O futebol do futuro será disputado tanto com os pés quanto com algoritmos. Em um esporte cada vez mais pressionado por cifras bilionárias, audiências globais e exigências de transparência, a tecnologia ganhou um peso de protagonista. Sistemas automatizados de arbitragem, por exemplo, prometem reduzir erros e aumentar a eficiência do jogo. A pergunta que surge, porém, vai além da inovação: até que ponto a busca pela precisão ameaça a essência imprevisível do futebol?

Nesta sexta-feira, durante palestra realizada no São Paulo Innovation Week (SPIW), festival de tecnologia e inovação promovido pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, Antonio Wanderley, CEO do Ibope, Paulo Calçade, comentarista da ESPN, e o jornalista Ubiratan Leal tentaram responder essa questão.

“Não sei se as mudanças que estão acontecendo vão se sustentar daqui a 50, 60 anos. Sou botafoguense e apaixonado pela parte lúdica. Uma vez que a gente olha o futebol como um sistema, como saberemos se as alavancas que o cercam não serão destruídas? Você tem o clube mais elitizado, o da história, o das massas”, exemplifica. “Não sou contra a tecnologia, mas eu acredito que temos de valorizar as pessoas, não a tecnologia.”

Na contramão, Calçade vê os recursos tecnológicos dos tempos atuais como algo obrigatório. “O futebol é resultado do contexto histórico”, avalia. “A criação do futebol foi se transformando com a evolução das regras. É um contexto histórico dentro do jogo. Isso é incontrolável.”

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Calçade fez uma viagem no tempo para explicar seu ponto de vista e mostrar que o futebol precisa se atualizar nestes tempos de transparência.

“Nos dias de hoje, queremos velocidade e a questão da justiça. Fiz o curso de arbitragem em 94 e não se falava em recurso eletrônico porque se acreditava em jogo puro. Hoje as coisas mudaram. O VAR erra. Mas é erro humano. É preciso avançar nessa direção. Se eu avanço nisso, poderemos resgatar o futebol. A essência vai ser sempre o jogador”, defende.

Estádios que entraram para o imaginário dos torcedores pelos grandes jogos, e se tornaram modernas arenas, também foram abordados na conversa.

“Quando vejo a galera defendendo o estádio raiz, onde voavam certos líquidos que nem sempre eram cerveja, não tenho boa lembrança. O futebol tem uma evolução e isso é muito lindo. O futebol conquista o tempo todo”, diz Calçade, que defende modernizar esses locais como símbolo dessa transformação.

SÃO PAULO INNOVATION WEEK

O São Paulo Innovation Week, maior festival global de tecnologia e inovação, é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, até esta sexta-feira. Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre muitas outras.

No fim de semana, o festival leva uma série de eventos paralelos (side events) gratuitos para quatro Centros Educacionais Unificados (CEUs) da cidade, em parceria com a Prefeitura de São Paulo. São eles: Heliópolis, Freguesia do Ó, Papa Francisco (Sapopemba) e Silvio Santos (Cidade Ademar). Não é necessário fazer inscrição; o acesso será por ordem de chegada, sujeito à lotação dos espaços. A programação gratuita reúne nomes como Marcelo Gleiser, Maria Homem e Ivair Gontijo em debates e experiências imersivas.

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