O presidente Donald Trump está agora querendo controlar as forças armadas americanas. (Reprodução: TV)


A demissão do Secretário da Marinha, John Phelan, nesta semana, marcou o ponto de inflexão mais recente em uma reestruturação drástica do Pentágono que não possui paralelo na história moderna dos Estados Unidos. O que começou como uma troca de comando padrão de início de governo transformou-se em uma varredura sistêmica da liderança militar, ocorrendo, de forma atípica, enquanto o país coordena operações de combate direto contra o Irã. A saída de Phelan, um financista sem experiência prévia em defesa e doador de campanha, sublinhou a fragilidade das relações entre a burocracia civil do Departamento de Defesa e a ala política da Casa Branca.

Segundo fontes próximas à situação, o estopim para sua queda foi o desrespeito à cadeia de comando: Phelan teria apresentado propostas de construção naval diretamente ao Presidente Donald Trump, ignorando a autoridade de seu superior direto, o Secretário de Defesa Pete Hegseth.

O choque entre ideologia e continuidade

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A instabilidade no topo da Marinha é apenas o reflexo de uma onda de exonerações que atingiu o coração das Forças Armadas logo nos primeiros meses do mandato. Em uma ruptura com a tradição de manter a liderança uniformizada para garantir a estabilidade nacional, Trump demitiu o General da Força Aérea Charles Q. Brown, Chefe do Estado-Maior Conjunto, em fevereiro de 2025. Brown, o segundo oficial negro a ocupar o cargo de principal conselheiro militar do presidente, teve seu mandato de quatro anos interrompido após críticas presidenciais às políticas de diversidade e inclusão do governo anterior. No mesmo dia, a Almirante Lisa Franchetti, a primeira mulher a liderar as Operações Navais, também foi destituída. Essa “limpeza” ideológica foi reforçada logo no primeiro dia de governo com a saída da Almirante Linda Fagan, Comandante da Guarda Costeira, cujo foco em equidade foi classificado por funcionários da administração como um detrimento à prontidão operacional.

Tensões internas e gestão de guerra

O clima de instabilidade estendeu-se ao Exército, onde a rotatividade de lideranças coincidiu com o reforço das tropas americanas no Oriente Médio. O General Randy George foi removido de seu cargo de Chefe do Estado-Maior do Exército em abril, sem justificativa oficial, em meio a relatos de atritos crescentes entre o Secretário Pete Hegseth e o Secretário do Exército, Daniel Driscoll. A saída de George foi acompanhada pela demissão simultânea do General David Hodne, chefe de Transformação e Treinamento, e do Major-General William Green, chefe dos Capelães, sugerindo uma reformulação que desce até os níveis operacionais e administrativos da força terrestre. Para observadores em Washington, a substituição de oficiais de carreira por perfis politicamente alinhados em plena zona de conflito representa um risco calculado à eficácia do comando.

A reconfiguração da inteligência nacional

O alcance da reformulação de Trump não se limitou ao campo de batalha, atingindo também o aparato de inteligência do país. Em abril de 2025, o General Timothy Haugh foi destituído da direção da Agência de Segurança Nacional (NSA), acompanhado por uma dezena de funcionários do Conselho de Segurança Nacional. Meses depois, em agosto, o Tenente-General Jeffrey Kruse, chefe da agência de inteligência do Pentágono, foi exonerado por ordem de Hegseth, que também removeu o comando da Reserva da Marinha e do Comando de Guerra Naval Especial. Essa série de cortes rápidos e sem motivação pública detalhada sinaliza uma tentativa da Casa Branca de consolidar o controle sobre o fluxo de informações sensíveis, removendo qualquer resistência remanescente da chamada “burocracia permanente” do Estado de Defesa.