capacidade e Redução de Custos: A expansão da infraestrutura resulta em maior largura de banda disponível, o que pode reduzir os custos de transmissão de dados. Por exemplo, investimentos em cabos submarinos na América Latina contribuíram para uma conectividade melhor e mais acessível na região.
  • Melhoria na Latência e Qualidade de Conexão: Novos cabos permitem rotas de dados mais diretas, diminuindo a latência e melhorando a experiência do usuário. Isso é crucial para aplicações em tempo real, como videoconferências e serviços de streaming.
  • Impulso ao Desenvolvimento Econômico: A melhoria na infraestrutura de internet está correlacionada com o crescimento econômico. Estudos indicam que investimentos em cabos submarinos podem levar a aumentos significativos no PIB e na criação de empregos. Na América Latina, tais investimentos resultaram em um aumento acumulado no PIB de US$ 178 bilhões entre 2017 e 2027, além de apoiar a criação de aproximadamente 740.000 empregos até 2027.

Para as nações ao longo da rota do Projecto Waterworth, os impactos esperados são profundos, como por exemplo para alguns dos BRICS:

  • Brasil: como um dos pontos de aterrissagem, o Brasil verá melhorias na infraestrutura de internet, potencializando setores como comércio eletrônico, educação online e serviços de saúde digital. A conectividade aprimorada pode atrair investimentos estrangeiros e fomentar a inovação tecnológica no país.
  • Índia: a conexão direta com os EUA e outras regiões fortalecerá o papel da Índia como hub tecnológico global, facilitando operações de empresas de TI e serviços terceirizados, além de melhorar o acesso a serviços digitais para a população.
  • África do Sul: a inclusão no projeto pode reduzir a dependência de rotas de dados tradicionais, melhorando a resiliência da rede e promovendo o crescimento de startups e empresas de tecnologia locais.

Além dos benefícios econômicos, a expansão da infraestrutura de cabos submarinos por empresas de tecnologia levanta questões geopolíticas e de segurança – no fundo, uma outra faceta do que já se verifica a nível de aplicativos digitais, como o braço de ferro recentre entre Elon Musk e o Supremo Tribunal sobre a influência do X – algo que se poderá vir a verificar também na Europa, nomeadamente com a Alemanha. A centralização do controle das “rodovias digitais” em poucas corporações pode influenciar políticas de privacidade, regulamentações de dados e até mesmo a soberania digital das nações conectadas.

Em resumo, o Projecto Waterworth representa um avanço significativo na conectividade global, com potencial para transformar economias e sociedades nas regiões que abrange. No entanto, é crucial que governos e stakeholders considerem os desafios associados, garantindo que os benefícios sejam amplamente distribuídos e que a soberania digital seja preservada.

*Filipe Colaço é Engenheiro Civil pela Universidade Nova de Lisboa, MBA pela Henley Business School, e Director da Consulting Services EY Angola. Tem 18 anos de experiência em companias multinacionais, como a Deloitte e Boston Consulting Group, com projetos em Energia, Agronegócios, Mineração, Construção e Sector Público