Vinícios Betiol, em postagem anunciando que está no jogo da eleição. (Reprodução: X)


Em janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ironizou a ascensão dos influenciadores digitais, afirmando que “quem fala bobagem pode ter até 20 milhões de seguidores”. Três meses depois, diante da rejeição crescente à sua candidatura à reeleição, o PT decidiu se apoiar justamente nesse universo. O partido prepara 37 nomes ligados às redes sociais para concorrer a cargos de deputado estadual e federal nas eleições deste ano.

A iniciativa nasceu da ala jovem da legenda e já conta com 13 pré-candidatos anunciados, quatro em vias de divulgação e outros 20 em negociação. Os perfis variam entre 100 mil e 800 mil seguidores. Entre eles está Thiago dos Reis, produtor de conteúdo com mais de 1 bilhão de visualizações no YouTube e 1,9 milhão de inscritos, conhecido por misturar informações descontextualizadas e fake news para engajar seu público.

O movimento é apresentado como uma “renovação” do partido. Vinicios Betiol, professor e pesquisador que também se define como influenciador, articula as pré-candidaturas e pretende disputar uma vaga na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. “O PT lançará um grande projeto de pré-candidaturas de seus principais influenciadores. É a nova geração do partido!”, escreveu em abril, ao anunciar os nomes.

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Com 1,9 milhão de inscritos no YouTube, Thiago dos Reis será candidato a deputado federal pelo PT de SP. (Reprodução: X)

Apesar das críticas de Lula, a Secretaria de Comunicação da Presidência investiu R$ 1,1 milhão em 2025 para contratar 77 influenciadores na divulgação de programas do governo. Os cachês variaram de R$ 21 mil a R$ 310 mil por vídeo. Milton Cunha recebeu R$ 310 mil e o comediante Matheus Buente, R$ 124 mil, ambos para produzir apenas um vídeo.

A estratégia reflete a prioridade dada pelo PT à comunicação digital, após anos de desvantagem frente ao bolsonarismo nesse campo. Em julho de 2024, o partido reuniu 270 influenciadores em um encontro digital para impulsionar a campanha “taxação BBB” (bilionários, bancos e bets), dentro do projeto “Pode Espalhar”, em parceria com a Fundação Perseu Abramo.

Em outubro, foi lançado o seminário PTech, em parceria com big techs como TikTok, Google/YouTube, Meta e Kwai, para treinar militantes no uso das plataformas. Em dezembro, seguiu-se uma cartilha com orientações jurídicas a influenciadores e ativistas digitais ligados ao partido.

Entre os nomes que devem disputar vagas neste ano estão Pedro Rousseff, vereador de Belo Horizonte com 170 mil seguidores no X e 799 mil no Instagram, que deve concorrer a deputado federal, e Leonel Radde, deputado estadual no Rio Grande do Sul com 610 mil seguidores no Instagram, que também busca uma cadeira na Câmara.

Há também figuras exclusivamente digitais, como Thiago Foltran, influenciador paranaense com 639 mil seguidores no Instagram e 1,6 mil no X, que pretende concorrer a deputado estadual. Ele foi um dos que receberam repasses da Secom: R$ 15 mil para publicar quatro vídeos sobre ações do governo federal.

Para Éden Valadares, secretário de Comunicação do PT, não há separação entre militância de rua e militância digital. “O celular virou praticamente uma extensão dos nossos corpos e as telas, arenas importantes de disputa de valores e princípios”, afirmou. A aposta é que candidaturas com forte presença online possam abrir novas perspectivas de crescimento para o partido.