Carlos Alberto Tavares Ferreira*

Controlar a produção de alimentos hoje é controlar:

  • A segurança alimentar do próprio povo;
  • A influência sobre outras nações, especialmente em tempos de escassez;
  • A moeda de barganha em acordos internacionais.

O Brasil, com sua matriz agrícola tropical e a maior biodiversidade do planeta, tem a chance não apenas de alimentar o mundo, mas de liderar uma nova ordem agroambiental global. Para isso, precisa:

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  • Combater o desmatamento ilegal com rigor;
  • Fortalecer os pequenos e médios produtores com inovação;
  • Defender o agro sustentável, produtivo e ético, que já é praticado por milhões.

A constatação trazida pelo novo estudo publicado na revista Nature reforça um alerta que a ciência climática vem emitindo há mais de uma década.

As zonas agrícolas tradicionais do planeta EUA, Europa, Canadá, China e Rússia, estão se tornando progressivamente mais vulneráveis às mudanças climáticas, especialmente no cultivo de grãos como milho e trigo, fundamentais à segurança alimentar global.

O que diz o estudo publicado na Nature?

O artigo, publicado em 2024 na Nature Sustainability, utiliza projeções baseadas em modelos climáticos e agroeconômicos integrados (como os modelos CMIP6 e GLOBIOM) para simular os impactos da elevação da temperatura global sobre a produtividade agrícola ao longo do século XXI.

Conteúdo do artigo
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As conclusões principais incluem:

  • Perdas de até 40% na produção de milho e trigo em países do Hemisfério Norte, mesmo com estratégias de adaptação como irrigação, mudança de cultivares e manejo de solo.
  • As regiões temperadas, onde historicamente se concentra a produção desses grãos, serão mais atingidas por ondas de calor, estiagens e estresse hídrico.
  • O sul global tropical tende a se beneficiar parcialmente, desde que haja políticas de inovação, infraestrutura e governança.

Fonte: Challinor, A.J. et al. (2024). Climate extremes risk undermining global food system adaptation. Nature Sustainability. DOI: 10.1038/s41893-024-01099-4

 Brasil: o agronegócio adaptado ao calor

Diante desse novo cenário, o Brasil emerge como um dos poucos países com estrutura agrícola já resiliente ao calor.

Os trópicos úmidos sempre foram vistos como fronteiras de risco à agricultura industrial mas o Brasil transformou essa adversidade em vantagem estratégica. Alguns fatores técnicos explicam isso:

1. Adaptação produtiva e biotecnológica

  • A agricultura tropical brasileira já opera sob altas temperaturas e variações pluviométricas — o que significa que sementes, práticas e sistemas produtivos estão ajustados a esse tipo de estresse.
  • A EMBRAPA, em conjunto com universidades e cooperativas, desenvolveu cultivares resistentes à seca, ao calor e a pragas tropicais.

2. Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF)

  • O Brasil lidera mundialmente a aplicação da ILPF, sistema que mitiga emissões, conserva água, melhora a fertilidade do solo e aumenta a produtividade.
  • Segundo a ABC+ (Plano Setorial de Adaptação e Baixa Emissão de Carbono na Agropecuária), já são mais de 17 milhões de hectares com ILPF, com expectativa de alcançar 35 milhões até 2030.

3. Ampliação de áreas agrícolas sustentáveis

  • A conversão de áreas degradadas em áreas produtivas já representa mais de 30% da expansão agrícola brasileira recente, conforme dados do MAPA (Ministério da Agricultura).
  • O uso de sensoriamento remoto, drones e big data possibilita monitorar produtividade e riscos climáticos com cada vez mais precisão.

Geopolítica da comida: o novo mapa do poder global

A transição climática está redesenhando o mapa do poder alimentar global. Países do norte, tradicionalmente dominantes, tendem a perder competitividade. Enquanto isso, o Brasil assume uma posição estratégica como um dos principais garantes da segurança alimentar planetária especialmente em:

  • Proteínas vegetais (soja e milho) para ração animal;
  • Proteínas animais (carne bovina, de frango e suína);
  • Biocombustíveis de segunda geração, como etanol de milho e biodiesel de soja;
  • Frutas tropicais, café e produtos de alto valor agregado.

Essa nova centralidade implica mais do que produtividade agrícola exige do Brasil:

Liderança política

Para negociar com firmeza em acordos multilaterais (FAO, COPs, OMC), defender sua agricultura sustentável e promover um novo modelo de produção global com base na justiça climática e alimentar.

Governança técnica e científica

A consolidação de centros de pesquisa, sistemas de monitoramento ambiental e políticas públicas integradas é essencial para que o Brasil mantenha sua vantagem comparativa.

Responsabilidade socioambiental

O mundo exigirá rastreabilidade, redução de desmatamento ilegal, justiça social no campo e proteção de povos e territórios tradicionais.

