Mauro Cid x Walter Braga Netto: 1ª acareação. (Reprodução)


Nesta terça-feira (24), duas acareações de alto impacto político e jurídico acontecem no Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília.

Os confrontos são parte da ação penal que investiga a tentativa de golpe de estado articulada em 2022 pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e seus aliados. As acareações serão fechadas.

O primeiro encontro será às 10h da manhã, reunindo o general da reserva Walter Braga Netto e o tenente-coronel Mauro Cid, ambos réus no processo e apontados como parte do “núcleo operacional” da suposta organização criminosa.

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Em seguida, no período da tarde, haverá uma segunda acareação, entre o ex-ministro da Justiça Anderson Torres e o general Freire Gomes, ex-comandante do Exército, que atua como testemunha no caso.

O que é uma acareação?

É um instrumento legal utilizado quando há contradições nos depoimentos de duas ou mais pessoas sobre os mesmos fatos. Ao colocá-las frente a frente, o objetivo é esclarecer os pontos divergentes, confrontar versões e buscar elementos objetivos que ajudem a elucidar a verdade.

Pontos centrais de confronto entre Braga Netto e Mauro Cid

A acareação entre os dois militares foi solicitada pela defesa de Braga Netto e gira em torno de dois temas principais:

Suposto repasse de dinheiro em espécie

Cid relatou, em acordo de colaboração premiada, que Braga Netto lhe entregou uma quantia em dinheiro, dentro de uma caixa de vinho, no Palácio da Alvorada, destinada a financiar ações golpistas. Ele afirma que o valor foi repassado ao major Rafael de Oliveira, ligado ao plano “Punhal Verde-Amarelo”, que previa a morte do presidente Lula, do vice Alckmin e do próprio ministro Moraes.

Braga Netto admite que Cid lhe pediu ajuda financeira, mas nega veementemente ter entregue qualquer valor ou participado de ações ilegais:
“Nunca entreguei dinheiro ao Cid. Sugeri que ele procurasse o tesoureiro do partido.”

Reunião em novembro de 2022 na casa de Braga Netto

Cid afirmou que, durante o encontro, foram discutidas estratégias para provocar o caos social e viabilizar um estado de sítio. Ele alega que saiu da reunião antes de os assuntos “operacionais” começarem.

Braga Netto reconhece o encontro, mas nega o conteúdo relatado por Cid:

“A conversa foi superficial. Eles queriam apenas me cumprimentar. Não houve qualquer discussão sobre operações.”

Torres x Freire Gomes: outra peça-chave no quebra-cabeça

O general Freire Gomes x Anderson Torres: quem diz a verdade? (Reprodução)

A segunda acareação busca esclarecer as divergências entre Torres e o general Freire Gomes. O ex-ministro nega ter participado de reuniões com teor golpista, enquanto Freire Gomes afirma o contrário. A defesa de Torres alega que testemunhas isentas não confirmaram o relato do general.

Importância jurídica do momento

Segundo especialistas, as acareações desta terça são etapas decisivas do processo. Elas podem tanto reforçar quanto abalar a credibilidade de delações e depoimentos — especialmente os de Mauro Cid, que servem como alicerce de diversas acusações.

O criminalista Guilherme Augusto Mota destaca:

“Essas acareações são estruturantes. Elas podem gerar reviravoltas processuais significativas.”

Próximos passos

Após as acareações, o processo entra na fase de alegações finais, quando o Ministério Público e os advogados de defesa apresentam seus argumentos. Em seguida, caberá ao STF julgar os réus — e decidir sobre eventuais condenações por tentativa de golpe e crimes correlatos.