A médica dermatologista e membro da SBCD, Vanessa Mussupapo, durante entrevista ao BC TV


Por Adriana Blak (RJ)

O uso de maquiagem e cosméticos entre crianças e adolescentes vem crescendo, impulsionado pela estética das embalagens e pela influência das redes sociais. Mas, segundo a médica dermatologista Vanessa Mussupapo, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica, essa prática exige cautela.

Em entrevista ao programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, a dermatologista destacou que a pele infantil não está totalmente madura e apresenta maior permeabilidade, o que aumenta o risco de reações adversas.

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“A barreira cutânea da criança é mais fina e permeável, o que facilita a absorção de substâncias e aumenta o risco de reações”, explicou.

Na prática, isso significa que ingredientes comuns em produtos de skincare adulto — como ácidos, antioxidantes, retinol e vitamina C — podem provocar irritações, alergias e até quadros de dermatite de contato.

Em casos mais graves, a coceira intensa pode evoluir para infecções secundárias e exigir tratamento com antialérgicos, corticoides e antibióticos.

A dermatologista relatou um caso atendido em consultório: uma paciente de apenas oito anos já apresentava sinais iniciais de dermatite após utilizar uma rotina completa de cosméticos com ativos anti-idade, como retinol e ácido glicólico.

A conduta médica foi suspender os produtos inadequados e simplificar os cuidados, mantendo apenas sabonete suave, hidratante e protetor solar.

Vanessa Mussupapo reforça que, na infância, a prioridade deve ser a proteção da pele, evitando o uso desnecessário de cosméticos mais agressivos e sempre com orientação profissional.

Ela alerta ainda para o impacto das redes sociais na decisão de compra, já que muitas crianças acabam influenciadas por conteúdos digitais e pela estética dos produtos. Desde setembro de 2025, a Anvisa passou a exigir que empresas de cosméticos notifiquem efeitos adversos, medida que reforça a importância do monitoramento e da escolha consciente.

A especialista recomenda que os pais fiquem atentos e busquem avaliação médica diante de qualquer reação ou dúvida.

A Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica orienta que seja verificado se o profissional possui Registro de Qualificação de Especialista (RQE) no site do Conselho Federal de Medicina, garantindo atendimento seguro e habilitado.

A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:

Adriana Blak – Efetivamente, doutora Vanessa, a partir de que idade pode-se usar maquiagem?

Vanessa Mussupapo – A partir da adolescência, por volta dos 12 ou 13 anos. Existem maquiagens infantis que podem ser usadas pelas crianças, formuladas com menos conservantes alergênicos e substâncias mais adequadas para essa faixa etária.

No geral, o ideal é começar a usar maquiagem e cosméticos a partir dos 12 ou 13 anos. Antes disso, o recomendado é evitar produtos como esfoliantes, ácidos e outros cosméticos mais agressivos.

Na adolescência, devido às mudanças hormonais, a pele tende a ficar mais oleosa e acneica, o que pode justificar o uso de alguns produtos específicos. Já o hidratante é considerado um produto mais versátil e seguro, podendo ser usado em qualquer idade.

Adriana Blak – Doutora Vanessa, quais são os principais riscos do uso precoce de cosméticos em crianças?

Vanessa Mussupapo – A pele da criança ainda não é madura. Ela é mais fina, delicada e sensível do que a pele adulta. Por isso, o uso precoce de cosméticos, principalmente produtos com ácidos e vitamina C, pode aumentar o risco de alergias, irritações, dermatite de contato e piorar quadros de dermatite atópica.

Além disso, essas irritações podem favorecer infecções secundárias e outros problemas de pele. A pele infantil é naturalmente mais sensível e menos resistente, por isso exige mais cuidado com os produtos utilizados.

Adriana Blak – O que significa dizer que a pele da criança tem maior permeabilidade?

Vanessa Mussupapo – A pele da criança ainda possui uma barreira cutânea imatura e menos desenvolvida. Por isso, ela apresenta maior permeabilidade, ou seja, absorve com mais facilidade os ativos presentes nos cosméticos.

Enquanto a pele do adolescente já é mais estruturada e resistente, a pele infantil é mais fina e sensível. Assim, produtos como ácidos podem penetrar mais profundamente e causar irritações, alergias e outros problemas de pele. Isso acontece porque a barreira cutânea da criança ainda não está completamente formada.

Adriana Blak – Quais são os tipos de reações que podem ser desencadeadas pelo uso inadequado de cosméticos, maquiagens e medicamentos? Quais são as piores reações?

Vanessa Mussupapo – A pior reação costuma ser a dermatite de contato, uma alergia intensa que pode deixar a pele vermelha, irritada, descamando e com muita coceira. Quando a criança coça a região, pode levar bactérias para a pele e provocar infecções.

Em alguns casos, o tratamento pode exigir corticoides orais, antialérgicos e até antibióticos, dependendo da gravidade. Além disso, reações alérgicas mais intensas podem deixar cicatrizes, especialmente porque a criança tende a coçar bastante a área afetada. Como a pele infantil é mais sensível, os danos podem ser maiores e mais difíceis de controlar.

Adriana Blak – Doutora Vanessa, no seu consultório, teve algum caso que te chamou mais atenção e que você ficou muito impressionada?

Vanessa Mussupapo – Não foi nem um caso de alergia, mas foi algo que me chamou muito a atenção. A mãe de uma criança comprou uma linha de produtos toda colorida, cheirosinha, com vários frasquinhos fofos, e adquiriu a linha completa.

Quando eu olhei os rótulos, havia substâncias como retinol, ácido glicólico, vitamina C e vitamina E, e a criança estava usando tudo isso. Ela já apresentava sinais iniciais de dermatite leve, principalmente na região dos olhos, cantos do nariz e da boca.

A mãe foi influenciada pela estética dos produtos e por conteúdo de redes sociais e trouxe a criança para avaliar qual seria a rotina adequada para uma menina de oito anos. Naquele caso, a orientação foi suspender os produtos inadequados e manter apenas o básico: hidratante, protetor solar e sabonete.

📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:

Conheça a dra. Vanessa Mussupapo

A médica dermatologista Vanessa Mussupapo atua há mais de 20 anos na área, com especialização em Cirurgia Micrográfica de Mohs, técnica reconhecida internacionalmente no tratamento de câncer de pele.

Graduada em Medicina pela Universidade de Mogi das Cruzes, concluiu residência em clínica médica e especialização em dermatologia, além de formação complementar em cirurgia dermatológica e dermatoscopia.

É membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD) e do Grupo Brasileiro de Melanoma (GBM).

Sua prática clínica se divide entre dermatologia geral, estética e oncológica. Em cirurgia, concentra-se em tumores cutâneos, especialmente carcinoma basocelular e espinocelular. Também atua como preceptora e coordenadora de cursos voltados à cirurgia dermatológica, contribuindo para a formação de novos especialistas.

A médica integra o corpo clínico de hospitais de referência em São Paulo, como Albert Einstein, Sírio-Libanês e Samaritano, além de manter consultórios em Santo André e na capital paulista.