Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, avança em negociações com a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República para um acordo de colaboração premiada. A proposta prevê o pagamento de R$ 40 bilhões ao longo de dez anos, destinados a cobrir rombos em fundos de previdência estaduais e municipais, segundo fontes próximas ao caso.
O plano, no entanto, exclui o ressarcimento direto a duas das principais entidades atingidas pelo colapso da instituição: o Banco de Brasília (BRB) e o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), a entidade privada que funciona como rede de proteção do sistema bancário brasileiro.
Alegações de compensação
A defesa de Vorcaro sustenta que o BRB já foi compensado por meio de uma transferência anterior de ativos avaliados em R$ 21 bilhões. Esses ativos foram posteriormente negociados com a gestora de investimentos Quadra.
O BRB contesta essa avaliação. O banco estima um prejuízo de R$ 12 bilhões decorrente de créditos podres adquiridos do Master. Em petição enviada ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, o BRB solicitou que parte de eventuais multas pagas por Vorcaro seja redirecionada para abater essas perdas específicas.
O papel do FGC
Em relação ao FGC, a posição de Vorcaro é que não há obrigação legal de reembolso.
Entre maio e outubro de 2025, o fundo liberou R$ 4,3 bilhões em assistência de liquidez ao Banco Master em uma tentativa de estabilizar a instituição.
A intervenção não evitou que o Banco Central decretasse a liquidação do Master em novembro de 2025. O FGC declarou ter atuado dentro de seu mandato legal para proteger o sistema bancário, embora o caso tenha gerado debates entre analistas sobre o “risco moral” — a possibilidade de que tais garantias incentivem gestões temerárias.
Suspeitas de infiltração corporativa
Uma auditoria forense contratada pelo BRB identificou um aumento abrupto na participação acionária de pessoas ligadas ao Master. Segundo o relatório, a fatia desse grupo saltou de 0,0007% em 2024 para 23,5% em 2025. O BRB alega que esse movimento permitiu que Vorcaro e seus associados exercessem influência indevida sobre as operações do banco público.
As investigações também focam em Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB. Costa está preso por ordem do STF sob acusação de receber R$ 146,5 milhões em propinas, principalmente por meio de transações imobiliárias. Procuradores afirmam que ele atuava como um representante dos interesses de Vorcaro dentro da instituição. Costa nega as irregularidades.
Implicações sistêmicas
A homologação do acordo de delação depende agora do STF. Espera-se que o desfecho estabeleça um precedente jurídico sobre como o Brasil lida com crises financeiras que envolvem bancos públicos e fundos de garantia privados.
Além da responsabilidade criminal dos envolvidos, o caso expõe vulnerabilidades na fiscalização do sistema financeiro nacional e os desafios para a recuperação de ativos públicos após falhas institucionais de larga escala.





