Gudryan Neufert


Gudryan Neufert*

Setenta anos separam as trajetórias de Francisco e Severino. Oito mil quilômetros distanciam Bragança Paulista, no interior de São Paulo, do Vaticano. Um dedica a vida ao sacerdócio e carrega um passado repleto de experiências. O outro vive para o esporte e tem um futuro pela frente. Ambos, recentemente, passaram pela experiência da quase-morte.

“Quase” é um advérbio que indica a não realização de um acontecimento por uma pequena margem. Mas o fato de algo não ter se concretizado não significa que não tenha existido — sobretudo para quem o viveu. O “quase” tem peso, tem história e, quase sempre, pode ser contado.

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O historiador e filósofo Walter Benjamin, no ensaio clássico O Narrador, lembra que os soldados que voltaram das trincheiras da Primeira Guerra Mundial não conseguiam relatar as experiências que viveram. O trauma era inominável. O “quase” deles era um abismo.

Francisco, o Papa, de 88 anos, esteve 38 dias internado em um hospital de Roma. Segundo fontes do Vaticano, ele quase morreu por insuficiência respiratória. O ápice da crise de saúde do pontífice ocorreu em 28 de fevereiro, quando os médicos enfrentaram um dilema: deixá-lo partir em paz ou adotar procedimentos mais agressivos para tentar salvá-lo.

Em conjunto com o próprio Papa, decidiram lutar pela vida até onde fosse possível. E venceram. O médico Sergio Alfieri afirmou que Francisco apresentou “uma melhora verdadeiramente surpreendente” desde que retornou ao Vaticano. O pontífice enfrentou um quadro grave de pneumonia dupla e, segundo Alfieri, esteve muito próximo da morte. “Eu o achei muito animado”, disse após visitá-lo.

Severino, de 19 anos, jogador do Red Bull Bragantino, sofreu um grave acidente na rodovia Anhanguera, no dia 4 de março. Dois dias depois, os médicos chegaram a abrir o protocolo de morte, suspeitando de morte cerebral. Esperaram 48 horas e iniciaram novos exames. Durante um dos procedimentos, Severino reagiu, quase que instintivamente. Tossiu. E essa tosse o salvou. Cancelaram o protocolo, transferiram-no de hospital e seguiram com o tratamento. Severino quase morreu. Hoje, já respira sem a ajuda de aparelhos.

Francisco e Severino são milagres da vida, aliados ao sucesso da medicina. São exemplos de quando fé e ciência se unem.

No domingo (30) o Papa lembrou que a Quaresma é tempo de cura. Em sua mensagem, citou uma passagem de Jesus com os fariseus para falar sobre amor e sobre o próprio processo de recuperação:

“Jesus lhes conta a história de um pai que tem dois filhos: um sai de casa, mas depois, tendo acabado na pobreza, volta e é acolhido com alegria; o outro, o filho ‘obediente’, indignado com o pai, não quer entrar na festa.”

“Assim, Jesus revela o coração de Deus: sempre misericordioso para com todos. Ele cura nossas feridas para que possamos amar uns aos outros como irmãos.”

“Eu também estou vivendo isso, na alma e no corpo. Por isso, agradeço de coração a todos aqueles que, à imagem do Salvador, são instrumentos de cura para os outros com suas palavras e com seu conhecimento, com o carinho e com a oração.”

Um dos melhores títulos da literatura brasileira é “Quase Memória”, livro autoficcional de Carlos Heitor Cony, que chamava sua obra de um Quase Romance. Meio verdade, meio ficção. Um grande livro. “Aquilo tudo existiu”, dizia ele, “mas não necessariamente contarei do jeito que vivi.” A memória é quase verdade. Cony, embora neoconservador no seu ocaso, lutou pela democracia quando do regime de exceção.

No dia 8 de janeiro de 2023, o Brasil sobreviveu a uma experiência de quase-morte da democracia. Um quase golpe de Estado. Não aconteceu, mas suas consequências ainda ressoam, com centenas de envolvidos enfrentando longas penas. O “quase” existiu e foi ameaçador.

Ao longo da história brasileira, desde que Varnhagen começou a contá-la, o Brasil parece sempre quase evoluir para um outro patamar de civilização, quando algo o puxa para trás.

Nos anos 1930, antes do Estado Novo.

Nos anos 1950, após o mágico 1958, quando a Bossa Novíssima, os traços de Niemeyer e os gols de Pelé e Garrincha redundaram, temporadas depois, num longo período de ditadura.

Nos anos 2010, o roteiro se repetiu. Um ciclo vicioso que mantém o país refém de uma desigualdade abissal e das mesmas estruturas de poder.

Não à toa, o Brasil é a nação do quase. Dos quase felizes.

Do quase conto que deixa quem escreve lúgubre.

Apesar dos elementos estarem no ar.

Como registrou o saudoso escritor Sérgio Sant’Anna:

“Os aromas de textos não escritos, ideias perdidas para sempre, composições, meandros, nuances melódicas, a materialização de ilusões e fantasias, o dom da graça e da poesia… A língua está aí, mãe inesgotável, à espera de que você beba nela. Língua e palavra. Qualquer impossibilidade é toda sua. Este ser que não pode ser nenhum outro, abismado, verdadeiramente obscuro, é o contista.”

*Gudryan Neufert é jornalista, com passagens por TV Globo, TV Record e SBT, além de graduações em Jornalismo (PUC-PR) e História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).