A rede elétrica de Cuba enfrenta colapso, e especialistas afirmam que a situação da ilha se torna mais grave a cada dia. A escassez de petróleo afeta o cotidiano da população, segundo especialistas em relações entre Cuba e Estados Unidos.
Na quinta-feira (14), a embaixada dos EUA em Havana divulgou alerta de segurança sobre o agravamento da crise energética, afirmando que a rede elétrica nacional “está cada vez mais instável”. Apagões prolongados, programados e não programados, têm ocorrido diariamente em toda a ilha, inclusive na capital. Os cortes afetam abastecimento de água, iluminação, refrigeração e comunicações.
A falta de combustível também compromete o transporte e provoca longas filas em postos de gasolina, informou a embaixada. O ministro de Energia e Minas, Vicente de la O Levy, declarou em entrevista coletiva na quarta-feira (13) que as reservas de combustível se esgotaram. Havana registrou blecaute superior a 20 horas naquele dia. “Não temos absolutamente nenhum combustível; não temos absolutamente nenhum diesel”, disse.
Segundo Levy, este é o primeiro colapso desde março, quando o país sofreu apagão após o bloqueio imposto pelo governo Donald Trump. A crise atual começou em 3 de janeiro, quando os EUA capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa, forçando Caracas a interromper o envio de petróleo para Cuba.
A Venezuela fornecia cerca de 20% das importações de energia da ilha, disse William M. LeoGrande, professor da American University. Cuba consome cerca de 112 mil barris por dia, segundo o site Worldometer. Em 2025, a Venezuela enviava aproximadamente 26,5 mil barris diários, ou 24% do consumo, informou a Reuters.
Sem esse fornecimento, Cuba depende de produção interna de petróleo pesado, com alto teor de enxofre, que danifica a infraestrutura e agrava falhas na rede. Cerca de 80% da eletricidade é gerada por usinas a gás natural e 20% por fontes renováveis, incluindo solar, disse LeoGrande.
A crise se intensificou em 29 de janeiro, quando Trump assinou ordem executiva declarando emergência de segurança nacional em relação a Cuba e ameaçou impor tarifas a países que fornecessem petróleo à ilha. O documento afirma que “as políticas, práticas e ações do governo de Cuba constituem uma ameaça incomum e extraordinária” à segurança dos EUA. Trump também acusou Havana de apoiar Rússia, China, Irã, Hamas e Hezbollah. “Com exceção de um petroleiro russo, ninguém mais ousou desafiar os EUA nessa questão”, disse LeoGrande.
Segundo Alejandro de la Fuente, da Universidade Harvard, apagões regulares ocorrem há cinco anos. Jorge R. Piñon, da Universidade do Texas, afirmou que as usinas movidas a petróleo têm mais de 40 anos e pouca manutenção. Para ele, o bloqueio dos EUA agravou a crise. “Eles empurraram Cuba para o que eu descreveria agora como uma crise humanitária”, disse De la Fuente.
Na quarta-feira (13), uma falha interrompeu o fornecimento em grande parte do leste do país, região mais pobre e ainda afetada pelo furacão Helena, em setembro de 2024. As sanções também impactaram o abastecimento de alimentos, já que Cuba importa de 70% a 80% de suas necessidades, segundo o Programa Mundial de Alimentos. “Estamos falando da possibilidade de fome em massa real”, disse LeoGrande.
Supermercados estão vazios, hospitais funcionam precariamente e a falta de diesel paralisa agricultura e transporte, afirmou Piñon. Em dezembro, LeoGrande observou que apenas veículos elétricos circulavam. Familiares de De la Fuente relataram duas horas de eletricidade em 36 horas. “Ninguém na ilha, com exceção de autoridades de alto escalão, consegue escapar dos desafios”, disse Piñon.
A crise gerou protestos em Havana, reprimidos pela polícia. Vídeos mostram focos de incêndio. “Estamos começando a ver a quebra da ordem social”, disse LeoGrande. A embaixada dos EUA recomendou que cidadãos americanos evitem aglomerações e economizem combustível, água e carga dos celulares. “Estejam preparados para interrupções significativas”, afirmou.
O diretor da CIA, John Ratcliffe, reuniu-se com autoridades cubanas em Havana para discutir cooperação de inteligência e estabilidade econômica. O chanceler Bruno Rodríguez alertou que os EUA seguem “caminho perigoso” que pode levar a “banho de sangue em Cuba”. “Esperamos que uma solução surja em breve”, disse Piñon.





