O delegado Marcelo Ivo de Carvalho, da Polícia Federal. (Reprodução: TV)


O delegado da Polícia Federal, Marcelo Ivo de Carvalho, desembarcou no Brasil em 21 de abril de 2026, encerrando de forma abrupta uma das missões internacionais mais cobiçadas da corporação. Após quase três anos atuando em Miami como elo direto entre a PF e autoridades americanas, ele passou a ser alvo de acusações que envolvem suposta perseguição política a brasileiros nos Estados Unidos, possível manipulação de sistemas migratórios e controvérsias pessoais e judiciais do passado.

Carreira e posto estratégico em Miami

Com mais de 20 anos de carreira, Carvalho ingressou na PF em 2003 e alcançou a Classe Especial, o topo da hierarquia dos delegados federais. Já chefiou a delegacia do Aeroporto Internacional de Guarulhos, foi delegado regional de combate ao crime organizado em São Paulo (2018–2021) e superintendente da PF na Paraíba (2022–2023).

Em agosto de 2023, assumiu função estratégica em Miami, atuando dentro das dependências do Immigration and Customs Enforcement (ICE). Sua missão oficial era facilitar extradições de foragidos da Justiça brasileira.

Continua depois da publicidade

O caso Ramagem e a reação americana

O estopim para sua saída foi a prisão do ex-deputado Alexandre Ramagem em Orlando, em 13 de abril de 2026. O governo dos EUA, por meio do Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental, acusou o delegado de tentar “manipular o sistema de imigração” e contornar pedidos formais de extradição, classificando a conduta como tentativa de promover perseguições políticas em território americano.

A suspeita é de que Carvalho teria tentado viabilizar a deportação administrativa de Ramagem, evitando os trâmites diplomáticos tradicionais da extradição formal. Após o episódio, ele recebeu ordem para deixar o país. Especialistas em Direito Internacional avaliam que ele pode, inclusive, ser impedido de retornar aos EUA.

Suspeitas envolvendo dados migratórios

Autoridades americanas também investigam possível ligação do delegado com o caso de Filipe Martins. O órgão migratório americano Customs and Border Protection (CBP) informou que Martins não entrou nos EUA em dezembro de 2022, apesar de seus dados constarem no sistema. A inclusão teria ocorrido sem a viagem ter sido realizada.

Vida em Miami e questionamentos sobre padrão financeiro

Apesar de ocupar cargo público, Carvalho mantinha residência no edifício de luxo SLS Lux Brickell, em Miami. Avaliações imobiliárias estimam o valor do imóvel em cerca de US$ 1,28 milhão. O aluguel mensal de unidades similares chega a US$ 9.500.

Pela legislação brasileira, um delegado Classe Especial da PF recebe entre R$ 36 mil e R$ 41 mil mensais. Não há registros públicos de outras fontes de renda em seu nome ou de familiares diretos.

Relatos de testemunhas apontam que o delegado promovia festas no local e, segundo essas pessoas, usaria encontros sociais para obter informações sobre investigados.

Representação no TCU e atuação do Senado

O senador Rogério Marinho acionou o Tribunal de Contas da União (TCU) para investigar possível irregularidade no pagamento de auxílio-moradia a Carvalho nos EUA, estimado em cerca de R$ 48 mil mensais.

O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, afirmou que não houve expulsão formal e que o retorno do delegado ocorreu por determinação administrativa. A Comissão de Segurança Pública do Senado aprovou convites para que ambos prestem esclarecimentos.

Antecedentes judiciais

Em 2016, Carvalho se envolveu em acidente fatal na Rodovia Raposo Tavares, em Sorocaba, enquanto dirigia uma Mercedes-Benz apreendida pela PF. Ele estava sob efeito de álcool e com CNH vencida. Foi denunciado por homicídio culposo e absolvido em 2020 após acordo de indenização com a família da vítima.

Caso envolvendo familiar

A irmã do delegado, Gisele Cristina de Carvalho, respondeu a processo relacionado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Em 2023, a Justiça absolveu os réus por insuficiência de provas formais decorrentes de falhas técnicas na validação das interceptações telefônicas.