📌 Conclusão

A agricultura brasileira, já adaptada ao clima tropical e baseada em ciência, inovação e biodiversidade, não é apenas um motor econômico, mas uma infraestrutura crítica da estabilidade global.

O estudo da Nature não deixa dúvidas: as nações que hoje dominam a produção de alimentos caminham para o colapso climático e o Brasil tem nas mãos a chance histórica de se tornar o principal fiador da segurança alimentar do planeta.

O desafio é transformar essa vantagem produtiva em liderança ética, ambiental e diplomática. Porque quem produz comida, no futuro, não apenas manda no planeta salva o planeta.

2. O Brasil como Potência Agroalimentar

2.1. A força do Brasil como potência agroalimentar global está ancorada em números expressivos, capacidade tecnológica, diversidade de biomas e uma logística estratégica cada vez mais integrada aos grandes mercados mundiais.

Não é apenas simbólica, ela reflete o peso geopolítico e econômico do agronegócio brasileiro no século XXI.

O Brasil como Gigante na Produção Mundial de Alimentos

1. Liderança Global em Produção e Exportação

O Brasil figura entre os maiores produtores e exportadores mundiais em diversas cadeias alimentares essenciais:

Produto Posição Global Destaques Soja 1º em exportação / Produção acima de 150 milhões de toneladas em 2023; exportações para China, UE e Irã. Milho 2º em exportação / Superou os EUA em volume exportado em 2023; destino: Ásia, Oriente Médio, Europa. Café 1º produtor e exportador /Responsável por cerca de 37% do comércio mundial de café verde. Carne bovina 1º em exportação /Presente em mais de 100 mercados; destaque para China e EUA. Frango 1º em exportação /Baixo custo de produção e rastreabilidade; atende mais de 150 países. Açúcar 1º em exportação /49% do mercado global; produção sustentável comprodutos (etanol, bioeletricidade) Celulose 2º em exportação /Liderança em florestas plantadas com manejo certificado.

Fontes: MAPA (2023), CNA, USDA, IBGE, Embrapa, OEC World, UN Comtrade

2. Peso do Agronegócio na Economia Nacional

De acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), 47,6% das exportações brasileiras em 2022 tiveram origem no agronegócio.

Esse desempenho não apenas sustenta a balança comercial, como ancora o superávit primário e contribui decisivamente para a estabilidade cambial do país.

Dados adicionais:

  • Em 2022, o valor exportado do agro ultrapassou US$ 159 bilhões.
  • As principais regiões compradoras incluem China (com mais de 30% das compras), União Europeia, Estados Unidos, Irã, Egito e Vietnã.
  • Os setores de grãos, carnes, florestas plantadas e produtos tropicalizados lideram as receitas de exportação.

3. Capacidade de Alimentar o Mundo

O cálculo da EMBRAPA (2023) indica que o Brasil já tem a capacidade técnica, logística e produtiva de alimentar mais de 1 bilhão de pessoas. Esse número é baseado em:

  • A produção total de calorias e proteínas exportadas em soja, milho, carnes, açúcar e café;
  • A área plantada e colhida, que cresce com o uso de tecnologia, e não com desmatamento;
  • O uso de biotecnologia e manejo sustentável, como fixação biológica de nitrogênio, plantio direto e integração lavoura-pecuária.

4. Inovação e Eficiência Tropical

O Brasil conseguiu tropicalizar a agricultura moderna, o que é uma façanha científica e produtiva. Enquanto países temperados operam em duas estações bem definidas, o Brasil:

  • Produz duas ou até três safras por ano em algumas regiões.
  • Utiliza tecnologias climáticas como monitoramento satelital, inteligência artificial aplicada ao solo e sementes geneticamente adaptadas ao calor e umidade.
  • Investe em biodefensivos e práticas regenerativas, com ganhos de produtividade e sustentabilidade.

Destaque: A EMBRAPA, considerada uma das mais avançadas instituições de pesquisa agropecuária do mundo, tem mais de 1.000 patentes e parcerias internacionais para transferência de tecnologia agrícola tropical.

5. Agro Sustentável e Competitivo

O agro brasileiro está cada vez mais atento às demandas ambientais e sociais globais. Hoje, o país conta com:

  • 67% do seu território com vegetação nativa preservada (MAPBiomas, 2023).
  • Mais de 200 milhões de hectares cadastrados no CAR (Cadastro Ambiental Rural).
  • Aumento constante da produção em áreas já antropizadas, com recuperação de pastagens e uso de áreas degradadas.

Conclusão

O Brasil não é apenas um produtor de commodities é um provedor estratégico de segurança alimentar para o mundo, com competência técnica tropical, escala global e vocação sustentável. Essa posição o coloca no centro das discussões sobre clima, comércio internacional e políticas de segurança alimentar no século XXI.

