Laira Vieira*
Toda grande ficção científica é, no fundo, uma meditação sobre o presente vestida com o traje reluzente do futuro. Mickey 17 (2025), dirigido por Bong Joon Ho (Parasita, Okja), é mais do que uma narrativa distópica com visual de blockbuster: é uma parábola sobre o valor da existência em uma sociedade que automatiza tudo — até o sacrifício.
Baseado no romance Mickey7, de Edward Ashton, o enredo gira em torno de Mickey Barnes, interpretado por Robert Pattinson (O Farol, O Batman), um prescindível — humano clonado inúmeras vezes para realizar tarefas letais em uma missão de colonização interplanetária. Toda vez que Mickey morre, uma nova cópia é ativada com suas memórias restauradas. A cadeia de substituições parece funcionar até que algo quebra: dois Mickeys coexistem. A lógica da fungibilidade entra em colapso. O sistema, acostumado à submissão repetitiva, se vê ameaçado pelo imprevisível: a consciência.
Esse ponto de ruptura, embora carregado de tensão narrativa, serve acima de tudo como uma metáfora. Mickey não é apenas um indivíduo replicado — ele é a caricatura do trabalhador contemporâneo: redundante, invisível, substituível. Sua utilidade está diretamente ligada à sua obediência. Ao se recusar a morrer, ele não apenas sabota um protocolo; ele subverte toda uma lógica de produção.
Pattinson entrega nuances distintas entre cada versão do personagem, oscilando entre o cansaço e a rebelião silenciosa. Sua atuação foi elogiada pela complexidade do papel, mesmo que a estrutura fragmentada do roteiro dilui parte da potência dramática. Ainda assim, o ator encarna bem a inquietação do sujeito moderno — fragmentado entre papéis, exigências e algoritmos, buscando manter a integridade em meio à repetição.
A ambientação em Niflheim, planeta gélido e hostil, é mais do que um cenário futurista. Trata-se de um espelho da colonização clássica, só que transposta para o cosmos. O planeta é a nova América, o novo Brasil, o novo Congo: um espaço a ser dominado e colonizado. Os humanos que ali chegam — liderados por figuras de autoridade militar e científica — reproduzem a lógica extrativista de sempre. Em vez de refletir sobre as falhas do passado, projetam-nas no futuro com estética de alta tecnologia.
Nesse contexto, o clone número 17 que desafia seu destino é o trabalhador que recusa a uberização, o algoritmo, a meritocracia de fachada. Sua “rebelião” não é barulhenta — é a simples recusa de aceitar que morrer mil vezes pelo sistema é uma honra. E como diria Albert Camus: “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia”. Na obra, o suicídio é institucionalizado, o absurdo é travestido de dever.
Bong Joon Ho, conhecido por seu olhar afiado sobre desigualdades sociais, alterna aqui entre o monumental e o íntimo. Há sequências visualmente arrebatadoras — especialmente nos momentos em que Mickey confronta a si mesmo — mas o maior impacto está nos diálogos entre os clones 17 e 18, onde o filme encosta na angústia existencial com uma calma cruel. A câmera não corre; ela observa, como se soubesse que o tempo, aqui, é repetição.
Há críticas, sim, e não devem ser ignoradas. O longa, ambicioso em gênero e simbolismo, às vezes se perde em suas próprias possibilidades. Quer ser sátira, ensaio filosófico, aventura sci-fi e thriller político — tudo ao mesmo tempo. Em certos trechos, falta coesão. Mas talvez isso reforce o próprio dilema do protagonista: uma identidade diluída em tantas versões que quase se torna ilegível.
A crítica à lógica neoliberal é o coração da narrativa; a obsolescência programada da tecnologia ganha aqui um corpo: o humano reciclável. Numa sociedade em que burnout virou status, e produtividade se mede em sofrimento, o protagonista é um mártir não por ideal, mas por contrato. A burocracia da morte se torna rotina, e o que era excepcional — morrer pelo coletivo — vira protocolo de RH.
Mickey 17 não propõe uma revolução explícita, não há bandeiras erguidas, nem discursos inflamados. Há, sim, uma pequena insurgência: o desejo de continuar vivo, mesmo quando tudo ao redor clama pela extinção da criatura. É nesse detalhe que a película toca a ferida mais sensível da contemporaneidade: em um mundo onde se espera que sejamos múltiplos, incansáveis, performáticos e sempre disponíveis, dizer “não” pode ser o ato mais radical.
Embora a narrativa tenha momentos de lentidão, mantém seu foco central. Se o espectador conseguir ver além das camadas de gelo e clonagem, encontrará uma obra que, mesmo aos solavancos, resgata o que há de mais humano: o direito de não se repetir.
*Laira Vieira é Critica Cultural, Economista e Tradutora. Autora.




