Ricardo Guedes


Ricardo Guedes*

Uma nação não pode ir contra os seus preceitos, aquilo que ela gerou e fez o seu sucesso: a democracia e o mercado. Tratar os imigrantes ilegais (ilegais, ressalto) como bandidos acorrentados (que não necessariamente são), extrapola os limites da liberdade e da lei. E taxar os produtos do Canadá e do México em 25%, em medida protecionista que vai contra os interesses de boa parte das indústrias e da população americana, usurpa o conceito fundamental do que se fez a nação, o da eficiência e do mercado, que fizeram a América predominar sobre o mundo ao longo do século XX. A não ser que seja somente para negociar com o Canadá e o México, e com outros países como a China e a União Europeia, com a suspensão temporária da taxação sobre o Canadá e o México, mas a intenção é demonstrada e será implementada em algum grau, com os países se realinhando para soluções alternativas no comércio internacional. Trata-se de um “tiro no próprio pé”.
 
Trump foi eleito, no voto popular, por 49,9% a 48,5% dos eleitores americanos, 1,4% de diferença na população. É uma vitória significativa, sem dúvidas, que resulta em sua eleição em 31 dos 50 Estados americanos, 312 x 226 votos no Colégio Eleitoral. Mas, uma vez eleito, deveria representar a maior parte dos americanos, e não fazer, como conhecemos, o que ocorre “abaixo da linha do Equador”. Embora tenha sido eleito como alternativa nos Estados Unidos, hoje, cai na população americana o suporte para políticas mais radicais. Pesquisa da CBS News mostra que o apoio entre os eleitores Republicanos à invasão do Capitólio em 6 de janeiro caiu de 51% para 30% nos últimos 4 anos, hoje equivalente a 15% da população americana; e, no Congresso dos Estados Unidos, somente 30% dos Republicanos apoiam medidas que possam beirar a inconstitucionalidade, equivalente a 15% dos congressistas.
 
O fenômeno “Trump” tem ocorrido em várias sociedades, como no Brasil com Bolsonaro, e Argentina com Milei. A lógica é a que se segue. Segundo o “World Inequality Report”, até 1980 todas as classes sociais prosperaram, mas a partir de 1980 as classes médias e trabalhadoras foram comprimidas na economia. Hoje, os 1% mais ricos detêm 19% da renda mundial, e os 50% mais pobres somente 8%. A ira das classes médias, que depende da estabilidade econômica para poder viver, se volta então contra o status quo, na figura de líderes radicais, supostamente contra o status quo, equivalente ao que aconteceu na Alemanha e na Itália nos anos 30 e 40, mesmo que com diferentes outputs históricos. Estes sistemas políticos se nutrem sempre da atribuição de um inimigo interno, que no caso atual parecem ser os “latinos”, e de um inimigo externo, possivelmente a China, devido ao seu crescimento, ou o Irã, devido ao petróleo, com a corrosão paulatina da ordem institucional. Mas Trump não proverá distribuição de renda nos EUA. Em verdade, seu governo se alicerça no Big Capital, que, como um “black hole”, a tudo suga e a ninguém nada deixa.
 
Observe-se que, de 1960 para cá, o PIB dos EUA caiu de 40% para 26% em sua participação no PIB do mundo. 26% é muito diferente de 40% para impor uma ordem mundial. Os 74% hoje da economia mundial vão se reorganizar. Trump pavimenta o caminho da China.
 
A China continua a prosperar. O PIB americano cresceu de US$ 26,01 trilhões em 2022 para US$ 27,72 trilhões em 2023, enquanto o PIB da China resvalou de US$ 17,88 trilhões para 17,79 trilhões neste período, devido à crise imobiliária. Mas dados do FMI indicam que o PIB da China em 2024 cresceu em cerca de 5,0%. Alguns autores indicam, apropriadamente, que a China pode ter caído na “armadilha da renda média”, onde a renda per capita tende a se estabilizar por volta dos US$ 10 mil anuais. Adicionalmente, a China tem feito atualmente alguns investimentos governamentais exagerados em infraestrutura, que podem não resultar em retorno a curto prazo, como corretamente indicado por renomados autores. Mas a China tem muito ainda a crescer devido a seu processo de urbanização, ainda em curso. Sabemos que os surtos de urbanização são acompanhados por surtos de crescimento econômico, devido ao aumento da produtividade da mão de obra do campo para as áreas urbanas, como foi nos Estados Unidos na segunda metade do século XX, no Brasil na década de 1970, e em outros países. E, indicadores das Nações Unidas para 2021, mostram que a população urbana da China está em cerca de 60,3%, dos Estados Unidos em 82,5%, da Europa ocidental em 80,0%. A China tem muito ainda a crescer.  
 
Sem distribuição de renda nos Estados Unidos, o apoio a Trump cairá, juntos às classes médias comprimidas, ao voto latino que pela primeira vez votou majoritariamente no Partido Republicano, e do empresariado que teve seus interesses afetados no comércio mundial.
 
Então, Trump dificilmente fará seu sucessor em 2028.

*Ricardo Guedes é Ph.D. em Ciências Políticas pela Universidade de Chicago, CEO da Sensus, e do Conselho Editorial do Brasil Confidencial. Autor.

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