Andréa Sommer*
Nas últimas semanas, quase diariamente a imprensa tem noticiado diferentes formas de violência: homens que matam esposas ou ex-companheiras, mulheres mantidas em cárcere privado, jovens que maltratam animais até a morte, denúncias de tortura praticadas por policiais. Os episódios que se acumulam revelam um cenário que exige mais do que respostas punitivas. Exige reflexão.
O que chama muito a atenção é que, em alguns desses casos, ao acessar o perfil dos autores das violências nas redes sociais, elementos recorrentes aparecem: discursos morais rígidos, defesa dos “valores tradicionais” e afirmações públicas de fé. E é justamente nessa recorrência que se encontra e se percebe a maior contradição do nosso tempo.
Não se trata de atacar religiões ou desqualificar a fé. Pelo contrário. Trata-se de questionar o abismo entre aquilo que se proclama como valor moral e aquilo que se pratica no cotidiano. A violência não nasce da fé, mas da distorção do seu sentido.
A tradição cristã não é uma doutrina da violência ou dominação. É, essencialmente, uma ética do cuidado, da justiça e da responsabilidade com o outro. Portanto, justiça, misericórdia e humildade são valores incompatíveis com agressões, torturas, cárcere e matanças. Não há interpretação honesta desse princípio que legitime a violência como expressão de fé.
Ainda assim, lamentavelmente, o discurso religioso tem sido, em alguns casos, instrumentalizado como escudo moral. Em defesa da família, violências domésticas são relativizadas; pela “autoridade” masculina, mulheres são controladas; em nome da ordem, abusos de poder são normalizados. O que se vê não é zelo moral, mas seletividade ética.

O próprio Jesus foi claro ao afirmar que a fé não se reconhece por discursos, símbolos ou pertencimento institucional, mas pelos efeitos concretos que produz na vida das pessoas: “Assim, pelos seus frutos os conhecereis.” (Mateus 7:20). Se os frutos são medo, dor e destruição, algo está profundamente errado. Não com a fé, mas com a forma como ela está sendo apropriada para justificar comportamentos violentos.
Outro trecho bíblico, menos lembrado nos debates públicos, parece ainda mais contundente: “Se alguém diz: ‘Eu amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é mentiroso.” (1 João 4:20). Essa afirmação desmonta qualquer tentativa de separar fé e ética, espiritualidade e responsabilidade humana. Não é possível amar a Deus e, ao mesmo tempo, desumanizar o outro quando homens matam mulheres, quando a força é usada para controle. Não estamos diante do excesso da fé, mas da ausência prática dela. Trata-se de uma masculinidade violenta travestida de moral, de um autoritarismo disfarçado de tradição, de uma religiosidade que perdeu o compromisso ético.
Viver em paz não é passividade; é uma escolha que exige limites, empatia e responsabilidade, e que exige reconhecer o outro com dignidade, não como uma propriedade, ameaça ou objeto de correção. O entendimento do divino que parece coerente com a própria tradição cristã não é aquele que legitima a agressão, mas sim aquele com a capacidade de conter a violência e interromper ciclos de brutalidade.
Talvez a grande falha da nossa humanidade não seja a perda de valores, como tanto repetem por aí, mas a hipocrisia com que muitos dizem defendê-los. Valores não se medem pelo discurso, mas pela forma como se trata o outro, especialmente quando esse outro está em situação de fragilidade.
Enquanto Deus for usado como justificativa para a violência, continuaremos falhando como sociedade. Enquanto formos mais rápidos em condenar comportamentos do que em revisar nossas próprias práticas, a brutalidade seguirá sendo normalizada. Se a fé não nos torna mais humanos, mais responsáveis e mais comprometidos com a vida, talvez não seja a fé que esteja em crise, mas a honestidade com que a proclamamos.
*Andréa Sommer é jornalista/cientista política.





