O assessor especial de Lula, Celso Amorim: aposta do Brasil no BRICS. (Foto: EBC)


Em meio ao acirramento das tensões diplomáticas com Washington, o Brasil sinaliza uma guinada estratégica em sua política externa, reforçando o compromisso com o bloco dos Brics e ampliando sua presença nas relações multilaterais.

A movimentação ocorre em resposta direta às sanções anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que pretende impor tarifas de 50% sobre produtos brasileiros — medida que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou como “chantagem inaceitável”.

Segundo reportagem publicada pelo Financial Times, o assessor de Relações Exteriores da presidência, Celso Amorim, afirmou que os ataques do republicano têm impulsionado a aproximação do Brasil com o bloco, formado atualmente por Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul, Irã, Arábia Saudita, Etiópia, Indonésia, Emirados Árabes e Egito. Juntos, os países representam cerca de metade da população mundial e 40% da riqueza global.

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As tarifas — que entrarão em vigor em 1º de agosto — foram anunciadas por Trump em 9 de julho, sob a justificativa de que o tratamento judicial dado a seu aliado Jair Bolsonaro seria uma “caça às bruxas”. Amorim criticou veementemente o posicionamento, afirmando que a tentativa de interferência política americana é sem precedentes, “nem em tempos coloniais”.

A nova sobretaxa de 10% atingirá países alinhados aos Brics, grupo que Trump acusa de promover uma agenda antiocidental. Ele também condenou as declarações de Lula durante o encontro do bloco no Rio de Janeiro, quando o presidente brasileiro defendeu a desdolarização do comércio internacional.

Apesar da China ser o maior parceiro comercial do Brasil — com US$ 94 bilhões movimentados em 2024, sobretudo em produtos agrícolas e minerais — Amorim negou que Pequim será o maior beneficiário das tensões comerciais com os EUA. Para o assessor, o objetivo é a diversificação das parcerias estratégicas, com reforço nas relações com Europa, Ásia e América do Sul.

Amorim também destacou que o Brics não possui caráter ideológico, e sim atua como um instrumento de apoio à ordem multilateral global, contrapondo o isolacionismo crescente na política externa americana. A rápida ratificação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia foi citada como essencial para ampliar a influência brasileira e estabelecer maior equilíbrio nas relações globais.

A posição brasileira parece consolidada diante do cenário. Autoridades do governo e o próprio presidente Lula indicam que não há diálogo direto com a Casa Branca. Durante evento público em Osasco, Lula criticou Trump por ter sido “induzido a acreditar numa mentira”, referindo-se à situação judicial de Bolsonaro, e indicou o vice-presidente Geraldo Alckmin como principal negociador frente à crise comercial.

Internamente, a estratégia do governo brasileiro enfrenta críticas de opositores. Durante encontro com investidores em São Paulo, os governadores Tarcísio de Freitas (SP), Ronaldo Caiado (GO) e Ratinho Jr. (PR) se posicionaram contra o discurso de desdolarização e defenderam a manutenção das relações comerciais com os EUA. Ratinho Jr. chegou a classificar a fala de Lula como “falta de inteligência”, afirmando que “Bolsonaro não é mais importante que essa relação comercial entre Brasil e Estados Unidos”.

Em meio ao impasse, o governo brasileiro reforça seu posicionamento soberano e a necessidade de integrar-se a fóruns globais alternativos.

Com o último ano do mandato pela frente, Lula mira o aprofundamento da integração regional sul-americana e novas parcerias comerciais, como as conversas em andamento com o Canadá.

A crise diplomática evidencia o reposicionamento brasileiro num cenário internacional marcado por disputas de influência — com o Brics emergindo como alternativa estratégica e desafio à hegemonia unipolar norte-americana.