Frase-síntese:

“O mundo depende do Brasil para comer e o Brasil depende de liderar com inteligência, inovação e responsabilidade para sustentar esse papel.”

O conceito de eficiência tropical 

É uma das maiores conquistas da agricultura brasileira contemporânea e um diferencial competitivo único no cenário agroalimentar mundial.

Enquanto países de clima temperado produzem sob condições estáveis e com apenas uma safra anual, o Brasil, mesmo enfrentando desafios tropicais (altas temperaturas, umidade, solos ácidos e pragas), desenvolveu um modelo altamente produtivo e resiliente.

2.2. Eficiência Tropical: Superando Limites com Ciência

Mais de uma safra por ano: produtividade além do clima

O Brasil consegue produzir:

  • Duas safras por ano de grãos (verão e safrinha), especialmente soja e milho;
  • Três ciclos anuais em regiões tropicais com irrigação e controle de manejo, como ocorre em partes do MATOPIBA e no Centro-Oeste.

Isso significa que a produtividade anual por hectare é superior à de países que colhem uma única vez ao ano.

É um ganho de uso temporal do solo produz-se mais, por mais tempo, em uma mesma área.

Evolução impressionante da produtividade da soja

Ano Produtividade média nacional de soja (kg/ha)

1975 1.500 kg/ha

2023 3.570 kg/ha (Fonte: CONAB, 2023)

Isso representa um aumento de 138% em produtividade em menos de 50 anos, sem expansão proporcional de área plantada.

Fonte: CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento), IBGE, EMBRAPA

Fatores que explicam essa eficiência

1. Inovação genética e biotecnologia

  • Desenvolvimento de cultivares adaptadas ao clima tropical, mais resistentes a estresses bióticos e abióticos.
  • Introdução de OGMs (organismos geneticamente modificados) com tolerância à seca, resistência a insetos e herbicidas.
  • Uso de fixação biológica de nitrogênio nas leguminosas (como a soja), reduzindo o uso de fertilizantes nitrogenados e custos de produção.

2. Agricultura de precisão

  • Sensores de solo, drones, GPS, satélites e inteligência artificial para mapear variabilidade intra-parcela, aplicar insumos com precisão e aumentar a eficiência do uso de recursos (água, fertilizantes, defensivos).
  • Modelagem climática e previsão de pragas em tempo real.

3. Manejo Integrado de Pragas e Solos

  • Rotação de culturas e consórcios agropecuários (como ILPF) que reduzem infestação de pragas e doenças.
  • Uso de plantio direto: técnica que preserva a umidade do solo, reduz erosão e aumenta a matéria orgânica.
  • Correção da acidez dos solos tropicais (uso de calcário) e melhor uso do fósforo.

Comparação com países temperados

Indicador Países temperados (EUA, UE, Canadá) Brasil

Safras por ano 1 2 a 3

Necessidade de irrigação / Alta em algumas regiões / Menor em muitas áreas tropicais

Fertilidade natural do solo / Alta / Baixa (corrigida com tecnologia)

Clima / Estável, mas vulnerável a extremos / Variável, mas adaptado

Crescimento da produtividade / Estagnado em alguns cultivos / Crescente em grãos e fibras

Fontes: USDA, FAO, Embrapa, IBGE, CONAB

O significado geopolítico da eficiência tropical

Essa combinação de tecnologia, adaptação e manejo em clima tropical transformou o Brasil em um modelo internacional de agricultura tropical sustentável. O que antes era um desafio técnico, hoje é:

  • Diferencial competitivo frente às potências agrícolas temperadas;
  • Base para exportações massivas e seguras;
  • Fundamento da segurança alimentar global em tempos de crise climática.

Conclusão

A chamada “eficiência tropical” do Brasil não é um acaso

É o resultado de décadas de investimento em ciência agrícola, políticas públicas acertadas (como o crédito rural e o fortalecimento da EMBRAPA) e visão estratégica do setor privado.

Hoje, produzir em clima tropical não é um limite, é uma vantagem estrutural.

O Brasil demonstrou que é possível produzir com escala, qualidade, sustentabilidade e inovação sob as condições mais desafiadoras.

E isso o coloca, cada vez mais, no centro da geopolítica do alimento, da energia e do clima.

Leia aqui a primeira parte do artigo: O Alimento como Nova Geopolítica Global

*Carlos Alberto Tavares Ferreira é fundador e CEO da Carbon Zero em Curitiba. Atua no setor de sustentabilidade, com foco em programas socioambientais. Fundou e dirige a Fundação Tavares Ferreira, voltada à formação de parcerias no setor socioambiental, e o CAPES – Centro de Apoio e Pesquisa, especializado em certificações de projetos de carbono.