A mansão em Arlington, onde está morando Eduardo Bolsonaro com a família, alvo de investigação da PF. (Fotos: Google Maps e Ag. Câmara)


A rede de conexões financeiras e imobiliárias que envolve o ecossistema político do clã Bolsonaro nos Estados Unidos ganhou um novo e complexo capítulo. Um fundo patrimonial diretamente vinculado a Paulo Calixto, advogado do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), adquiriu uma casa de luxo em Arlington, no estado do Texas — município que se tornou a base operacional e de moradia do parlamentar brasileiro cassado. A transação, efetuada em 27 de fevereiro por meio do Mercury Legacy Trust, envolveu um montante anunciado à época de US$ 753,5 mil (aproximadamente R$ 3,8 milhões).

O caso joga luz sobre as estruturas jurídicas utilizadas por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro em território norte-americano e atrai a atenção das autoridades brasileiras. O elo central da apuração reside no cruzamento de endereços e personagens. O Mercury Legacy Trust está sediado no mesmo endereço comercial em Dallas que o Havengate Development Fund LP. Este segundo fundo recebeu um aporte de US$ 2 milhões de dólares (R$ 11,3 milhões) do banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, sob a justificativa de financiar Dark Horse (“O Azarão”), uma cinebiografia sobre Jair Bolsonaro. O endereço em Dallas abriga ainda o escritório de advocacia de Calixto, espaço que vinha sendo cedido a Eduardo Bolsonaro para a realização de reuniões políticas.

Conexões políticas e assinaturas

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A operação imobiliária em Arlington traz marcas da administração anterior brasileira. Os documentos de compra do imóvel foram assinados por André Porciúncula, que exerceu o cargo de secretário de Fomento à Cultura durante a gestão de Jair Bolsonaro. Porciúncula atuou formalmente como o representante legal do Mercury, descrita como uma estrutura jurídica voltada para a administração de patrimônio nos EUA.

Embora os registros oficiais disponíveis até o momento não comprovem um vínculo societário ou fluxo financeiro direto entre o fundo que comprou a casa (Mercury) e o fundo que recebeu o dinheiro do cinema (Havengate), a coincidência de gestão, representação e localização geográfica colocou os envolvidos no radar da Polícia Federal (PF). Investiga-se se os recursos destinados por Vorcaro — a suposto pedido do senador Flávio Bolsonaro (PL-SP) — teriam como objetivo real subsidiar a permanência e as atividades de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, onde ele tem liderado uma ofensiva discursiva e política contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e outras autoridades institucionais brasileiras.

Respostas e entraves jurídicos

Nas redes sociais, Eduardo Bolsonaro negou veementemente ter sido beneficiado por qualquer repasse financeiro oriundo do banqueiro Daniel Vorcaro. Procurados formalmente para se manifestar sobre a transação e a relação com os fundos, Paulo Calixto, Eduardo Bolsonaro e André Porciúncula não enviaram respostas até o fechamento desta edição.

Para que a Polícia Federal e o Judiciário brasileiro consigam aprofundar as investigações sobre o real destino do dinheiro movimentado pelo fundo Havengate, será necessário acionar os mecanismos de cooperação jurídica internacional. Especialistas na área apontam que o acesso a dados bancários e a quebra de sigilos em solo americano dependem de um pedido formalizado pelo STF. A decisão final de abrir as contas e compartilhar os documentos caberá, em última instância, a um juiz federal dos Estados Unidos, que avaliará a validade legal do pleito brasileiro.

Entenda o Caso

Para compreender a gravidade e o impacto da reportagem, é necessário conectar diferentes fatos que eclodiram no cenário político recente:

  • A Crise dos Áudios e Mensagens: O estopim da investigação atual foi a revelação, pelo site Intercept Brasil, de mensagens e áudios em que o senador Flávio Bolsonaro solicita recursos financeiros ao banqueiro Daniel Vorcaro. O pretexto oficial do dinheiro era a produção de um documentário/filme biográfico sobre Jair Bolsonaro.
  • A Situação de Daniel Vorcaro: O banqueiro e dono do Banco Master tornou-se alvo de forte escrutínio após ser preso sob a suspeita de envolvimento em uma fraude financeira de bilhões de reais. A associação de seu nome com repasses para a família Bolsonaro agravou a crise política.
  • A Base de Eduardo Bolsonaro no Texas: Após perder o mandato ( “parlamentar cassado”), Eduardo Bolsonaro estabeleceu o estado do Texas como sua base internacional. De lá, o político articula discursos de oposição ao governo brasileiro e ao STF, buscando apoio de alas conservadoras do Partido Republicano nos EUA.
  • O Papel do Advogado Paulo Calixto: Calixto possui uma longa trajetória na região de Arlington, mantendo propriedades locais desde 1998. O fato de ele ceder seu espaço de trabalho para a atuação política de Eduardo e, ao mesmo tempo, gerenciar fundos que cruzam o caminho de recursos bilionários sob suspeita é o que conecta a militância política ao escândalo financeiro.